Relato de Amamentação Deise e Antônia

ADQ-79

Quando nasceu minha filhinha Antônia, acreditava estar preparada para amamenta-la e de fato tivemos sucesso nas primeiras horas. Meu mamilo era muito pequeno, quase plano, mas Antônia e eu nos entendíamos, ela mamava quase sentada e pegava bem. Ao observar meu mamilo uma técnica em enfermagem disse que eu deveria usar um bico de silicone para facilitar as mamadas. Lembrei que ganhei no chá de fraldas (e naquela época não sabia para o que servia tal objeto). Na alta hospitalar uma enfermeira fez as orientações dos cuidados ao bebê e a amamentação e alertou que eu deveria evitar o uso do bico de silicone ao seio, dentre outras coisas ele diminui o volume do leite recebido. Além de ser uma barreira, evitando o contato do mamilo com a boca do bebê. Prontas para ir para casa Antônia precisou coletar sangue para dosar a bilirrubina, ela estava amarelinha, o resultado foi limítrofe. O pediatra nos liberou com o compromisso de comunicarmos seu estado no dia seguinte. Foi ótimo virmos para casa, eu necessitava disso. Mas, no dia seguinte ela parecia uma cenourinha, o amarelão havia aumentado. Dosamos novamente a bilirrubina e o pediatra nos aconselhou a internação. Internamos na UTI-Neo para fototerapia. Senti uma dor em estar naquele ambiente que eu bem conheci como profissional, apesar de racionalizar que estávamos por um motivo relativamente simples, foi muito sofrido. E, havia uma ambivalência em meus sentimentos, ao mesmo tempo em que sofria percebia que havia dores e sofrimentos maiores. Refiro-me as mães e pais dos bebês prematuros que necessitavam de internações longas. No entanto, cada um sente e vive suas dores de acordo com seu momento. Ficava o dia com Antônia, chegava às 7:00 passava no banco de leite para esgotar, pois a mamada era em horários fixos (9, 12, 15, 18, 21, 24, 03 e 06) e voltava para casa às 22:00, graças ao cansaço físico eu adormecia longe da minha filhinha. No primeiro dia de internação Antônia mamou no meu peito e recebeu mamadeira apenas nos horários em que eu não estava. Sim, mamadeira, o pediatra e também o hospital que ela ficou internada não abriam mão desse “instrumento de alimentação”. No segundo dia ela veio para meu colo e quase não mamou, dormiu. A técnica de enfermagem colocou-a na incubadora para que ela não ficasse mais de 30 minutos sem receber a fototerapia, no entanto ela ofereceu a mamadeira com a luz desligada. Isso me magoou profundamente, me senti desrespeitada e impedida de ficar com meu bebê. No terceiro dia tivemos alta hospitalar. Esse breve período foi suficiente para que Antônia tivesse dificuldade em mamar no meu peito, ela sugava pouco e dormia e a noite chorava muito, após uns seis dias me dei conta que o choro poderia ser fome, no pediatra o peso confirmou, Antônia passava fome. Comecei a oferecer uma mamadeira com fórmula, uns 30 ml à noite. O pediatra reforçou esta iniciativa, pedindo que eu oferecesse mais vezes e em volume maior. Muito insegura, querendo amamentar e sensibilizada com a necessidade de que Antônia ganhasse peso chamei a Luísa (Auxílio à amamentação), dentre todas as orientações (muitas das quais eu conhecia), pega, posição, etc. ela me dizia confia, confia que és capaz de nutrir tua filha. Isso não fazia sentido, só fui entender o que essa palavra queria dizer quando estava amamentando plenamente. Tinha produção de leite, porém, produzia o que Antônia demandava e, era pouco. Assim, aluguei uma máquina para esgotar e oferecia meu leite em mamadeira após ela mamar no seio, o oferecimento da mamadeira não era tranquilo, fazia isso com resistência, mas era necessário. Cheguei a oferecer meu leite em copinho, muito leite era perdido. Dez dias após a consulta com o pediatra e só oferecendo leite materno Antônia ganhou 500 gramas, 50 ao dia. Isso me deixou muito feliz e orgulhosa por ter persistido. Ao final do primeiro mês Antônia mamava só no seio e ficava satisfeita, dormia bem e pegou peso rápido. Minha produção aumentou consideravelmente com a ordenha, como ela mamava só um peito, o leite do outro armazenava para doação para uma UTI pública com serviço de busca do leite, durante três meses doei, depois Antônia passou a mamar mais e também, comecei armazenar leite para quando ela fosse para escolinha. Em breve Antônia fará um aninho e continuo amamentando e assim o farei até que uma de nós decida parar, espero que seja ela daqui mais um ano.

Publicado em 03.08.2014