Nascimento Maitê – Relato de parto humanizado hospitalar

“A Decisão”
a Mulher que decidiu
Mani festar a vida nova em sua trilha
navio terra Nave mãe
protetora cápsula casulo
nutrir dar forma doar o sangue
e tantomais
até a filha chegar ao cais
e dali pra diante dar a mão
e tantomais
até o dia de voar
como é de sua natureza
feito 1sonho mágico
carregado de verdade e luz nos poros
o mérito sem fim de doar pro mundo
alguém sem fim
sem esperança alguma
de retorno outro que o amor em si
amplificado ao infinito
(por Luís Nenung)

Aos 31 anos gestei e esperei por um parto normal (PN). Meu menino, que hoje tem 9 anos, veio ao mundo por uma cesárea iatrogênica (quando o desfecho não desejável-no caso o parto cirúrgico-foi causado pela medicina e seus meios em si). Foi uma consequência da analgesia, que acabei pedindo quando estava com 8 cm de dilatação. Meu erro (e não culpa, hoje vejo assim), foi esperar o PN. PN não se espera. Se busca. Se conquista. Se batalha. É assim e pronto. Não adianta bater pé. Como não havia cultura de cesárea na família, pensei que não precisasse fazer este “dever de casa”. Que as coisas se auto-resolveriam. Saúde eu tinha de sobra. Mas era “idosa” aos 30 anos. E meu bebê tinha peso estimado de 4kg na semana 39 de gestação (praticamente uma baleia rsrs). E há 10 anos atrás não sabíamos nada de parto ativo, humanizado, doulas e métodos não farmacológicos para modulação da dor. E eu, apesar de ser médica, subestimei os riscos de ter efeitos colaterais de uma analgesia de parto. Meu trabalho de parto (TP) ia bem até os 6 cm, em casa. Ia bem até quando entrei no hospital, sentei em uma cadeira de rodas e entreguei o braço para um acesso venoso (pra quê???-até hoje me pergunto). Não bastasse isso, deixei que me levassem para o bloco cirúrgico(!), pois lá seria a minha “sala de parto”! Uma mesa cirúrgica estreita e fria de inox e a posição de litotomia seriam o palco do PN que não tive. Claro que não. Urrei por anestesia. Quem não urraria neste contexto? Urro de medo, dor, desconforto, estranheza. Urro contra a frieza e pressa deles. Eu estava há 7 boas horas em um TP bem normalzinho, mas a equipe estava era de bituca no MAP (monitor contínuo de bem-estar fetal x contrações/dispensável em um quadro de normalidade) que amarraram na minha barriga. De olhos no MAP, dando-me ordem de imobilidade para não causar interferência nas medições. Oi??? Quadro posto, como não clamar por anestesia???? Fiz. E imediatamente perdi o tônus da bomba uterina. Atonia total. E então a cesárea intra-parto por conta da discinesia uterina causada pela analgesia de parto. E com a cesárea uma frustração, um blues puerperal mais longo, lágrimas nas fotos, auto-piedade, auto-desvalorização e raiva. Superei? SIM, dia 21 de setembro de 2015, quando nasceu meu segundo filho! Aí embaixo vai o relato sobre minha busca e achado:

Após estes 9 anos, em outro Estado, em outra união, engravidei. Agora poderia ser diferente. Teria a chance de passar a limpo coisas internas mal resolvidas por conta de meu parto cirúrgico de anos atrás e que não melhoraram com o tempo, pois foi o próprio tempo que me trouxe mais informação e certeza de que o fracasso que vivenciei não foi meu. Não foi um fracasso pessoal. Foi do sistema! As opções que tive foram retrógradas, erradas. Eram má pratica médica há décadas!!!! Hoje eu tenho essa consciência, apesar do contexto brasileiro ser idêntico ao de 10 anos atrás. Mas já estava bem melhor para mim, eu já não estava sozinha. Já ecoavam os clamores em prol da humanização do nascimento e da medicina baseada em evidências na obstetrícia!!!

Mãos à obra então! Busquei a doula. Troquei minha GO às 28 semanas de gestação, quando ela “rodou” no teste das minhas perguntas ao dizer que não fazia parto sem anestesia. Que isso era coisa de índia (opa, prazer, índia Simone, da tribo só-tomo-remédio-se-eu-quiser-e-precisar-meu-corpo-minhas-regras). Disse que provavelmente cortaria meu períneo porque assim seria mais fácil suturar as bordas do que se deixasse lacerar de forma natural (mesmo que fosse uma laceração de graus 1 ou 2(!), e mesmo sendo isso formalmente contra-indicado às luzes da boa ciência (as costureiras de roupa sabem disso melhor que a gente, disse ela). Ah, também o hospital onde ela atende (“top one” em Porto Alegre, Moinhos de Vento, “obedece as regras da John Hopkins” e por isso não permite a entrada de doulas: mas fotógrafos de renome são bem vindos!!!). Dei no pé.

Fiz yoga. Fiz fisioterapia pélvica. Segui treino de musculação adaptada até às 34 semanas. Li. Li. Li. Fiz curso de humanização para casal. Doulei muito com minha doula. Massagem. Drenagem. Trabalho e direção até ultimo dia. E então aconteceu. Tudo o que planejei. Sem desvios. Colhi além. Peguei pra mim o que era meu e tava me esperando. Como mágica, parecendo ilusão.

Domingo à tarde, 20 de setembro, fui para a academia do prédio fazer um treininho com o marido. Tentei descansar às 17e30 mas levantei da cama às 18e30 me sentindo estranha. Cocô talvez? Coliquinha? Voltei a deitar com bolsa de água morna. Às 19e30 falei por whats com a doula Zezé que iria contar por uma hora estas coliquinhas/contrações. Não me deu muito crédito. Nem eu me dei. Afinal, não tive nenhum sinal antes! Fiz o pacote banho-cocô-contar: 18 contrações em uma hora… De 3 em 3 min por 40s. Zezé me pediu para tomar banho de novo, relaxar e curtir pois poderia ser TP falso ou pródromo mesmo…hum… Pacote de novo: banho-diarreia-vômito (sentada no vaso agarrada no balde de vômito…curtir? rsrsr). A partir dai peço que marido assuma o celular.

O “dream team” da humanização gaúcha estava em dois partos no hospital que eu tinha escolhido para dar à luz. Eu deveria ir para lá fazer avaliação e talvez voltasse para casa, pois meu desenrolar era meio atípico. Mal sabíamos que eu não só ficaria lá como também seria o primeiro nascimento dos 3 partos em andamento (3 comigo). Às 22e30 cheguei para avaliação. Quatro horas desde que as coliquinhas começaram e duas desde que apertaram em intensidade. Ah, antes de sair de casa perdi água clara com vérnix e parte do tampão na privada. Toque: bebe baixinho, colo finissimo 100% apagado e dois cm de dilatação. Mas teria jogo. E seria rápido. Foi o que disse Ricardo Herbert Jones.

E cumpriu-se a profecia do bruxo. Fiquei das 23h às 1h no chuveiro com a fada Zezé. Ela mais molhada que eu às vezes. Massagem. Óleo. Mantras da Kwan Yin minha deusa chinesa no celular da doula. Eu em forma de cavalo. De pé. Postura de mesa apoiando as mãos numa banqueta baixa. Joelhos esticados. Bola suíça entre as canelas. Não deu para sentar: tinha espinho (rsrsrs)! O espaço de tempo mais calmo era curto demais para que pudesse sentar. Rebolar também não deu. No máximo balancinho para frente e trás. E a menina dentro de mim estalando para sair. Ouvi isso. Uma “audição” interna. Uns “claques” por dentro.

Visualizava em minha mente água a escorrer pelo ralo em redemoinho no sentido horário e na máxima velocidade. A pia era minha pelve. Lá na rua, tempestade. Eu e Zezé no banheiro fumacento com as luzes apagadas debaixo do chuveiro. Entre um e outro abrir e fechar de olhos, neste meu “nirvana” nervoso, espiava pela janela de vidro os relâmpagos. Descargas elétricas varrendo o céu lá fora e dentro de mim uma enxurrada de força animal lavando minha alma com uma cáustica água benta. Não ardia. Era um amor violento lustrando meus espaços, lubrificando cada fibra muscular que eu tinha, acenando com bandeiras de chegada, bradando aos ventos que EU PODIA! QUE EU SEMPRE PUDE! Era a natureza louca tirando onda com seus poderes, regozijando-se ao extrair minha filha de dentro de mim. Porque era hora de respirar. Dentre tantas visualizações que tive, uma era que minhas extremidades eram patas de elefante que avançavam sobre folhas secas que ficavam para trás, sem vida. Folhas de medo, folhas sem a filha fora do útero, folhas de pedir anestesia, folhas de achar que não vai dar conta. Meus passos de elefante ficavam cada vez mais rápidos a cada chacoalhada que eu levava.

Jones monitorou com sonar portátil de forma intermitente o bem-estar da minha filha. Uma beleza. Quando achei que ia ser desossada pelo cóccix lembrei que isso poderia ser a “transição”- olha a intelectualização perigosa ai gente! Mas calei. E Jones me chamou para toque do lado de fora do chuveiro. O obstetra e a doula se falam telepaticamente. Ela falou em puxos. Eu pedi cocô. Ele disse “cocô nada, o nenê ta nascendo já já, escolhe tua posição que agora depende só de ti a hora da saída”. Que???. De dois para dez cm em duas horas e meia? Exato. Então abracei a partolândia. Ensaiei um “de quatro” sobre lençóis no chão. Um cócoras agarrada numa barra da parede. Um Sim’s na cama. E o bruxo me sugere acocar na cama segurando uma barra circular que ele adapta ali. E a fada me põe acocorada ali. Me pede que segure a barra esticando braços e fletindo o pescoço na hora do puxo fisiológico. Não coordeno. O reflexo expulsivo vem junto com uma incontrolável vontade de estender costas e pescoço pra trás, como se tivesse andando de balanço.

Então marido e fada entram em cena para parir junto comigo, efetivamente. Zezé põe o marido a me sustentar de um lado, garantindo meu tronco perto da barra. E ela me ampara do outro lado, garantindo a flexão do pescoço. E assim foi. Acocorada com apoio bilateral físico e emocional, sob a regência do maestro Jones, tive um expulsivo de três ou quatro forças, com um círculo de fogo ameno e curto. Maitê veio serena. Com 3615g e 52cm. Tive uma laceração de pele lateral grau zero-um que teve 1 ponto de sutura opcional.

Tudo que disser além daqui será pequeno e pouco para traduzir a grandiosidade dos momentos que vivi e que já são eternos para nós. Teria que viver mil vezes tudo de novo para talvez conseguir colocar na linguagem das palavras o que ocorreu conosco. A vida, os seres humanos iluminados que me rodeiam, os deuses, a natureza, tudo foi muito a favor desta vivência “sobre-humana” que tive.

Enfim, no século das aberrações obstétricas, das taxas imorais de cesáreas e da tecnocracia de um sistema que quer seguir vendado à informação de relevância científica mundial, curei minhas feridas íntimas aquém do divã, curei na raça, carimbando minha sexualidade, meu gênero feminino, expondo o poder que sempre tive. E que todas têm. Mas a porta abre só pelo lado de dentro. Só a gente pode dar o passo inicial para isso hoje em dia, pois fizeram-nos desaprender a “andar de bicicleta”. Fizeram-nos crer que a maternidade como um todo é complemento, fru-fru, e não ancestralidade, não força vital.

Salve Doula Zezé.

Salve Dra. Ana Cláudia Esteves Codesso.

Salve Dr. Ricardo Herbert Jones.

Salve Enf. Obst. Zeza Jones.

Salve Ed. Fís. Andréia Aires.

Salve Fisioterapeuta Pélvica Ana Cristina Gehring.

Salve Inst. de Yoga Shana Gomes, por tudo que foram, são e serão em minha vida.

Simone Terracciano, Porto Alegre, 24 de setembro de 2015.

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