Nascimento da Ana – Parto Domiciliar VBAC da Christiane

NASCIMENTO DA FLOR 🌺

Onde tudo começou…

Era um final de ano, onde tudo parecia certo como estava, sentada no banco da praça com algumas amigas em uma conversa muito boa e super agradável, eis que surge assuntos em relação ao ciclo menstrual. Me peguei pensando quando tinha sido a ultima vez que tinha menstruado e não consegui lembrar, foi então que minhas amigas começaram a me falar para eu fazer um teste de farmácia para tirar as dúvidas.
Sai de lá com aquele pensamento, nervosa e ansiosa, comentei com o meu companheiro a respeito e fui até a farmácia comprar o teste. Chegando em casa o nervosismo tomando conta, fiz o teste e deu positivo. De momento um choque, medo, insegurança e alguns outros tipos de sentimentos que não consegui identificar de momento.
Na manhã seguinte levantei cedo e fui fazer o teste de sangue BHCG para confirmar, e no final da tarde tive a confirmação. Eu estava grávida, gravidissíma!
Contei a minha mãe com um pouco de receio, e logo após ao meu pai, quando cheguei em casa a família do meu companheiro já sabia e estavam todos comentando felizes, foi então o inicio da minha caminhada como mãe!

Primeiras decisões…

Fui marcar consultas e exames para começar meu pré natal, meio confusa e sem informação alguma, nenhum apoio sobre nada, apenas aqueles comentários padrões que todos dão para uma grávida.
Não sabia para onde correr, ou com quem falar a respeito, e por medo deixei quieto tudo isso e fiz meu pré natal em ‘silêncio’, sem reação alguma nem conhecimento.
A culpa com certeza foi minha disso tudo, mas hoje vendo com outros olhos não me culpo mais, era outra cabeça e outros olhos.
Final da gestação ainda na dúvida se fazia parto normal ou cesariana, muitas pessoas que me cercavam dizia, faz cesarea é melhor, não dói. Mas a dúvida ainda permanecia dentro, e era tipo como se eu estivesse dormindo pra tudo isso, para a minha essência e para o mundo, simplesmente adormecida!
Era um domingo quando acordei 12:00 em ponto, fui ao banheiro, quando terminei de fazer xixi notei que tinha saido o tampão mucoso. Comentei com a minha mãe, que automaticamente já ficou super nervosa e queria que eu fosse para o hospital já, e então liguei para o meu GO e ele disse para eu tomar um banho e ficar tranquila e ir para o hospital para o(a) plantonista examinar e ver se estava realmente em trabalho de parto.
Desliguei o telefone, almocei, tomei meu banho tranquilamente e liguei para o meu companheiro que me levasse até o hospital, sem falar uma palavra durante o caminho, ele parou na frente do hospital, eu desci do carro e entrei. Cheguei lá no CO e logo a GO me atendeu e anunciou, você está em trabalho de parto, está com 4 dedos de dilatação, vou ligar para o seu médico e as 16h faremos sua Cesariana.
Hoje eu me pergunto porque não consegui me impor, porque estava tão adormecida diante dessa situação? O porque disso tudo eu realmente não entedo, apenas acho que não tinha informação e preparação que deveria ter para enfrentar uma gravidez.
Foi então que chegou meu médico, fui encaminhada para a sala de cirurgia e foi feita a cesariana. Nasceu o meu menino, nasceu de cesariana com muita coragem para vir ao mundo com tanta agressividade com que foi recebido, mas o meu amor por ele supriu tudo isso logo após em que me trouxeram ele para mamar.
Arthur foi o meu professor, meu mestre desde pequeno. Ensinou muita coisa para esse ser que não sabia de nada, ensinou o amor de verdade, amor de mãe.

Onde tudo mudou…

Foi então que eu conheci Michele (professora, amiga/irmã), e ela me ensinou tantas coisas. Até que emprestou o filme ‘Renascimento do Parto’, o momento em que meu mundo desabou e eu acordei de verdade para a realidade dos partos, dos nascimentos e da agressividade com o recém nascido. De momento fiquei muito revoltada comigo, e me culpando por tudo. Comecei a ir em palestras, ler livros, pesquisas, filmes e tudo mais que envolvia nascimento. Conheci o parto humanizado, e pesquisei tudo o que pude sobre isso. Pedi perdão ao meu filho por não ter dado a oportunidade dele ter nascido com o respeito que ele merecia, e então com muita dificuldade eu me perdoei.

A nova caminhada…

Eu passava por um momento complicado da minha vida, desempregada, contas para pagar e alguns outros empecilhos. Era uma época que eu controlava tudo, tinha controle do meu ciclo menstrual e tudo mais, foi então que dois dias depois que deveria ter vindo meu fluxo que eu comecei a me preocupar, esperei mais dois dias e nada. Comecei a ficar apreensiva, pois estava passando por um momento difícil, e demorei alguns dias para comprar o teste de farmácia, comprei o teste e pronto positivo novamente. Entrei num estado de choque novamente até entender que estava tudo bem que tudo ia se ajeitar como deveria ser.
Porém desta vez, eu sabia o que queria, sabia como seria minha gestação e como eu iria receber este ser que eu estava gestando.
Foi uma gravidez super tranquila, sem ansiedades como uma mãe de primeira viagem tem e de muita coragem, de muita afirmação e de muito trabalho interno.
Fui acompanhada pela minha querida Michele como doula de inicio, que me auxiliou sempre que precisei, deu todo apoio emocional que eu precisei.
Fui atrás de uma equipe para me atender pois eu queria ter minha filha em casa.
A primeiro momento foi bem dificil encontrar uma equipe para esse trabalho, a maioria não dava informações por e-mails ou qualquer outro meio de comunicação.
Até que então conheci o site do pessoal do ‘Parto Alegre’, entrei em contato como fiz com muitos outros e para minha surpresa, tiraram todas minhas dúvidas e tudo o que eu precisava sem problema algum via e-mail, fizeram meu primeiro atendimento no aconchego da minha casa, com muito carinho e dedicação.
Sem dúvidas ali eu sabia que era elas que eu queria comigo num momento tão importante da minha vida.
Fechamos o acordo e pronto, eu estava mais tranquila e segura e tudo estava indo muito bem, consultas do pré natal normais no Posto de Saúde como qualquer outra pessoa, examens normais, tudo certo como deveria estar.
Ai que chegou mais outra doula para acompanhar minha gestação a querida Marciele (colega, psicóloga e amiga), ela e a Michele fizeram um trabalho emocional profundo comigo, muito importante para essa caminhada tão madura e decidida.
Foi se aproximando o final da minha gestação, foi chegando perto do meu grande desafio como mulher/mãe, parir minha filha.
Uma sexta-feira dia 16/09 fui para minha consulta padrão no Posto de Saúde, tudo certo, muito bem atendida como sempre por este médico, sai de lá, fiz a caminhada ate em casa. Quando cheguei em casa fui olhar minha carteira de gestante e notei que fazia 5 semanas que minha barriga não aumentava mais, achei um pouco estranho, porém não fiquei nervosa, como sempre entrei em contato com a equipe, que orientaram eu fazer uma ecografia se fosse possível. Como disse anteriormente eu estava sem condições financeiras para isso, mas minha mãe conseguiu uma consulta com um GO que fez o pedido da ecografia pra mim, fui até o hospital no dia 19/09 fiz a ecografia e o resultado era de que minha filha estava com restrição de crescimento, fiquei um pouco desconfiada, meu instinto me dizia que estava tudo certo e que não era para ir atrás dessa informação, mas por precaução, eu fui no dia 21/09 neste GO que tinha me encaminhado para a ecografia.
Foi então que ele me disse: Vai até o hospital amanhã para fazer a cardiotocografia e já agendamos tua cesariana. Eu pensei comigo: ‘Oi?’, como assim agendar minha cesariana???
Não gente, para isso está errada, está tudo bem comigo e com minha filha. Sai de lá e já entrei em contato com minha equipe, que prontamente falaram que viriam dia 22/09 me ver e examinar, ai eu sugeri que esperassem até sexta-feira dia 23/09 pois eu tinha consulta com o médico do Posto de Saúde, e elas toparam.
Sexta-feira fui para minha consulta semanal, e comentei o acontecido com o médico, e eis que ele tirou todas minhas dúvidas e me deixou mais tranquila do que eu já estava, pois dessa vez eu estava seguindo fielmente minha intuição.
Ele disse, fique tranquila, está tudo certo, teus exames não deram alterados, está tudo certo, mas se quiser tirar dúvidas pode fazer uma ecografia específica para te tranquilizar. Eu sai de lá sem vontade de fazer essa ecografia, pois eu acreditava em nós (eu e minha filha), entrei em contato com a equipe para contar e disse que não precisaria elas virem, porém mesmo assim elas vieram de Porto Alegre até Farroupilha para nos ver, e garantir que estava tudo certo.
Vieram, examinaram, deixamos tudo ajeitado já, o que precisaria para o grande dia, mostrei onde ficava tudo, o que elas iam precisar e tudo mais, estava tudo em paz, estava tudo certo.
Nos despedimos e firmamos, agora nos vemos só no dia do parto!
Era domingo dia 25/06 e eu resolvi fazer a faxina, deixar tudo pronto. Ah o instinto nunca falha, a mamãe arrumando o ninho (inconscientemente) para a chegada de sua flor.
Mudei todo o quarto, para ter um espaço maior de movimento no dia, arrastei coisas, limpei, fiz tudo o que podia. Acendi minha vela diária pedindo proteção como sempre fiz durante todos os dias da minha gestação, e descansei, porem notei que meu gato não saia da minha volta, então eu vi que se aproximava a chegada da minha pequena.
Era madrugada de segunda-feira, 5h e eu comecei a sentir umas dores leves, umas cólicas… Virei para um lado para seguir dormindo e continuou, virei novamente e continuou, então eu levantei, fui até o banheiro e saiu um pedaço do tampão, foi então que resolvi entrar em contato com a minha parteira Ana Terra, ela pediu que eu anotasse as contrações na próxima hora, foi o que eu fiz.
Contrações de cinco em cinco minutos e entrei em contato para avisar ela novamente. Ela disse que iria entrar em contato com a outra parteira da equipe a Luiza e pediu que eu avisasse as minhas doulas.
Então foi que eu perguntei a ela: Então chegou a hora né?
E ela respondeu: Sim, é hoje!
Seguimos em contato eu informando e perguntando o que precisava, falei com as doulas e elas me auxiliando lindamente.
Levantei vesti o Arthur para ir a escolinha, e ele veio até o quarto me dar um abraço, um abraço de despedida como dizendo, força mamãe, vai dar tudo certo!
E eu entrei no profundo trabalho de parto.
Era 7h da manhã e eu mandei as anotações das contrações, enviei a Ana Terra, e ela pediu se as doulas já tinham chegado e eu avisei que ainda não.
Avisei que as doulas chegariam as 9h e elas me avisaram que estavam a caminho já.
Ali por 8:30 eu já estava entrando na partolandia como dizem, saindo desse mundo para voltar depois renascida junto com minha filha, enviei uma mensagem para a doula dizendo que tinha muito frio e ela disse para eu ir para o banho. Fiz o que ela pediu e minha mãe nervosa com a situação toda pedindo a cada segundo se eu estava bem, se eu precisava de algo ou se queria ir para o hospital. E eu só disse que não, não queria nada dessas opções que ela tinha me falado.
9h e chegou as doulas, eu já não tinha noção de tempo e espaço, somente concetração em tudo que estava vivendo, a cada contração um mergulho profundo buscando força e equilibrio para seguir a jornada.
Michele e Marciele chegaram com todo aquele amor e carinho, toda aquela bondade e respeito, ajudaram eu sair do banho, já entraram com florais, e o mais importante o silêncio e o olho no olho, o que foi muito importante pra mim.
Michele com seus chás e suas massagens ayurvédicas, que me ajudaram a aliviar muito o processo de dor, foi de muita importancia.
10h e chegaram as parteiras Ana e Luiza, entraram silenciosamente, avisaram que iam medir a pressão e escutar o coração da minha flor. Comunicaram que estava tudo certo com a pressão e o coração, porém minha flor não tinha descido ainda, comunicou também que a qualquer momento que eu quisesse ela poderia fazer o toque se caso eu desejasse, como eu não falei nada ela entendeu que eu não queria.
E assim ficaram ali, me olhando, me auxiliando, escutando a cada contração a minha verbalização, a cada dor uma inspiração profunda e uma exalação vocalizada o que me ajudou muito, ver aquelas 4 mulheres ali me dando força foi a coisa mais forte e emocionante que já vivi em toda a minha vida, um circulo de mulheres, um circulo do feminino, a força e o amor. Me senti lá no passado, onde tudo estava certo, onde mulheres pariam seus filhos em um circulo de outras mulheres, apoiando se empoderando.
Eu me senti a mulher que eu nunca imaginei ser, me senti guerreira, parideira e com uma força jamais vista. Eu morri e renasci, fortalecida, empodeirada literalmente a loba (Quem já leu mulheres que correm com lobos, ira entender).
Passado algum tempo a parteira Ana veio medir a pressão novamente e escutar o coração, estava tudo certo com a pressão e eis que escuto ela já desceu um monte, logo ela perguntou se eu sentia vontade de fazer força e eu disse que sim. Então foi feito o movimento de organizar o que faltava para a chegada, sentei na banqueta de parto com ajuda delas, e elas trouxeram o material que seria preciso para o momento.
Acabou acontecendo uma falha de luz no meu quarto e elas acenderam velas por todo o lado para a chegada da minha flor, foi tão lindo e aconchegante, estava tudo certo como deveria estar, como sempre falei, melhor que o planejado.
Estavamos então a luz de velas, e todo apoio do mundo dessas mulheres.
Concetrada na minha dor, na respiração e na vozalização eu seguia em frente, e em nenhum momento eu pensei em desistir, só pensava em buscar forças e segui firme e decidida.
Foi então que começou o movimento de expulsivo, Michele e Luiza serviram de apoio pra mim, foi de muita importancia esse apoio, Marciele registrava com video o nascimento e Ana Terra aguardava a chegada da minha flor.
Fiz força, respirei e me recuperei, fiz força novamente e respirei novamente, fiz força e senti o circulo de fogo, escutei a minha parteira Ana Terra e minha doula Marciele falarem veeeeem Ana (cantando), e isso me deu uma alegria imensa, em saber que minha filha estava nascendo e que eu, eu estava parindo ela (lágrimas).
Fiz mais uma força e pronto, ela veio, chegou ao mundo como merecia, com todo o amor e respeito que deveria e merecia, chegou quebrando paradigmas, nasceu de parto normal e humanizado na minha casa, após uma cesariana, nasceu com o circular de cordão, nasceu em meio a muito amor.
No dia 26/09/2016 às 12:12 veio ao mundo a minha flor, minha Ana Carolina, com 2.960Kg
Minha mãe veio em lágrimas conhecer sua neta, e agradecer, e minha fala foi: Viu eu consegui!
Ana Carolina veio também para mostrar que não tem nada de mais de ter um filho de cesariana, hoje eu falo com orgulho, sim eu tive um de cesariana e outro de parto normal.
Não sou contra a cesariana, sou contra ao desnecessário.
Aqui deixo a minha gratidão a Michele, Marciele, Ana Terra e Luiza que me auxiliaram nessa linda caminhada com tanto amor e respeito, sem vocês nada disso teria acontecido.
Minha gratidão a minha mãe, que apesar de tudo sempre me apoiou, com medo mas apoiou.
Minha gratidão também as pessoas que contribuiram com ajuda para que meu parto acontecesse.
E por fim a gratidão imensa aos meus filhos, pois foi por eles que eu mudei e me tornei quem sou hoje.

“Que todos os seres sejam felizes.”

Christiane Martins Araújo

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