Nascimento de Isabela – Parto Domiciliar da Letícia

A expectativa pela chegada da Isabela era grande. Primeira neta do lado paterno, primeira filha de uma filha. Ainda estávamos na 38ª semana e o assunto diário era sobre quando a dona moça ia resolver nascer, como se já estivesse na hora ou passando do tempo.

Como moramos no interior, combinamos com o Dr. Ricardo e com a Zeza de que o parto seria em Porto Alegre na casa que era da minha bisavó, que já faleceu, e que no momento está parcialmente ocupada, mas que continua bem equipada.

Fomos morar na casa da minha mãe alguns dias antes da Isabela nascer. Uma semana envolvidos em fazer a mudança – o que é de uso diário vai para um lado, o que é para a casa nova vai para o outro, encaminhar o que não está em uso e o que não tem mais serventia… Faxina geral!

Encontro de gestantes com a Zeza em Porto Alegre, visita ao hospital, compra de materiais para a casa nova, preparação da lavoura para o plantio e o parto que não chegava nunca…

Tive contrações no domingo (3 de agosto) à noite, após um dia de muito trabalho em função da mudança. Olhei o relógio de 20 em 20 minutos por mais ou menos duas horas e adormeci. Ainda não era a hora.

Na terça-feira (dia 5) fomos a uma maratona em Porto Alegre: almoçamos na casa da vó, visita ao hospital (que era o nosso plano B), consulta médica, compra de piso para o novo banheiro e voltar pra fazenda. Cheguei a pensar que teríamos que ficar em Porto Alegre naquele dia mesmo, mas como não tínhamos levado nada da Isabelinha, ela desistiu e não quis nascer naquele dia…

Quinta-feira (dia 7) após um delicioso jantar, fiquei enjoada e vomitei durante a noite. A piada do dia seguinte era que o pastel não tinha me feito mal, mas sim a sopa, já que eu fui a única que tinha comido sopa no jantar… O mal estar continuou durante toda a sexta-feira. Aquela sensação de querer ficar quieta no meu canto, de não querer ver ninguém mais além do meu marido e de querer organizar os últimos detalhes para a vinda da pequena. Praticamente refiz a mala dela naquela tarde.

E na noite de sexta-feira as contrações voltaram e estavam mais fortes. Agora sim tinha mais cara. Entrei de baixo do chuveiro por volta das 4h de sábado. Saí dali depois de 20 minutos, pois o chuveiro não estava muito bom e a água esfriou. Fechamos as malas, avisei a minha mãe, carregamos o carro e saímos para Porto Alegre às 5h30. No caminho, liguei para a Luísa, minha doula, e para a Zeza, a parteira.

Chegamos em Porto Alegre, na casa da minha bisavó, por volta das 6h30 da manhã de sábado. As contrações durante a viagem pareciam fortes e ritmadas. Apenas chegamos lá e a Luísa também chegou. Ela e o Daniel mal se viram, pois ele já estava muito cansado e foi dormir.

Luísa e eu fomos para o quarto. Ela fez uma massagem gostosa e relaxante nos meus pés e me sugeriu fazer uma despedida da minha barriga enquanto isso. Ainda lembro vagamente da canção que ela entoou tão docemente… “mãe antiga….”

Em seguida chegou a minha mãe. Conversamos, tomamos um café da manhã gostoso. Como as contrações continuavam de 10 em 10 minutos, com algumas fracas entre elas, fomos fazer feira e depois supermercado. Aproveitamos para comprar comida para todo o fim de semana. Frutas, verduras e pães orgânicos e alguns mantimentos para a casa. Caminhar era maravilhoso. E foi ótimo passear pela rua, pois algumas pessoas se aproximavam para perguntar se eu estava bem, se eram contrações e outras me ofereciam cadeira para sentar. Algumas mulheres até me contaram suas próprias histórias de parto. Todos me desejaram boa hora e simpatizaram com o meu desejo por um parto normal.

A manhã de sábado se confundiu com a tarde. Já não lembrava mais quando tinha comido a última vez. A fome era sempre grande, mas cada vez que eu comia vinha uma contração e, em seguida, a náusea, só para estragar o gosto do que quer que entrasse na minha boca.

Mais uma caminhada durante a tarde. Caminhamos pela praça Japão e pela rua… Dava alguns passos e tinha que me abraçar no Daniel, pois vinha uma contração. Ou simplesmente uma vontade de ficar abraçada nele.

Em algum momento naquela tarde falei com a minha prima Jaqueline, que é pediatra, e com a parteira Zeza. Segundo a Luísa, ainda não era para aquela noite. Combinamos de ligar pra ela caso houvesse alguma mudança no panorama e ela foi dormir em casa, com o seu marido e  com a sua filha.

Domingo (dia 10 de agosto, dia dos pais), lá estava ela de volta! Recebi mais massagens, enquanto minha mãe e o meu marido corriam pra cima e pra baixo tentando consertar os dois chuveiros que haviam queimado durante a noite. No final da manhã, chegou a Zeza. Fizemos exame de toque, escutamos o coraçãozinho da Isabela, medimos a minha pressão arterial. Tudo sob controle e com sinais de que ainda ia demorar.

Eu já estava muito cansada e a minha ansiedade era grande. Queria que ela nascesse de uma vez, queria que as dores terminassem logo… o desânimo por conta do cansaço já estava começando a chegar. Mas, por sorte, a Zeza não parecia nada cansada naquele momento, pelo contrário, ela chegou com todo o gás e dizia todo o tempo “taca-le pau Isabela!”. Comecei a tomar homeopatias e o chá da Naoli. Em seguida, um super escalda-pés. Danças com os quadris. Massagens. Diferentes posições durante as contrações (por exemplo, ficar de quatro no chão e levantar um dos lados do quadril e apoiar a perna em uma cadeira). Me pendurei em uma corda e soltei o quadril. Abraços. Carinhos. Beijos. Choros. Gritos. A emoção aumentava a cada contração e, ao mesmo tempo, a tranquilidade tomava conta de toda a casa. Eu caminhava de um lado para o outro e via que todos os que estavam presentes (minha mãe, meu marido, a doula e a parteira) faziam suas coisas, conversavam, riam. Água, muita água!!! Muito chá da Naoli… e chocolate também!!! Assim passamos a tarde. Comia quando eu queria, conversava, ria, cantava. Piadinhas se misturavam com a emoção da eminente chegada da minha filha. Às vezes a Zeza me chamava para auscultar o coração da bebê durante a contração e para conferir a dilatação. Tudo progredia de forma muito tranquila e lenta. E o cansaço só aumentava… As pernas doíam, o quadril se abria. Eu estava muito cansada e tentava cochilar um pouco entre as contrações, mas cada vez que eu adormecia, vinha uma contração muito mais forte.

No final da tarde de domingo entrei em baixo do chuveiro mais uma vez e agora queria a companhia do Daniel. Ficamos lá um tempão, ele sentado em um banquinho e eu agachada no chão e apoiada nele. Recebia massagens e carinho enquanto a água quente corria pelas minhas costas. Quando saímos, ligamos mais uma estufa e… a chave de luz caiu!!! Corre Daniel e corre Helena para ligar a luz outra vez! Já estava escuro, frio e chuvoso lá fora, precisávamos das estufas. Foi rápido para normalizar, mas levamos um sustinho!!

Por volta das 18h, a bolsa rompeu. A dilatação tinha aumentado pouco desde a última vez que conferimos, ainda estava em 6 cm. Chamamos a Jaque e avisamos o dr. Ricardo.

Depois que a bolsa rompeu, parece que tudo começou a engrenar. Agora as contrações eram realmente fortes e já não conseguia dar mais que três passos sem sentir uma contração. Durante as contrações a minha vontade era de ficar com os joelhos bem separados e apoiados sobre uma almofada no chão e apoiando os meus braços sobre a bola de pilates, sobre um sofá ou então, abraçada em alguém, praticamente pendurada, e geralmente era a querida Luísa quem sustentava todo o meu corpo. O trabalho de parto começou a ficar ativo e cada vez mais eu queria ficar no meu canto, sem intromissões.

Lembro de ter ido na cozinha em um momento e, ao ver a mulherada conversando, tive vontade de voltar para o meu cantinho e aí veio uma contração forte. Mesmo assim, quis continuar a “fugir”, então, me ajoelhei e fui engatinhando, mesmo durante a contração. Em outro momento, apareceu o meu pai, a minha irmã e uma prima querendo me ver. Eu só lembro de olhar pra minha mãe e, desesperada, dizer que eu não queria ver ninguém, ninguém mesmo. Naquele momento eu não tinha vontade de saber o que estava acontecendo lá fora, no mundo… a minha única preocupação era comigo mesmo e tudo o que eu queria era poder parir. Parir sozinha, no meu canto. Parir sem olhos de curiosos.

Agora não era só eu que estava cansada… em algum momento daquela madrugada, senti que o cansaço era geral e que todos pensavam “taca-le pau, Isabela!!”. Quando caminhava pela casa, via o meu marido, a minha mãe e a pediatra dormindo. Até a doula conseguiu descansar uns minutos em algum momento… menos a parteira e eu.

A sensação de que eu não ia conseguir parir sozinha, em paz, estava começando a chegar… já sentia que não tinha mais forças. Perguntei à Zeza quais seriam as opções se eu quisesse desistir do parto domiciliar. Ela me respondeu que iríamos para o hospital Divina Providência, chamaríamos o dr. Ricardo, ele me daria ocitocina, as contrações seriam mais fortes e mais freqüentes e o tempo de trabalho de parto ficaria mais curto. E as dores? Dá pra chamar um anestesista se quiseres, me respondeu. “Espera o teu marido acordar, esta é uma decisão que tu tens que tomar, mas que deves conversar com ele antes”.

Quando a Luísa voltou do seu “descanso”, eu entrei no banho mais uma vez. Combinamos que agora seria a vez da Zeza ir descansar enquanto eu estava em baixo do chuveiro. Não agüentei ali muito tempo… Chamei a Luísa e disse que eu já não agüentava mais. Naquele momento, ela me fez lembrar uma das conversas que tivemos, em que ela me disse que ia chegar um momento do trabalho de parto em que eu ia pensar que não conseguiria ir adiante e a vontade de desistir seria grande, mas que eu tinha que persistir e que eu tinha que buscar as minhas últimas forças, pois um parto natural e humanizado eram a minha escolha.

Pelo jeito, a Zeza nem se deitou… chamamos ela e eu queria mesmo chamar o Daniel também para conversar sobre a desistência. Eu estava com dois corações: por um lado, sentia muita dor, estava muito ansiosa e realmente esgotada e por outro lado, eu sabia que eu tinha plenas condições de ter um parto domiciliar, eu tinha confiança em mim como mulher e confiava na equipe que estava me acompanhando. Então, a Zeza disse para eu entrar mais uma vez no banho e que quando eu saísse, ela ia conferir a dilatação e tomaríamos uma decisão.

Parece que a Isabela precisava deste ultimato para resolver nascer… ela já era sapequinha desde quando estava na barriga da mamãe!!! Saí do banho e a Zeza fez o exame de toque: 9,5cm, faltava só um rebordezinho, que alegria!!

Depois desta notícia, parece que eu renovei. Já eram quase 4h30 da madrugada de segunda-feira. Não sei de onde tirei forças para agüentar as últimas contrações. A alegria tomou conta de mim. Fui avisar o meu marido, que ainda dormia: “amor, a nossa pequena está chegando!”. Em um segundo, tudo estava pronto: a banqueta, a bacia com um chá de ervas, um protetor de cama para proteger o carpete, as luvas, o óleo, as contrações cada vez mais fortes e freqüentes. Com o auxílio da respiração durante a contração sentia que ela ia descendo.

Ainda levou aproximadamente uma hora entre a última aferição e o nascimento. Tomei água, caminhei um pouco, sentei na bola de pilates e quando eu senti que a Isabela estava bem em baixo, sentei na banqueta. O Daniel veio, sentou na bola, bem atrás de mim e me segurou. Eu me apoiei nele e esse abraço me aqueceu e me deu segurança. Desde que as contrações tinham começado, tudo o que eu queria e tudo o que eu precisava era da presença do meu esposo. Saber que ele estava ali comigo, mesmo nos momentos em que ele estava dormindo, me davam segurança e esta segurança me deixava tranqüila.

Ela estava chegando, já podia ver e sentir o seu cabelinho… a emoção era muita!! “Mãe”, “Mããããe, vem ver isso!” “Cadê a minha mãe? Ela precisa ver isso!!!” Mais algumas contrações e a cabecinha já estava de fora!!! Foi aí que a Zeza viu que ela tinha uma volta de cordão no pescoço e que ela não ia conseguir continuar descendo. Então, com uma mão divina, a Zeza cortou o cordão umbilical, que ainda estava dentro de mim e em menos de um segundo a Isabela já estava nos seus braços!!! Já eram 5h31 da manhã de segunda-feira, dia 11 de agosto. E toda a dor passou.

Enquanto escrevo, as lágrimas rolam… este é definitivamente, o momento mais especial da vida de uma mulher. E mais especial ainda quando podemos ver e sentir o nascimento dos nossos próprios filhos.

A Zeza e a Jaqueline fizeram o atendimento na pequena-grande Isabela: massagens e aquecimento. Em poucos minutos, ela estava nos meus braços e fomos nos deitar. Seu chorinho era emocionante… Colocamos ela no peito e ela mamou, mamou e mamou e poderia ter continuado mamando direto até agora!!! Só depois de ela ter pego bem o peito e ficado satisfeita é que ela foi pesada, medida e vestida. 52 cm, 3,100kg. Algumas contrações mais, agora bem fracas, como uma cólica menstrual e a placenta saiu inteira, intacta. A Zeza examinou tudo e fez apenas dois pontos “pra bonito”, segundo ela. Ganhei um super café da manhã preparado pelo meu esposo e em seguida adormeci.

Agradeço, em primeiro lugar, ao meu esposo Daniel, que depositou a sua confiança em mim desde o momento em que escolhemos por um parto domiciliar.

Agradeço de coração a todos que estiveram presentes durante estes dias: meu esposo Daniel, que com a sua calma e com o seu amor manteve o ambiente tranqüilo; minha mãe Helena, que providenciava as refeições e os chocolates; Luísa, a minha doula, com seus chás, massagens e conversas; Jaqueline, minha prima e pediatra, que com muito carinho atendeu a minha boneca; Zeza, a parteira, que com o seu humor, deixava o ambiente mais leve a cada contração; dr. Ricardo que, de longe, nos deixava seguros de que tudo estava bem;  minha vó Heloisa e família Maciel, que nos albergaram e que estiveram todo o tempo à nossa disposição.

Este slideshow necessita de JavaScript.