Relato de Amamentação Renata e Iandara

As dores das contrações passam… A dor do parto passa… E a dor da amamentação? Será que vai passar???

Relato de amamentação

Os primeiros 15 dias: “Está ótimo!”

Essa pergunta era a que não saía da minha cabeça: será que essa dor vai passar? E mais.. Pensava: será que vou aguentar? Ou vou ter que dar fórmula por não aguentar mais de dor? Doía muito nas primeiras sugadas, depois não doía, mas era muita dor, eu chorava, gritava, batia com pé no chão. A enfermeira obstetra veio em casa no pós-parto e falei que doía muito no início e o que ela me responde: “só no início da mamada dói? Então está ótimo!” Ela foi embora e eu fiquei ali… Perplexa! Como assim ótimo?? Eu não sei se vou agüentar amamentar um bebê recém-nascido e está ótimo?? P*** m**** o que eu vou fazer agora? Desespero total! Mas tivemos uma ideia: eu tiro o leite e agente dá para ela, daí ela não sugando, não dói. Tentamos com uma colher, só choro e grito de desaprovação, com conta-gotas, com copinho e nada, só choraçada… Tive que continuar dando no peito mesmo. Não imaginava o que seria rachadura nos mamilos, que tanto se ouvia falar, pois agora eu estava sentindo!

Conversava bastante com meu companheiro, que presenciava tudo isso, todo meu sofrer… E era comum agente decidir que só mais hoje vou dar no peito, como a dor é demais vamos iniciar com a fórmula amanhã, e aí esse “amanhã” eu não sentia tanta dor, achava que conseguiria aguentar mais um pouco. E assim foi indo, dia após dia, que nem Alcoólicos Anônimos, decidindo que amanhã íamos iniciar com a fórmula, mas esse amanhã não chegou…

Minha doula (que dá apoio à amamentação) me falava que se eu tivesse algum problema era para logo pedir ajuda, não deixar o tempo passar e, realmente, de um dia para o outro as coisas pioram de uma forma que parece que não vai mais ter volta, por outro lado, às vezes milagrosamente melhoram: a dor não é sentida numa mamada ou outra, é tudo muito dinâmico. Com o “está ótimo” e meu desespero achei melhor buscar sua ajuda. Pensava que teria alguma dica quente, uma receita secreta, qualquer coisa que fizesse com que minhas mamas ficassem mais resistentes, menos sensíveis! Menos dor, por favor! Para minha decepção não existia receita! Ela me contou da sua experiência pessoal, também com problemas na amamentação, o que parecia pior do que eu vivenciava naquele momento e o que ficou disso tudo foi:

“Sim, dói! Temos que aguentar, ter persistência! Somos mulheres guerreiras e vamos conseguir! Queremos dar o melhor para nossos bebês e o melhor é o leite materno! Minha filha precisa disso, eu fui amamentada até por volta de 2 meses e não quero que isso se repita com minha filha, acredito que fez muita falta para mim e acho muito importante que minha filha usufrua o amamentar até os seis meses, no mínimo!”

Então essa visita valeu como uma injeção de ânimo e a consciência de que eu precisava aguentar.

Estávamos morando com minha mãe e como é difícil essa convivência! Tem o lado bom de ajuda nos a fazeres domésticos, mais um colo para revezar (minhas costas também doíam), mas por outro lado os palpites, os comentários, a experiência de quem já teve filho e quer que o neto tenha o mesmo tratamento. Depois de 30 anos as coisas mudaram muito, e eu lia, estudava, profissionais me orientavam, trocava experiências com outras mães, mas minha mãe tinha suas convicções que se conflitavam com as minhas e do meu companheiro. Qualquer chorinho, às vezes só um gritinho ia lá minha mãe pegar ela no colo e me trazer dizendo que ela queria mamar, que estava chorando de fome. Ai que raiva que eu sentia! Sabia da importância da livre demanda, mas com meu companheiro o bebê aguentava um pouco mais no colo e aí era possível espaçar mais as mamadas. Às vezes ele chegava a ficar 1h com a Iandara, se fosse tanta fome ela não aguentaria todo esse tempo, não? E era esse intervalo maior que percebia ser importante também para minhas mamas se recuperarem (o tecido em carne viva). Temos que ir criando estratégias, como essa de ficar com o pai, que distraía o bebê.

Tudo isso nos primeiros 15 dias de vida da Iandara. Primeiros 15 dias de mãe.

Muitas vezes tive que escutar da minha mãe que eu não tinha mais leite, que o bebê sentia fome, porque eu não sentia o leite descer, e até hoje não sinto! Foi muita pressão psicológica para eu iniciar com fórmula. Tudo bem que minha mãe estivesse preocupada com o bebê, mas ela estava ganhando peso bem, então não tinha o que se preocupar. Chorar todo bebê chora e não necessariamente é de fome! Mas minha mãe não conseguia aceitar isso. Imagina só uma recém mãe, com uma mega mudança hormonal, mais sensível, primeira filha, tudo novo, indo morar com a mãe e o companheiro, sentir muita dor no amamentar, mas ter a convicção que era isso que eu queria continuar fazendo e escutar muitas vezes: “tu não tem mais leite! Ela passa fome!”. Isso foi muito forte. Sem contar que com a dor nas mamas eu não conseguia pegar a Iandara no colo, pois encostava nas mamas. Puxa vida! Não pegava meu bebê no colo! Era muito triste!

Este é um relato do início da amamentação, depois vieram coisas bem piores e desafiadoras para mim, que relatarei depois. A mensagem que deixo é persistência e força! Agente consegue: eu consegui!

Renata e Iandara.

 

Publicado em 17.08.2014