Relato de um pai – Gustavo Cabral

Em Março, após dois meses fazendo uma linda viagem de Porto até a Chapada Diamantina. Quando tivemos a oportunidade de conhecer lindas pessoas de muita paz, receptividade,amor e luz , voltamos a Porto Alegre acompanhados por um serzinho (menor que um amendoim, de aproximadamente 6 semanas).

Foi uma felicidade sem tamanha receber aquela notícia. Me arrepio todo sempre que lembro. Em cerca de 8 meses viria ao mundo uma criança trazendo luz e esperança de um mundo melhor, vindo de alguma outra dimensão do cosmos pra nos socorrer aqui, junto de toda uma geração porreta.

Pode se pensar muito à respeito das mudanças que ocorrem depois de saber que me tornaria pai de um ser humano, em pleno 2016.
Com certeza um grande desafio, talvez o maior de todos. Por conta disso, desde o primeiro dia começamos a busca por maneiras de preparar bem o terrerno pra esse Ser chegar ao mundo de forma acolhedora. Não ignorarr todos os problemas que esse mundo doente sofre mas focar em como nós podemos, nas nossas relações, deixar ele mais leve. Portanto resgatar nossa ancestralidade na busca por compreender a essêcia do nosso Ser. E como podemos aprender na natureza o mais sutil e verdadeiro ato de amor e de pertencimento à ela como um todo.
Era importante começar a mudar alguns hábitos que sugavam energia em demasia. Comportamentos que já não faziam sentido dentro da perspectiva de mundo que idealizamos. Nossa visão crítica precisava de mais atitude transformadora e menos teoria a essa altura.

A partir desse pensamento procuramos nos alimentar sempre que possível de alimentos sem veneno, produzidos pela agricultura familiar. Tanto para consumir quanto para os alimentos que Preparamos e vendemos. Apoiar minimamente movimentos sociais adeptos da agroecologia que fazem um contraponto ao agronegócio, no país onde 70% da alimentação consumida pela população é produzido pela agricultura familiar e ao mesmo tempo é a população que mais consome agrotóxico no mundo. Entendemos que além de ser benéfico pra saúde,a produção de alimentos sem veneno configura um ato político, social, economico e tecnológico transformador e queremos ser parte disso.
E aos poucos ir integrando uma cadeia onde se produz respeitando nosso corpo, aproximando quem prepara o alimento pra si, pra sua família, seus amigos ou até desconhecidos com as famílias que plantam aquele alimento, cuidam da lavoura, amam o que fazem, adoram dar conselhos de preparo e armazenamento dos alimentos (E nós amamos ouvir).
Devagarinho plantamos umas sementinhas, e sabemos na prática, que é possível e muito mais gratificante comprar de quem faz, de quem nada contra a maré, tendo relações harmônicas com a natureza, contrariando a lógica do mercado. É enriquecedor essa busca por práticas “novas”, pois sempre foram praticados por nossos ancestrais e agora estamos tendo a oportunidade de resgatar. Foi inclusive, dentro dessa mesma ótica que surgiuram algumas questões sobre o parto que viria a ocorrer dentro de alguns meses.
Shariza levantou uma determinante. Me mostrou dados sobre o alarmante número de 55% de cesarianas no Brasil – sendo 85,5% realizados no sistema particular e 36% no sistema público de saúde – contra 45% de partos naturais. Enquanto em outros países esse número é bem menor.
A recomendação da organização mundial da saúde (OMS) é que a taxa de cesárias permaneça entre 10% e 15%. Segundo o Ministério da Saúde, mulheres submetidas à cesariana tem 3,5 vezes mais probabilidade de morrer e cinco vezes mais chances de ter infecção no aparelho genital após o parto. Além disso, a prática de agendamento do parto aumenta o risco de nascerem bebês prematuros. Ou seja, a cesariana deveria ser executada apenas em casos que oferem risco de morte. No entanto os números mostram que essa prática vem se tornando cada vez mais frequente no Brasil principalmente nas últimas duas décadas.

Entre os países com o nível desejado de 15% de cesarianas, encontra-se a Holanda, onde a tendência crescente de partos realizados em casa, com uma abordagem mais natural, sem anestesia e com o apoio de parteiras em vez de médicos, provou-se uma boa forma de conter o aumento dos partos cirúrgicos. Hoje, cerca de 65% dos partos feitos no país ocorrem em casa, o que faz com que a incidência de cesáreas eletivas seja bem pequena.

Tudo isso nos fez ir atrás de mais informação e de como evitar uma cesariana desnecessária, violências obstétricas e traumas que um nascimento pode acarretar e que tantas mulheres e recém-nascidos são submetidas, simplesmente por que essa informação não é difundida devido a interesses, obviamente envolvendo o poder econômico da indústria farmacêutica que lucra mais com cesárias do que com partos naturais e com o apoio de grande parte da classe médica na difusão dessa tendência.

Também desejávamos que fossem respeitadas às vontades e necessidades da gestante. O bebê entrar diretamente em contato com a mãe no momento do expulsivo, não cortarem o cordão umbilical imediatamente, não levar a criança pra longe da mãe e do pai quando não há risco a nenhuma das partes, a presença do/a companheiro/a durante todo o trabalho de parto, etc. Que muitas vezes configuram traumas ao recém nascido enquanto são procedimentos padrões em hospitais. Procedimentos comprovados, cientificamente, equivocados e diretamente relacionados ao aumento do risco de infecções hospitalar. Além de ser um impedimento de livre-arbítrio e autonomia da gestante.

Fora aquilo que está por trás da preferência por muitos médicos em persuadir a escolha da mãe por uma cirurgia; alegando falsos ou inadequados diagnósticos ou simplesmemte forçar partos induzidos quando não há razão para tal e sem a permissão da gestante. Médicos preferem cesarianas, muitas vezes, porque podem marcá-la com antecedencia, em vez de esperar durante horas que a parturiente conclua o trabalho de parto. Soma-se o aumento dos planos de saúde privados, alguns dos quais reembolsam médicos e hospitais a taxas mais altas em caso de partos cesarianos.

Por iniciativa da Shariza, que sempre leu e se informou muito mais que eu, passamos a participar de encontros e ler artigos sobre parto humanizado. No qual é respeitada a vontade da gestante por meio do plano de parto, há o resgate do parto como acontecimento ínico e todo aspecto sagrado feminino da geração de uma vida, a presença da atuação da doula e da parteira junto a gestante em vez de cirurgiões, anestesias, bisturis e outras coisitas mais.
Essas informações foram fundamental pra optar em fazer o pré-natal todo pelo SIstema Único de Saúde (SUS), e pelo menos uma vez por mês participar de rodas de conversas proporcionado pela Parto Alegre, que segue uma linha de estudos atual. Defende o aleitamento materno em livre demanda, a criação com apego, alimentação saudável, educação consciente e diversas práticas de prevenção na constituição do ser pelos cuidados da mãe e do/a companheiro/a no início da vida para um desenvolvimento saudável para o bebê.

Foi em encontros da Parto Alegre que conhecemos três pessoas lindas e muito importantes na nossa vida. A parteira e enfermeira neonatal Ana Terra, a também enfermeira Luíza e a Shana, doula. Tenho uma gratidão eterna por elas terem cruzado por nosso caminho. Não sei o que seria de nós sem elas. Foram elas quem a Shariza escolheu pra ser nossas parceiras quando optamos pelo Parto Domiciliar Planejado.

PARTO DOMICILIAR, coisa que eu nem sabia que era possível há um ano atrás. Achava que nascer em casa era coisa de uma realidade muito distante da minha, em situações e locais onde não existe hospital por perto, sei lá. Não tinha noção de como era mais comum que se imagina e dos benefícios que traz a todos envolvidos nesse processo. Em especial à mãe e a criança.

Preferimos não compartilhar da nossa decisão com a família e boa parte dos amigos. Apenas falávamos da preferencia pelo parto natural, pois optamos em deixar o ambiente em que vivemos com menos preocupações vindo de fora possíve. bastavam a nossa ansiedadezinha pra dar tudo certo e não ter a necessidade do parto hospitalar. Por tudo que lemos e ouvimos de coisas absurdas que acontecem no parto em hospitais, mesmo quando não são cesárias. Intervenções desnecessárias, violencias obstétricas, afastamento da mãe e o bebê após o nascimento, procedimentos ditos padrões que não fazem o menor sentido, abusos reais que passam batido por já terem sido naturalizados.

Enfim, nossa equipe havia sido escalada, os preparativos estavam evoluindo e o dia do nascimento se aproximava. Ainda havia um desejo de nossa parte e uma dúvida. Moramos num apartamento de 1 quarto pouco espaçoso e pensamos que poderia ser melhor achar um novo lugar pra morar antes do parto, um pouco maior. E ainda não tínhamos nem ideia do nome pro menino que estava pra vir. Como já se aproximava o oitavo mês aceitamos que uma mudança a essa altura do campeonato já não tinha necessidade, capaz de trazer estress e atrapalhar no andamento do fim de gestação. O nome da criança, após algumas tentativas de consenso, decidimos que no dia que nascesse iríamos olhar e ia surgir um nome lindo na nossa cabeça que agradasse aos dois.
(A minha sugestão de por George Clinton ou Paulinho Boca de Cantor não colou, como já era esperado.)

Pois bem, no dia 6/11, Domingo, fomos Passar uma Tarde em Itapuã, com nossa cachorra Lazy e uns pasteizinhos fritos. O dia tava lindo, tinha um ventinho tri bom, paramos no meio da estrada e ficamos numa sombra, sentados na grama, sentindo a paz daquele momento. Tiramos as últimas fotos ainda com o barrigão, embora não soubéssemos disso.

Segunda pelas 6h da manhã, Shariza foi no banheiro e voltou com uma cara meio apavorada. tinha uma mancha estranha na calcinha. Eu fiquei meio apavorado também, mas não falei nada pra ela. Ela bateu uma foto e enviou pra Ana, nossa parteira.

A resposta foi que era normal, tava tudo bem, e que o tampão do útero estava começando a sair, o que poderia indicar um início de trabalho de parto, mas que não nos preocupássemos por que como não havia contrações ainda podia demorar um dia, dois talvez até mais. Naquele dia ficamos mais em casa, esperando os sinais mas ficou naquilo, conversamos com o bebê, ficamos reservados, caminhamos um pouco na rua, compramos umas velas pra quando fosse a hora, mas nada de contrações.

Como a Shariza não queria arrumar a mala caso fosse necessário o Plano B (ir para o hospital se ocorresse alguma intercorrência) designou essa tarefa pra mim. Eu dei uma ajeitada nas coisas, conferi se havia tudo em casa, mas deixei ela meio de canto, não dei muita bola, algo me dizia que não iríamos ao hospital. O maior medo da Shariza era esse.

Na Terça, mais ou menos no mesmo horário a mancha tinha aumentado e também escorreu um pouco de sangue quando ela foi mijar. Entrou em contato com a Ana e a Shana, enviou algumas fotos e elas disseram que tava tudo certo, tudo normal. QUe não se preocupasse e ficasse descansada, poderia ser hoje o dia.
Dessa vez começaram as contrações, bem espaçadas, e que demoraram um pouco até serem identificadas como contrações pela Shariza – ela diz que esperava tipo uma cólica e que aquilo não tinha nada de cólica, era bem mais de boa que cólica na maior parte do tempo.
Com o passar das horas as contrações foram ficando mais presentes. Eu tava tranquilo e a Sha também, mas um pouco mais ansiosa. Segundo ela, no começo era um pouco incomodo e depois ia ficando sereno.
Mesmo sabendo que estava chegando a hora, eu procurei me manter calmo, não fazer muitas perguntas, ou fazer qualquer coisa que pudésse atrapalhar o processo, lembrava dos relatos que presenciamos nos encontros da Parto Alegre sobre o companheiro ser um coadjuvante que se limite a permanecer como ouvinte, não interfirir de maneira alguma, nem falar muito. apenas amparar naquilo que for solicitado e ser carinhoso, cuidadoso com as palavras, apoiar a gestante e quando engrenasse o trabalho não ficasse incomodando com perguntas nada a ver.

No início da tarde a Ana disse que viria com a Luiza umas 17h ver como estava o andamento e conversar um pouco, sempre muito tranquila e atenciosa, o que nos deixou bem seguros durante todo o processo. Mais tarde deu meio que uma engrenadinha nas contrações, ficaram menos espaçadas. Por vezes Shariza mudava de posição por que se sentia melhor quando não estava deitada de barriga pra cima, apertava forte a minha mão e vocalizava. As contrações duraram o dia todo, mas não indicavam o trabalho de parto mais ativo.

Por volta das 17:30 a Ana e a Luiza chegaram aqui. Nesse tempo a Shariza teve poucas contrações, mas relatando como era a sensação daquilo que sentia falava sobre no início dar um certo desconforto mas a medida que ia passando ficava bem tranquilo. Nisso a Luiza disse:

– Quando for mais contínuo esse desconforto que o trabalho de parto vai ficar mais intenso.

De resto tudo dentro do esperado por nós até então. As gurias nos avisaram que já estava tudo preparado da parte delas, e que iriam pra casa e continuar acompanhando pelo whats qualquer novidade. Mas que poderia nascer naquele dia, ou naquela madrugada, talvez no outro dia ainda, nós só teríamos que ficar calmos e tudo ficaria bem. E por volta das 18h elas saíram.

Poucos minutos depois de elas terem ido, meio que engrenou. Com contrações de duração de um minuto. A coisa começou a ficar séria. Estava acontecendo.

A recomendação das gurias foi que quando começasse seria bom ir pro chuveiro e ficar tipo muito tempo. Por que se as contrações continuassem mesmo no chuveiro era sinal que estava perto. Então lá fomos nós, depois de uma hora de sentir as contrações na cama, Shariza pediu pra que eu ligasse o chuveiro. Liguei e entramos no box. Nessa hora Shariza ser humano deu lugar a Shariza animal, na minha perspectiva.

Quando começava a sentir a contração ela se abaixava de cócoras, se apoiava firme nas paredes e urrava, uivava, se conctava por inteira com os seres cósmicos, deusas, divindades. Estava em transe, apertava meu joelho tão forte que eu parei de sentir ele e só fui sentir novamente no outro dia(brincadeira, mais tarde ia ficar bem mais forte). Enquanto ela já estava no chuveiro há uns 40 minutos, liguei pra Shana e antes de eu tentar falar qualquer coisa, pelo grito que a Shariza deu, o recado já havia sido passado. Antes de desligar ouvi a Shana responder.

– To indo, deixa que eu aviso a Ana e a Luiza.

Essa hora, pra mim foi a hora mais tensa. A comunicação entre eu e a Shariza não tava dando conta. Já era umas 20:45. Ela saiu do chuveiro e voltou pro quarto, nessa hora me pediu um balde pra vomitar. Fui buscar no banheiro e deixei a porta aberta. Enquanto vomitava ela me questionava:

– Por que a porra da porta ta aberta? fecha essa merda.

Ai eu fui fechar. Quando parou de vomitar eu voltei lá pra esvaziar o balde no vaso e ouvia ela gritar lá de fora do banheiro

– Fecha essa PORTA CARALAHO! Não disse pra fechar a porta? QUAL É O TEU PROBLEMA COMIGO?

eu comecei a rir de nervoso enquanto trazia o balde vazio mas lembrei de fechar a porta dessa vez.
Quando tava voltando com o balde vazio ela cruzou por mim que nem um furacão pra vomitar no vaso, antes de falar.

– Por que tu fechou essa merda de porta? Tu ta quereno me irritar?

Nessa hora acendi uma vela pra mãe Iemanja e outra pra mãe Oxum. Acabei de fazer uma reza e colocuei uma playlist do youtube, com umas músicas de orixas, uns mantras reverte do negativo pro positivo, fiz isso sei lá em um minuto. No outro tocou o interfone. A Shana tinha chegado. Saravá!

Desci correndo pra abrir a porta, e enquanto descia as escadas me lembrava de várias relatos de mães do instante em que a Doula entrava na porta de casa, da sensação maravilhosa que elas haviam sentido. Como não sou eu a gestante, nunca vou saber que sensação foi essa que elas tiveram. Mas como companheiro da gestante a sensação de abrir a porta pra Shana era tipo ganhar dois toca discos de ouro, que valem mais do que dinheiro OE, na porta da esperança do silvio santos.
Quando ela chegou tudo melhorou. Nossa. Que bença! Naquela hora eu senti que tudo tava sob controle, não tinha por que se preocupar. Ela conversou com a Shariza e começou a fazer massagem nas suas costas, apagou umas luzes que estavam acesas, conversou no pé do ouvido dela.
Esse foi o único momento em que me afastei. E como não sabia o que fazer pra não atrapalhar, fui pra cozinha. Achei uma massa de pastel que tava pronta, comecei a abrir ela e fechar uns pasteis com um recheio que surgiu do cosmos na minha frente. UFA! Senti que o momento mais trash do parto tinha passado. Agora era só ficar calmo e ser útil no que a Shariza me solicitasse.

Enquanto a Shana estava com a Shariza, fiquei pela sala com a Lazy e acendi mais umas velas pra todas as Mães dessa vez… E voltei pro quarto quando fui chamado pra dar apoio durante as contrações. Que pareciam cada vez mais longas. Shariza não conversava mais, apenas vocalizava durante as contrações e as vezes perguntava se a Ana e a Luiza já tavam chegando. Queria saber quanto estava de dilatação.

Elas chegaram cerca de uma hora depois da Shana. Deu uma correriazinha essa hora. tinha muito equipamento pra subir, eram umas 3 malas bem grandes, mais umas menores e a piscina. Contendo todo o aparato necessário em caso de alguma intercorrência. Nosso AP tava superlotado, 5 adultos, uma cã deitada no sofá e uma piscina montada no meio da sala enquanto se fazia um malabarismo pra encher ela.

A Ana fez o exame de toque e viu que o andamento tava bem avançado. Trouxeram com elas um banquinho em formato de U, pra Shariza sentar. Em todas posições que ela ficava eu estava por perto para que se segurasse em mim, essa do banquinho foi a que ela ficou mais confortável. Enquanto as gurias conversavam com ela, explicavam o quanto tava evoluindo bem o trabalho, a Shana fazia muita massagem nas costas, no quadril, motivava ela a aproveitar as contrações e relaxar pra facilitar a descida do bebê.

Shariza tinha um forte desejo por ter o parto na água, dentro da piscina, a maioria dos vídeos que vimos de parto eram dentro da piscina também e eram tão lindos. Mas quando ela foi perguntada se gostaria de entrar não se animou muito, estava bem onde estava. Até tentou. Colocou metade do pé e tirou.

– Não. Não, Não, ta muito quente essa água.

Revezava entre a bola de pilate, de quatro e o banquinho. Porém o banquinho era onde se sentiu melhor, e lá ficou. Eu não fiquei controlando o tempo, mas de vez enquando dava uma olhada no relógio, já tinha passado das 23h. E a Shariza começou a ficar um pouco impaciente. Queria que acabasse logo, já eram 5 horas de trabalho ativo, mas tava bem perto.

Apertava minha mão muito fote e vocalizava bastante. demonstrava fazer uma força muito grande, queria acabar logo com aquilo. Perguntava em meio as contrações:

– Ai guriiaas falta muito? não aguento mais!!!
-Não, ta bem pertinho agora, se tu por a mão vai sentir o cabelinho, põe a mão que tu vai ver, ta quase! – Respondiam.

Ela botou a mão e viu que ainda tinha um bucado, mas de fato dava pra dentir o cabelinho, eu gostei muito da notícia. Estava se encaminhando pro final mesmo, nosso filho estava chegando, sem nome ainda.

Os gritos se intensificaram, o desgaste dela era muito grande, as vezes vinha o choro, a lágrima, até mesmo as frases mais impensáveis naquele momento. Eu achei até engraçado mas não demonstrava muito aquilo, estava muito emocionado com as coisas acontecendo do jeito que tinha que ser, sem romantismo e muito real.

– Aiiiie Guriiaaass tira ele de dentro de mim!! Por Favor tirem ele daqui! AHHHHHHHHHHHHHH

Já passava da meia noite, não ia ser dia 8 mais. Shariza não saiu mais do banquinho. Eu ficava por vezes sentado de frente pra ela quando ela se inclinava pra frente, ou ficava sentado atrás dela, mais pro final. Procurei ouvir bastante o que a equipe me sugeria, elas tinham muito mais experiencia e sabiam lidar com aquele momento com muito mais conhecimento do que eu.
E Chegou o momento. Após muitos gritos, muita parceria e empatia da Shana, da Luiza e da Ana faltavam pouquíssimas contrações. Shana disse que poderíamos contar nos dedos o número de contrações, e era esse o caminho. uma hora as gurias perguntaram pra Sha se eu poderia colocar a mão pra sentir o quanto tava perto. Ela permitiu, mal deu tempo de colocar ela já disse pra tirar por qu estava vindo outra contração. Deu pra ter uma pequena dimensão do quanto estava perto.

Eu olhava pra Ana, ela tava com a mesma expressão de tranquilidade e calma como se estivesse tomando um cafézinho na padaria. Colocou as luvas e se aproximou, disse que tava vindo. Mais uma ou duas contrações e nosso bebê ia sair. Shariza segurou mais forte ainda em mim e deu o grito mais intenso. Ao final do grito só deu pra ouvir um sonzinho no fundo.

– hehehe hehe hehe (2X)

Vicente nasceu as 1:18, madrugada de Quarta-Feira, lua crescente. Nove de Novembro de 2016. Data emblemática. Nasceu. Todo pequeninho. Nasceu dando risada. Nessa hora foi o único momento que a Lazy levantou do sofá e foi lá dar um cheiro e ficou no quarto conosco. Shariza ser humano retornou do transe, apaixonada, com Vicente já no colo. Lembrou que ainda tinha a que expulsar a placenta. QUe nada, já tinha vnido, veio Vicente, placenta, tudo.

Que doidera. Nasceu.

Num ambiente tomado por música; velas; bagunça ; piscina montada no meio da sala no espaço entre a cozinha, a sala, a porta de entrada e o quarto; noite maluca; nasceu! a coisa mais linda do mundo! muito pequeno, nossa! todo pequeninho de olhinho fechado emitindo som de carnerinho. Nosso filho estava ali, tinha acontecido, era real. E era a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Que coisa mais apaixonante, renovadora, maravilhosa. Impressionante como palavra nenhuma é capaz de significar a sensação de encantamento ao ver pela primeira vez o filho. Como a energia de um Ser tão pequeninho pode contagiar todo ambiente.

Nasceu em casa. Do jeito que era pra ser, não exatamente como como o imaginário romantiza o fim e início de um processo gerador. Mas totalmente natural, sem nenhuma intervenção, nada de ocitocina, somente a força e proteção das deusas e dos seres celestes que estavam ali amparando a todos nós.

Tudo tão rápido, mas nem tanto. O tão esperado e desejado parto em casa da pessoa mais linda que eu conheço e que tanto movimentou e movimenta nossas vidas foi concretizado. Como pode a natureza ser tão perfeita assim? Prováveis 38 semanas e dois dias ali dentro da barriga, se desenvolvendo, gerando mudanças importantíssimas na alimentação, gerando questionamentos sobre os próximos rumos das nossas vidas, gerando amor, paz e união.

Se soubéssemos que era tão boa ideia gerar um serzinho talvez não houvesse tanta espera assim. Vicente ainda não era Vicente, só foi ser Vicente umas 14 horas depois de estar conosco.

Presenciar essa gestação, aprender com a Shariza, a Shana, Ana Terra e a Luiza como o parto é tão naturalmente mágico. A anatomia do corpo – alinhada a mente e as paradas invisíveis – é total capaz de efeturar esse processo. sem ajudinha de bisturi, ocitocina, muito menos humilhações de renomados doutores e doutoras que pensam que a ciencia é algo superior ou independete da natureza.

Sou naturalmente omitista; Ser otimista nos tempos atuais pode ser uma grande insanidade. Pode ser também um grande ato de amor. Esse segundo me soa melhor. Mas um pouco de insanidade também compõe isso.

Sei que nós. Eu e tu amor, somos seres que Têm suas diferenças na forma de pensar, agir, falar, ouvir, afinal cada pessoa é um universo, como já dizia raul. Mas cada vez mais tenho a percepção que remamos prum mesmo objetivo em comum. Compartilhamos sonhos, queremos viver, independente de como e onde, queremos viver. Viajar, conhecer, aprender muitas coisas, ensinar um pouco se for posível. Fazer amigos, tomar banho de cachoeira, ouvir a natureza e nos abraçar. Ter sempre aquele abraço apertado por perto. Sempre que precisarmos. ou quando só queremos um chameguinho mesmo.

E ter a oportuinidade de multiplicar esse amor. Que é sem dúvida alguma o melhor sentimento, o mais honesto e sincero sentimento. Ver o sorriso no rosto do Vicente, todos os traços dele, a maneira como ele olha pras mãozinhas, pede o nosso colo, se comunica, observa, faz força, tudo isso. Me faz ter mais gratidão pela vida. Por ela ter colocado no meu caminho a minha lindinha. Meu amor! Minha companheira e agora Mãe do Vicente também.

Acho que esse teu ano foi bem intenso e cheio de luz e proteção. Sou muito feliz por te ter comigo, E saber que temos muito o que fazer um pelo outro, pra si e pelas crianças que ainda vão pintar por aí. Te amo muito minha docinha! Muito Obrigado por ser exatamente assim como tu é! Feliz Ano Novo! Que já vai começar com mudanças e só tende a melhorar!

Nós te amamos muito! Muito obrigado pelos 4 melhores anos da minha vida até aqui!