Relato de uma doula – Nasce uma vida, nasce uma família, renasce uma doula.

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Relato de uma doula – Nasce uma vida, nasce uma família, renasce uma doula.

Muitos de nós que trabalhamos com a humanização do nascimento sabemos o conceito de doula: Palavra que vem do grego , aquela que serve, mulher que dá suporte emocional e apoio à gestante, orienta, ajuda nas escolhas, etc. Entretanto, só sendo mesmo uma verdadeira doula é que podemos saber o que significa esse trabalho.

Resgatando um pouco da minha história, me vejo em 2011, muito entusiasmada com a possibilidade de ser uma doula, me inscrevendo para o curso que aconteceu em agosto daquele ano em Porto Alegre. Ainda não me via como tal, ainda não sabia que eu seria capaz de acompanhar uma gestante, um casal, em um momento como o nascimento de uma nova vida. Lembro que na hora das apresentações na formação, pensei num motivo qualquer para justificar a minha presença ali… Pensava o quão maravilhoso poderia ser estar presente em um parto, ver aquele momento do nascimento, mas até então, só o momento “da saída do bebê” que estava na minha mente, nem cogitava a importância do todo. Soava mais como a possibilidade de uma aventura, digamos.  Mas as coisas mudaram.

Esse curso foi somente um impulso para um mergulho profundo nas águas do oceano do gestar, parir e nascer.  O assunto é sério, o caminho é sem volta. Uma vez que nos tornamos “adictas da ocitocina” (só natural !!!), é difícil ver uma gestante e não pensar  no quanto seria bom para aquela mulher ter um parto respeitoso e digno. Ao longo do contato com muitas gestantes no Grupo Parto Alegre, nas aulas de yoga e com o meu próprio processo de gestar e parir, que foi a culminação disso tudo, foi nascendo em mim a doula de verdade. A pessoa que realmente teve coragem de se assumir e,  à partir deste momento, somente quando eu estava pronta, foi que o universo fez com que 3 lindos casais cruzassem o meu caminho. Praticamente todos ao mesmo tempo. Foi o meu batizado. Antes disso, quando minha filha tinha só 2 meses, acompanhei uma amiga querida no seu parto domiciliar, mas como ela teve que ir para o hospital, acabei não ficando até o final do processo com ela.

O fato de ter passado pela experiência de um parto domiciliar me impulsionou  e me deu muito mais segurança no meu trabalho. Minha filha, Anahí, fazendo o trabalho dela lá de dentro da barriga, minha parteira, sua assistente e meu marido foram meus grandes primeiros professores de aula prática da arte de cuidar de uma mulher parindo.

V. foi a primeira mulher que acompanhei desde a metade da gestação até o parto efetivamente.  Conectamos bem e conseguimos desenvolver um trabalho muito legal durante a gestação. Seu marido M., também viveu ativamente o processo, ficando mais confiante e tranqüilo, transformando sua visão de parto e ajudando muito sua esposa na hora de trazer o bebê para seus braços. Saí muito fortalecida daquele parto. Um parto à jato, quase sem dor, chegamos no hospital já no expulsivo. Dia 11/04 vi, depois da minha filha, o primeiro bebê chegar ao mundo, emoção que não se explica em palavras.

O dia do segundo nascimento chegou logo, na meia-noite do dia 02/05 A. me liga dizendo que sua bolsa rompera. Foi minha primeira experiência de parto prematuro. As 5h nos encontramos no hospital e pude viver com aquele casal uma profunda experiência de trabalho de parto, um trabalho espiritual de parir muitas coisas além do bebê. Aprendi muito.

Depois destas experiências já me sentia outra pessoa, que privilégio poder contar com uma escola tão especial na vida, estava aprendendo arte de doular na prática. Tanto eu sabia de teoria, de técnicas… Mas a verdadeira técnica está guardada dentro do coração, pois só com muito amor e dedicação se faz esse trabalho! Não tem apetrecho, técnica de massagem, óleo, rebozo, nada que seja mais importante do que a presença, o ancoramento.

Para brindar a tríade de nascimentos, chegou a hora da C. parir. Uma mulher linda, especial como todas as outras, mas que me deu a oportunidade de ver um lótus dourado se abrir na sala de parto do HDP. Junto deste bebê, nasceu uma fêmea poderosa, delicada, foi o desabrochar da ancestralidade feminina. Ao mesmo tempo, eu estava ali para ajudar uma equipe de parteiros dos mais amorosos. Cúmplices de sua paciente, um pai tranqüilo, um nascimento inesquecível, voltei para casa “ocitocinada”.

Então, através destas experiências, estou tentando construir, para mim e para quem mais ler este texto, o conceito de doula. Pensemos na seguinte frase :“A doula dá suporte”. Suporte é uma palavra forte, pois dar suporte, suportar, abre a possibilidade para muitas coisas… A capacidade de suportar a demanda de uma mulher que vai parir além do bebê, os seus medos, suas inseguranças, suas angústias e fantasmas, saber entender e ajudar nesse processo é algo que talvez nunca ninguém aprenda por completo. É um aprendizado que não tem fim, tem que estar disposta!

Por isso, eu, como doula, parabenizo todas as minhas colegas de profissão, de caminhada na jornada de humanizar e também peço a todas que saibamos nos colocar em nossos lugares, que respeitemos essa profissão que está lutando pelo reconhecimento, que não queiramos fazer mais do que estamos aptas, que não protagonizemos os partos no lugar das parturientes, que sejamos atentas, que estejamos presentes de alma coração e mente, saibamos falar na hora certa e também sermos silentes.

Com carinho,

Shana Gomes.

Mãe da Anahí, doula, fotógrafa e instrutora de yoga para gestantes.

Para inspirar a mulherada, deixo vcs com Rosa Zaragoza – ILUMINA!