Relato de um pai – Fabio

fabioEfrancisco
Relato de um pai Fabio

O parto é a profusão dos sentidos. A celeuma de sons que ora se orquestra, ora balburdia. Texturas aveludadas e ao mesmo tempo espinhosas. Formas ergonômicas e de calor tátil.  Por vezes fragrâncias exageradas, por vezes o cheiro do vento. Um paladar de sabores diversos, ora d’agua, ora de paixão.

Da perspectiva paterna, ao partonada anterior análogo, nenhum episódio comparável. Nenhuma tradução, nem maneira de explicar, nem forma de ilustrar. Um deleite único e vívido. Uma possibilidade de se reinventar, refletindo-se ou projetando-se.

Na mitologia grega, o herói Jasão, para encontrar o Velocino de Ouro, necessita da presença de seu pai, o rei Esão. Este, muito velho e enfermo, não tem condições de acompanhá-lo na busca. Diante disso, Jasão solicita à esposa Medéia que, com suas artes e encantos, tire alguns anos de sua vida e acrescente à vida de seu pai.

Talvez Jasão tenha compreendido que seu pai tenha lhe depositado todas as suas venturas, seus desejos ainda não materializados. Tenha posto no filho a energia de que hoje precisa para sobreviver.

Como do filho retirar alguns anos de vida para conceder-lhes ao pai? A lógica dos costumes e valores presentes na sociedade não seria inversa? Sim, mas é justamente esta a lógica que por milênios afastou o pai do universo da gravidez, do parto e da paternidade. É esta logica cética que afirmou que para o recém nascido é indiferente a presença paterna. E que para a mãe, o companheiro é apenas um baluarte emocional.

Meu Jasão se chama Francisco. Talvez um dia quando eu estiver velho e enfermo, e ele, na busca de seu Velocino de Ouro, peça a sua Medéia que me reestabeleça para seguir a seu lado. E se isso não for possível, que me permita adormecer nos braços da rainha Cristina, os mesmos braços em que foi concebido.

Foram as mudanças sociais ao longo dos milhares de anos da existência humana que estabeleceram diversas faces à condição da paternidade e do parto.  Ora subsumido ao universo feminino, ora transcendendo e criando um universo próprio.

Logo, se não são os aspectos genéticos que me aproximarão de meu filho, a Francisco tenho confiado tudo aquilo que não fui, por covardia, falta de sorte ou incapacidade. Mas também nele, tenho encontrado a vivacidade e a coragem que outrora adormecera.

Testemunho a favor da superação de uma visão paterna contemplativa do parto, não ouso igualar a condição do pai a da mãe, no entanto não mensuro a relevância de um em detrimento de outro. São diferentes na essência, iguais na importância, insubstituíveis no conjunto.

Fábio Cannas 11/08/2013

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