Relatos de Parto

Essa página de relatos foi criada com o intuito de ajudar e inspirar pessoas que buscam empoderamento para viver a experiência de um parto humanizado, porém, deixamos claro que cada relato corresponde à opinião/vivência pessoal de cada pessoa, sendo o grupo Parto Alegre isento de posicionamento sobre cada experiência abaixo relatada.

 

Relato do MEU parto Humanizado – Por Lisiane Moura
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Resolvi marcar o ensaio fotográfico para 35 semanas, já que a barriga já estava bem grande, mas ainda faltavam seguras 2 a 5 semanas para a Michele nascer. 35 semanas e 4 dias, para ser mais específica.
Marquei de fazer as fotos com a Shana, já que tinha gostado muito dos trabalhos dela que tinha visto e era o tipo de ensaio que eu acredito que combina comigo e com o Alessandro. Foi uma das decisões mais acertadas da minha vida!
Começou um dia maravilhoso que terminaria com uma surpresa inestimável…
Arrumei com lentidão as coisas para levar para o ensaio, já que o peso e os pés inchados não permitiam mais velocidade do que isso. A Tanizi veio fazer minha maquiagem, domar meu cabelo e nos acompanhar para qualquer eventualidade. Buscamos a fotógrafa e fomos para a Praia da Pedreira no Parque Estadual de Itapuã. Escolhi este parque porque estava há semanas dizendo que queria muito me jogar na água! E a água estava realmente maravilhosa, mas ao contrário do que esperava, não foi o ponto alto do meu dia.
No final da tarde, bem próximo da hora de fechamento do Parque (pelas 17h45 aproximadamente), fomos as três meninas ao banheiro trocar de roupa, enquanto o Ali esperava na beira da praia para fazermos as últimas fotos no trapiche. Nesse momento a bolsa rompeu! E felizmente estávamos com esse anjo nos acompanhando e nos fotografando. Eu tremia o corpo todo sem saber direito o que fazer e o que pensar. Imagino que se estivéssemos somente nós, a reação da Tanizi seria correr em círculos, apavorada, ou então sentar em um canto em posição fetal. Porém quando a Shana finalmente acreditou em mim sobre estar “vazando” e na ironia do momento, começou a fazer piadas e nos dizer que devíamos ir lá bater mais algumas fotos, principalmente da cara do Alessandro quando descobrisse. Isso foi o que nos deixou mais calmas…
Encontramos o Alessandro e contamos pra ele. Ele não sabia o que fazer, mas como estávamos rindo e fazendo piadas da situação, conseguiu relaxar e entrar na nossa alegria. Isso foi realmente muito importante, pois tínhamos uma hora de viagem até em casa e não podíamos estar nervosos. No meio do caminho, quando voltamos a ter sinal no celular, mais uma vez o nosso anjo ligou para meu médico, minha doula, a pediatra e já foi deixando toda a equipe de prontidão. Fomos orientados a ir pra casa, jantar e descansar.
Comemos uma pizza e nessa hora as contrações já estavam começando a ficar desconfortáveis. Agradeço imensamente nesse momento à Tanizi e ao André, que nos ajudaram bastante nesse primeiro momento em casa e em seguida à Cecília e ao Guilherme, por vir pegar a nossa chave para atender ao Ted (nosso filhote) nos dias que se seguiriam e me ajudar a fazer a mala para maternidade. Eu não teria conseguido sem eles, pois as contrações já começavam a ficar muito ritmadas e com uma frequência de espantar, dado outros relatos que já li por aí. A Amanda, minha doula amada, chegou pelas 22h30 e começou seus trabalhos milagrosos. Viu a quantas estava o processo e em seguida chamou a Zeza, enfermeira obstetra que nos acompanharia em casa. Mais dois anjos nesse dia iluminado! Sinto que não pude agradecer como deveria o trabalho dessas duas pessoas maravilhosas, pois já estava na partolândia atendendo apenas a comandos muito específicos. Em torno de meia noite e meia, nos encaminhamos ao Hospital Divina Providência aonde meu obstetra, Ricardo, nos auxiliaria na conclusão desse processo.
Foi a provação mais linda e complicada que já passei na vida. Cheguei ao hospital com 3 a 4 cm de dilatação e apenas 2 horas depois a pequena e muito amada Michele estava nos meus braços. Sem anestesia ou analgesia e apenas com uma pequena laceração. O Alessandro pode estar conosco no momento em que ela veio ao mundo e se emocionou junto comigo com a nossa família se formando e nossos laços se fortalecendo.
A Michele veio prematura, porém com Apgar 10 e 10, 2585g, 46,5cm e mais saudável do que qualquer um dentro daquele hospital poderia imaginar. Realmente era o momento de ela nascer, ela estava pronta e apressada para iluminar nossas vidas.
Quero agradecer especialmente minha mãe, Heloiza, por todo o atendimento de massagens e exercícios durante a gestação que fizeram com que eu tivesse as técnicas de respiração e relaxamentos que foram muito necessárias nesse momento. Peço desculpas por não ter avisado em tempo de tu estares conosco nesse momento tão importante das nossas e da tua vida, mas saiba que tu estavas lá! Em cada respiração, em cada contração e na certeza que eu conseguiria passar por isso com a força e a determinação que tu me mostraste que tenho. E teu atendimento com as coisas da Mili e os dias que se seguiram é a prova de que eu tenho base para formar minha própria família, forte e consistente como tu formaste a tua.
Ao Alessandro, TE AMO do fundo do meu coração. Obrigada por fazer parte da minha vida, por ser a minha vida e trazer ao mundo essa criaturinha que por enquanto só trouxe alegrias para as nossas vidas!

 

Nascimento da Serena, por Thiane Berto

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Relato do meu rito de passagem. O parto!!!

“Acredito que o parto começa muito antes de parir!!!
Me pari diversas vezes antes de ser mãe”

Há 4 meses atrás eu e meu companheiro Fabrício (gosto de me referir a ele como companheiro, pois esta sempre do meu lado, como uma verdadeira companhia, além de marido, irmão, amante e agora pai), fizemos a travessia do nosso grande rito. E juntos trouxemos a esse mundo um serzinho, que agora esta nas nossas mãos para assim conduzirmos a luz.
Muitos questionamentos tive durante um período da minha vida, sobre a importância de uma boa consciência e escolha ao ser mãe. Meus dias e responsabilidades mudariam. Eu precisa me conhecer, me trazer ao mundo, me parir, antes de trazer outro ser.
Bom, cada vez que me reconhecia , mais eu tinha que me conhecer. Esse caminho não tem fim…
Então, percebia que o momento certo de trazer um ser pra o mundo, era o momento que me entregasse ao universo, soltar e fluir como um mar. Entregar e confia no grande mistério traz liberdade.

Para ser mãe tive que aprender a ser filha. Uma longa caminhada. Busquei muitas ajudas psicológicas, espirituais e religiosas. Caminho de Santiago de Compostela, holotropica, viagens, yoga, terapias, constelações, …cartomante, cigana, preto velho, daime rsrsrrsr. Fui buscando meus pedaços e me construindo. Me formando não apartir do que me diziam que eu era, mas sim quem eu queria matar dentro de mim e quem eu queria ser daqui para diante, após as consciências.
Sempre sonhei com uma família perfeita, com dores, tristezas e tudo que faz parte do mundo. Mas acima de tudo sonhava com uma família consciente dos seus passos e escolhas. Foi pensando assim que meus medos e receios começaram. O que tenho que aprender nessa vida? Estou preparada? Como me doar por inteira a um serzinho na qual não conheço? Como lidar com as frustações de ambas? Como ser uma boa mãe? Como assumir o pilar. Como encarar o parto? Como morrer e renascer? Pensamentos me incomodavam de certa maneira, impedindo de sentir mais. Precisava relaxar, deixar fluir e simplesmente estar presente. Curtir meu momento e minha gravidez juntamente de meu companheiro.
Resolvi escrever toda vez que me “pegava” pensativa. E isso me ajudou muito. Fui deixando de me PREocupar com tantos conselhos que vinham me dando.

Eu havia decidido seguir sempre meu coração, que livro algum ia me dizer o que era o certo ou errado. E assim segui toda gestação e continuo nessa vibração. Faço o que me deixa mais relaxada e feliz. O caminho do coração não tem errado.

Relendo minhas escritas, algumas reflexões em meu caderninho de anotações me chamam atenção. Um deles sobre nascer, crescer e morrer. Escrevi essa frase, “Para nascer temos que crescer e morrer. Para crescer, temos que nascer e morrer. E para morrer, temos que nascer e crescer”
Começo meu relato mostrando meu nascer e crescimento. Vou me referir ao parto como a minha morte.

Meu nascer…Autoconhecimento.

Comecei a me trabalhar internamente. Participei alguns anos das tendas na unipaz, que me auxíliou muito. Cada encontro era um encontro comigo mesmo. Fiz viagens internas e externas a procura da minha força interior.
Em uma das viagens, no Peru, refleti bastante sobre meu relacionamento. Estava junto com o Fabrício a 9 anos. Sentia que o próximo passo , após tanto tempo junto seria noivar, ter casa própria , casar e ter filhos. Normose, na qual eu sempre tive medo de “cair”. Não queria estar com alguém para não ser sozinha (hoje sei que sozinha é um estado de espírito ), ou seguir padrões sociais.
Eu precisava mergulhar no meu sentir, saber antes quem eu era, aonde eu iria e quem eu levaria comigo.
Precisava curar feridas que talvez me bloqueassem de ser uma esposa, mulher e mãe melhor e consciente.
Foi então que na volta dessa viagem, depois de ficar várias vezes olho no olho com minhas sombras, senti uma alma dentro de mim me chamando para ser mãe. Era como se meu peito tivesse se abrindo ao meio. Eu estava começando a deixar algo tomar conta de mim, esquecendo o racional que sempre me pertenceu fortemente e apenas me entregar ao grande mistério da vida.
Voltei com um amor pleno, principalmente por mim. Pelo meu companheiro e um amor por algo que eu não sabia o que era. Hoje me conecto a aquele sentimento e a prova esta aqui. O grande amor tem 4 meses e é um pedaçinho de nós dois, fruto desse amor consciente que construímos em 11 anos Juntos.

Meu Crescimento…Consciência.

Participo de grupos de parto, muito antes de eu pensar em ser mãe. Simplesmente por me interessar pelo assunto. Cada relato de gestantes ou de recém mães, era uma parte minha. Uma dúvida minha ou um anseio meu. A cura da outra , era também a minha cura.
Em cada encontro me encontrava um pouco. Seja nos relatos de dor e tristeza, quanto de alegria e prazer.
Sempre acreditei que assim como temos nas nossas células o dom de ser mãe temos também o dom de parir. Essa foi minha busca…o encontro com minha essência de ser mãe e o instinto de parir.

Racionalmente eu sabia de tudo que queria para o parto e porquê ele seria importante que fosse o mais natural possível.
Tive medo diversas vezes de estar criando expectativa para o inesperado momento. O parto! Muitas vezes pensava:
– Como ter pensamento positivo, idealizar meu parto sem criar expectativa? Como se faz isso?

O parto seria meu. Mas também do meu marido e do ser que vinha. Cada um assumindo suas responsabilidades.
Por isso a importância da escolha consciente pelo parto humanizado. Não queria que fosse por ego, por estar na moda esse assunto. Quis um parto normal primeiramente pela oportunidade de mais uma vez me conhecer e reconhecer minha força . Queria sentir minha bebê escorregando dentro do meu ser. Queria me conectar com ela na hora do nascimento ja que toda a gestação estávamos tão sincronizadas, e energeticamente ligadas. Eu sentia como uma oportunidade de curar toda uma linhagem que vieram antes de mim e que estão por vir. Eu queria sentir seu coração pulsando sobre meu corpo nu.
Expectativa, sonho, ilusão? Seja qual foi o nome minha consciência estava conectada com minha alma. Eu sei parir, eu tenho força , eu sei amar e receber o verdadeiro amor.

Sim eu queria um parto com fotos. E porque não? Meu ego precisava e eu nao queria me arrrpender depois.Gostaria de registrar o nosso momento seja qual fosse a forma que a Serena viesse ao mundo. Essa sou eu. Eu realmente gosto de fotografia, adoro olhar as fotos e recordar cada sensação. Meu parto teria sim fotos.
Eu idealizava um parto com luz baixa, música , canto…sim…isso sou eu…isso combina comigo e ponto. Me sinto bem pensar em trazer alguém para esse mundo dessa maneira.
Assumir escolhas é tão difícil, sabem porquê ? Porquê não nos conhecemos. Não conhecemos nossas verdades. E nesse momento tão especial da minha vida, eu estava disposta a assumir toda minha verdade, seja ela boa ou ruim, sem julgamentos!

Preparamos o parto para ser em casa. Parto mais humanizado possível. Com uma equipe maravilhosa. Assim que sempre desejei. Tendo sempre consciência de que a Serena escolheria a forma e onde quisesse nascer. Assim, como acredito que o universo ia me mostrar o que eu tivesse que passar para crescimento pessoal. Entro no fluxo.

“ O caminho se faz caminhando”

Minha morte….O parto.

Tenho uma sensação nesse momento. Que tanto faz se o parto foi assim ou assado. Natural, humanizado, Cesária … O importante mesmo era toda a caminhada. E se dar conta de todos aprendizados. Nada adianta ter tido um parto dos sonhos se não formos gratos a esse aprendizado. Nada adianta ter tido dor, medo, corte, sangue, tristeza se não olharmos para essa ferida e honrarmos por aprender algo com isso. Tudo, mas tudo na vida é um presente para refletirmos, trazer para a consciência, acolhermos e transmutarmos.
Pois bem. Falarei então como foi o grande momento da minha chegada. O inesperado e sim, “assustador” momento…o parto. Assustador porquê era algo desconhecido , e tudo que é desconhecido me assunta. O que eu mais temia era passar por procedimentos cirúrgicos. (fui para o parto sem curar um trauma. Cirurgia de coração que fiz com 22 anos de idade).
O parto é um momento ótimo para vir todas nossas cacas.. oportunidade de curarmos nossos traumas.

Após voltar de uma janta com minha sogra, cunhado e meu marido, com exatamente 40 semanas, falo para ele: “ to me sentindo estranha…”(mais estranha rsrsr). Não é dor nem nada, só sentindo cansada, com euforia…. Isso era 23 horas de sábado.

Fomos dormir as 24h comecei a sentir umas dores fracas, e diferente do que vinha sentindo. A barriga endurecia.
Estava somente eu e meu marido em casa. Quando 3 da madruga começam a aumentar a dor. Levantamos, senti um aperto no coração. “ Nossa Serena esta vindo Fabi”. Pude sentir o coração dele apertado como o meu. Ele me abraçou e nos emocionamos muito.
O que fazer?
Pessoal, resolvi pendurar as cortinas no quarto da Serena. Fui fazer isso para passar o tempo e deixar a situação leve. Após descer das escadas que estava colocando as cortinas, senti uma dorzinha um pouco maior. Fui buscar a bola Suíça para me sentar e fazer alongamentos.
Estava sentando e a bolsa rompeu. Posso me ver nesse momento. Assustada com os olhos arregalados. Com vontade de ter minha mãe fisicamente ao meu lado segurando na minha mão. Pois bem…Engoli a emoção e lá vem a Thiane racional.
Tive um mix de sentimentos. Mas o maior deles foi medo. A única coisa que eu não queria era ir para o hospital. E como minha equipe médica que iria acompanhar meu parto estavam em um congresso, tive muito medo de me entregar e ela nascer ali somente eu e ele. Ou de ir para o hospital e acabar em uma cesária .
Eu não sabia o que fazer. Só me vinha em mente “eu quero o parto em casa. Eu quero o parto em casa. Eu planejei tudo. Nao pode sair do controle”…..haaaaaaaaa o tal do controle. Como deixar o controle? Como relaxar com dor e preocupada se a equipe chegaria a tempo?

Se eu desse um conselho para futuras mamães. Entrem no fluxo…sabe aquela música “ Deixa a vida me levar”, Pois é….vida leva eu! Nao tem errada quando deixamos o corpo o sentir, agir, sem controlar nada.
Pois esse aprendizado tive q passar na marra. Sempre soube que uma parte de mim gosta e necessita controlar tudo. Mas achava que ia tirar de letra no parto hahahahaah engano meu. Nessas horas tudo que tiver que vir, vem.

Nesse momento tudo aquilo que eu li e que sabia parecia que tinha apagado da cabeça. Não conseguia pensar direito. Já não conseguia contar minhas contrações. O Fabrício que me ajudou. Mas também parecia um pouco aéreo.
Ligamos para nossa Doula. Eu como sempre não queria incomodar , sendo 4 da madruga. Mas como a equipe não estava em Poa, queria um conforto. Gostaria de escutar um apoio que tudo ia dar certo.
Entre uma contração e outra eu e o Fabricio pensávamos o que iriamos fazer se íamos para o hospital, com outra equipe que o Dr. deixou em sobreaviso. Se ligávamos para uma parteira que uma amiga indicou (ligamos para ela na madruga). O plano B do plano de parto estava entrando em ação.
Bom, não preciso dizer que eu não conseguia relaxar…..afinal, eu queria a minha equipe. Eles que me acompanharam toda gestação. Eu tinha receio que a médica escutasse o coração da Serena e falasse que ia ter que ir para a cesaria porque seus batimentos eram baixos. E eu sabendo que ela sempre teve batimentos baixinhos. Era o normal dela nas consultas com nosso obstetra.
Eu tinha medo que qualquer coisa fosse motivo de cesária . E só confiava na equipe que escolhi.
Bom, começo uma imersão…pensamentos e pensamentos e pensamentos. Me entregar foi complicado. Fiquei no racional muito tempo. Queria ter certeza que a equipe ia chegar e íamos conseguir ter em casa como sonhávamos.
Queria saber que estava tudo bem com nossa bebê, que seu coração estava batendo normalmente. Esquecia de deixar fluir. De relaxar. De aproveitar a caminhada.
Assim fiquei até o domingo às 17horas. 13 horas ate que a equipe chegou aqui em casa…..aiiiiii. Gente! Me emocionei de me lembrar. Fiquei com as pernas bambas.
Agora nossa boneca podia vir ao mundo como sonhávamos.
Eu estava acabada. Pois meu trabalho de parto foi bem ativo. Nao parei um minuto, eu dançava, cantava sentava na bola, levantava, ia pro chuveiro, entrava na banheira, saia da banheira, me secava, rebolava, ganhava massagem….e assim se passavam as horas.
Eu ja nao aguentava mais….dor nas pernas, nas costas…mas nada disso me fazia parar.

Eu e o Fabricio nos abraçamos forte, choramos muito, relaxamos. Agora sim eu podia aproveitar e deixar fluir.
Foram momentos lindos e fortes, que estão gravados na minha pele, nas minhas veias. Nos entregamos ao momento e nos amamos muitos. Cada beijo era um filme que vinha em minha mente. Lembranças do primeiro beijo. De como nos conhecemos e de como eu admirava a pessoa que ele era. E que juntos estávamos gerando um serzinho. Isso foi uma das partes mais maravilhosas do parto. Que pudemos nos permitir sentir. Agradecer por estar junto nessa caminhada. Crescendo um com o outro. Ocitocina rolava no ar.
Em cada cheiro nosso pela casa, cada vela acessa, a música tocando no ambiente , me fazia estar cada vez mais próxima com nossa bebê . Não via a hora de conhecer ela, de ver seu rostinho.
O Fabrício me fazia massagem, assim como as doulas. Me entreguei e deixei que cuidassem de mim.
Pois bem…o trabalho de parto empacou rrsrsr. Por algum motivo e outro não saia do mesmo e eu já estava exausta, cansada e com fome.

A parteira me preparava homeopatia, eu tomava, dançava, rebolava, banheira, massagem….e nada de dilatação. 24 horas de bolsa rompida e 3 cm .aiiiiiii, desespero e tristeza pegando!!!

A parteira então sugeriu que fossemos para o hospital, pois ja estávamos com 24 horas de bolsa rota.
Nesse momento minha casa caiu. Eu tive uma tristeza tão grande que não consigo explicar aqui. Parecia que eu era incapaz, que eu era uma bosta mesmo. Tive vontade de gritar, de cair na criança e me entregar. Sem exagero. Tive raiva de mim, vontade de morrer! Opa….morte!!!! Era isso que me faltava. Me entregar.
Dentro de mim chorava muito. Eu disse ok vamos!
Entrando no carro com contrações eu me sentia uma criança. Não via a mulher forte que eu era. So pensava. Aonde eu errei? Não queria que fosse assim. Me preparei a 5 anos. Tudo que aprendi e que sei foi para água baixo….
A Doula me dava conselhos e eu me agarrei a eles firme. Minha amada doula me disse. Thiane. Você quis tanto um parto normal. Lembra que depois é mais fácil de cuidar. Ela me falou várias coisas boas de escutar. Mas a que gravei foi essa….fácil de cuidar! Me via sozinha em casa, cortada e com dificuldade em cuidar dela. Eu quero dar os primeiros banhos na minga bebê.

Foi então que eu pensei. Sempre fui forte e sozinha para tudo. Não posso me perder de mim mesma agora. Preciso matar a criança e deixar vir a mulher guerreira!
Tudo isso racionalmente…como fazer isso? Como? Como? Queria gritar COMO FAÇO PARA MINHA BEBÊ VIR AO MUNDO DA FORMA MAIS HUMANA? Tudo que depende de mim estou fazendo…Começo então a chorar muito….eu queria explicação para tudo. Aonde eu estava errando, se tudo que eu fazia era de alguém com muita determinação e força . Não parei um minuto de me exercitar, de meditar, de respirar….eu não sabia mais o que fazer.
Me entreguei….acho que eu precisava chorar!

Chegando no hospital depois de 1 dia e meio em casa, sem dormir e sem comer e com dor. Eu nao conseguia pensar em nada. Só fui relaxando, entrando na “partolândia” sem saber o que era aquilo, aonde eu estava. Parecia que tinham desligado meu botão, tirado a corda rsrsr.
Com a ajuda da doula eu me segurava na bola de pilates e gritava de dor.
Eu não queria desistir…. Ate perceber que o desistir era o que me impedia de existir.
Eu existo! Minha filha vai vir ao mundo de qualquer forma. Preciso ver ela. Estou com saudades dela. Emoção…chorava muito…nao parecia que era de dor e sim de nervosa de ansiedade em ter ela nos meus braços.
Dr. me disse Thiane, o que você acha de induzirmos o parto com ocitocina, você não esta tendo dilatação.!!!!! Não pensei duas vezes…simmmmm. Eu só quero minha bebê comigo.
Me entrego!!! Não planejo mais. Seja o que Deus quiser!!!! Ela vai vir da forma que tiver que ser e da maneira que eu tiver que aprender.
Dr. Então chamou o Fabricio para comunicar a colocação de ocitocina, e o que ele achava.
Quando o Fabi entro no banheiro aonde eu me encontrava depois de quase 30 horas de bolsa rompida e com a cara mais cansada do mundo, nua deitada sobre a bola de pilates. Um dia frio de inverno e chuvoso. Olhei para o Fabricio e disse…Eu…não….aguento…mais….!!!
O Fabrício pegou na minha mão e disse!!!! GRITA!!! GRITA para todo mundo escutar a força que você tem. Quando ele falou isso. Despertou algo que nao sei o que era. Algo como explosão!
Mas aquela menininha delicada, andando na linha, que nao podia incomodar se expressar, muito menos gritar….deu o berro mais alto que pode. E senti ali minha bebê começando a vir energeticamente.VEM SERENA!
Depois de aplicada a ocitocina 9 cm de dilatação e quase 36 horas de bolsa rompida. Dr. Achou melhor aplicar uma pequena anestesia.
Nessas horas eu ja não pensava se era humanizado ou p… que p…#### So pedia que me desse animo, eu estava exausta.
Depois que foi colocado a ocitocina eu sentia como se eu tivesse em uma guerra…como se tivesse presa e alguém me dando choque e eu nao pudesse controlar ou desligar. Uma sensação de invasão…Dr. Dr. Dr. Desliga isso….eu dizia “ vamos para o próximo passo” kkkkkk Sim, capricorniana disciplinada .
Tudo que depende de mim eu fiz…nao tenho mais controle sobre mim. Me diz por favor o que eu devo fazer? Me entrego…
Quero anestesia! Vou ficar quantos dias em trabalho de parto??? Porque isso? Hoje eu sei (próximos capítulos).
Depois que o Fabrício entrou e me fez gritar, eu senti que tinha feito tudo que eu pude. Que tem coisa que nao tem explicação e o universo que comanda. Minha bebe estava quase por vir e aonde estava minha força ? Eu me sentia cansadíssima.
Com 35 horas de bolsa rompida sem dormir e comer. Dr. Por favor me da a anestesia logo….quero minha bebe….lagrimas!!!!
Lembro que eu sentia ela vindo a cada contração, mas nao conseguia mais nem ficar em pé direito…
Dr. chamou o anestesista. Me deu uma peridural leve, aonde eu pude sentir tudo, contrações, dores e a Serena nascendo. Portanto me deu mais ânimo. Me tirou o cansaço das pernas.
Essas contrações estavam diferentes. Tinham emoção, força e alegria em cada uma delas. Cada dor era dor de prazer. Eu realmente me sentia confiante, como se eu tivesse tido uma nova chance.
EU VOU SENTIR A SERENA SAIR DE DENTRO DE MIM…..era essa a sensação e emoção que me via.

Subi de pé na mesa de parto. Segurei um ferro que era posto por sobre a maca.
As luzes baixas, tom de verde. A doula segurando minha mão, e gotas de essência no meu ventre, pescoço e corpo todo.
Me segurei firme na barra, sobre a cama, em cada baixada eu fazia força , com as pernas abertas em posição de yoga, com a bunda para traz e peito para frente. Descia como se estivesse tendo uma relação sexual. Sim. Posso dizer com toda minha verdade. Eu tive um prazer. Nesse momento eu me sentia feliz feliz feliz.
Dr. Dizia… “a Serena esta vindo”. Põe a mão na cabeça dela. Quando eu senti seu cabelinho Me enchi de coragem, amor e fiz o último embalo de cócoras em cima da maca, com o Fabrício do meu lado…
Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, VEMMM SERENAAAAA!!!!!!!VEMMM MEU AMOR !!!! veio nossa filha amada. Fruto do nosso amor e relacionamento.
Fabrício se emocionava muito, seu choro me transmitia muito amor, alívio, conquista e superação.
A dor do parto, tinha ido embora naquele segundo. So sentia liberdade!
Não tive epsiotomia e nenhuma laceração e invasão.

Posso dizer que hoje cuidando da minha filha me sinto alegre, de bem com a vida, mesmo com noites mal dormidas, e com tudo aquilo que vocês sabem. Eu nunca reclamei. E cuido muito bem dela, com a ajuda do Fabrício.
Tenho certeza que o parto ajudou no processo de assumir a mulher guerreira e mãe que tenho dentro de mim.
Eu morri. Matei a Thiane filha. Nasci como mãe….tem coisa mais linda? Ciclos da vida. Isso é VIDA!!

Ainda posso escutar meus gritos do parto, ainda sinto a adrenalina ocitocina em meu corpo.
Gratidão a mim, por me permitir vivenciar o meu parto. Seja da forma que foi eu fui protagonista dele.
Gratidão a meu marido. Pois sempre foi muito importante nas minhas escolhas de parir. E principalmente por parir junto.
Gratidão as doulas que dão todo o apoio que um feminino necessita.
Gratidão a parteira, por ser firme e amorosa.
Gratidão ao Dr. Por simplesmente confiar que toda mulher sabe parir. E esta sempre do lado dando apoio. Não posso tirar da minha cabeça uma cena dele deitado no chão frio do hospital ao lado da maca, depois de um congresso, certamente sem dormir. Mas totalmente presente quando teve que me dar suporte.
Gratidão a nossa pediatra que desde sempre foi muito presente.
Gratidão a fotógrafa, que sendo por ego ou não, me permitiu ter imagens concretas podendo passar para futuras mamães e para Serena ver. Quando olho as fotos me emociono sempre.

Quando me perguntam como eu queria que fosse meu parto…eu respondo… “Com amor”, ! Está tudo sempre certo…se não fosse assim seria de outra maneira e qual delas e a certa? Afinal como diz Lucia torres “ Todo nascimento é sagrado”

“ Não existe a chegada. Existe o agora”

Serena está com 4meses e meio. Veio ao mundo dia 25.05.2015, na virada da lua nova para a crescente, no hospital Divina Providência com a Equipe de parto Humanizado de Porto Alegre.

Parto de Thiane Berto. Fabrício Marocco e Serena Marocco

 

RELATO DE CESÁREA NECESSÁRIA – Nascimento do Francisco, por Fernanda Vier
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Francisco nasceu. Nosso Chiquinho veio ao mundo na madrugada do dia 15 de março, com 3,485 kg e 49,5 cm. Chegou cheio de saúde, muito tranquilo, depois de uma longa espera de 41 semanas e 4 dias de gestação, em uma cesárea bem indicada, necessária, por uma série de fatores. Digo isso com a certeza de quem foi assistida durante todo o pré-natal por uma equipe humanizada, que preza pelo protagonismo da mulher em suas gestações e partos e respeita suas escolhas. E que bom que existe a cirurgia para casos como este (é para isso que ela deveria existir, afinal).

Obrigada Ricardo Herbert Jones e Zeza Jones por todo o incentivo, por terem acreditado enquanto ainda dava pra acreditar, por terem acolhido minha tristeza – sim, é possível e é meu direito sentir felicidade e tristeza ao mesmo tempo, pelo filho nascido perfeito e pelo sonho não alcançado. Obrigada a minha doula Shana Gomes pela orientação e carinho durante todo esse período. E obrigada às mulheres maravilhosas que acolheram meus medos e inseguranças, me estimularam e, sobretudo, me entenderam. Vocês sabem quem são, e vocês às vezes parecem nem ser deste mundo.

Agora sou mãe de dois, agora o Fredo é pai de dois, e agora lá vamos nós mergulhar novamente numa vida de aprendizados, de erros e acertos, de muito amor, empatia, acolhimento, apego e respeito. Seja bem-vindo ao mundo, meu pequeno Francisco.

NASCIMENTO DA CLARA  – POR CAROL ARGENTA

Olá!
Meu nome é Carol Argenta e tenho uma filha que completa seus três meses de idade hoje.  O nome dela é Clara e  gostaria de dar meu depoimento do parto dela.
Ano passado quando descobri que estava grávida. Eu e meu marido morávamos em Florianópolis, então meu pré-natal foi quase todo lá. Viemos para Porto em outubro, quando chamaram meu marido para trabalhar na UFRGS.
Depois de olharmos vários hospitais públicos e privados de Porto Alegre, tivemos a certeza de que Hospital Conceição seria o melhor lugar.
No dia 19/12/2015, com 40 semanas e cinco dias, às  23h começam as contrações. Lá pelas três da manhã achei que estava tudo muito estranho, com as contrações ainda de 8 em 8min, mas bem doloridas. Fomos ao hospital e fizeram a avaliação, mas constataram que ainda ia demorar e que era melhor voltar em algumas horas. Eu estava com 3 cm de dilatação.
Voltamos para casa as 5h e fiquei tomando banho e andando. Voltamos para o hospital com contrações de 4 em 4min. Eram 9h da manhã e já estava com 7 cm, quando minha bolsa estourou.
Tive um parto natural, na posição que escolhi, sem intervenções, numa sala reservada com o Érico (meu marido) o tempo todo, fiz pele a pele com o bebê por 1h, o cordão foi clampeado somente depois de 3min., (que foi cortado pelo Érico) e a Clara só precisou tomar banho depois de 6 horas, o que é ótimo para manter o vérnix que reforça sua imunidade.
Ela nasceu as 11h50min do dia 20/12/2015 com 3kg 350 g e 49,5cm.
Que bom saber que um hospital desta qualidade é público! Na minha opinião, o melhor lugar hoje em Porto Alegre para mãe e bebê!!!
Ficamos três dias no hospital por conta de um exame extra que ela fez, por causa de um sopro no coração, mas ela está bem.
A comida era boa e achei muita gente no quarto, 4 gestantes com acompanhante e bebê.
No hospital também não me ajudaram muito com a amamentação. Cada enfermeira falava uma coisa diferente e desde o início até voltar para casa tive muita dificuldade. Ela não pegava direito e ficava muito irritada o q tirou algumas noites inteiras de sono. Ela não dormia e a gente também não. Até que no quinto dia achei uma consultora de amamentação aqui em Porto Alegre, a Cris, que foi meu anjo! Me ajudou com um intermediário que a Clara usou por alguns dias até pegar o jeito do meu peito e depois tirei e ela mama que é uma beleza hoje!
Agora três meses depois está com 62 cm e 5,350kg de muita fofura e felicidade!

Espero q meu depoimento ajude muitos papais e mamães!

Abraços,
Carol

Parto da Julia Morales Follador – Por Simone Morales

Li muitos relatos de parto durante minha gestação. Pude viver através dos relatos que li os partos de muitos bebes,e não poderia deixar de compartilhar a minha visão sobre o parto da Júlia.

Ainda antes de engravidar sempre pensei em ter um parto normal. Logo na primeira consulta com a obstetra perguntei “E o parto? Eu quero parto normal”. Ela me aconselhou a aguardar a conclusão do primeiro trimestre da gestão para falarmos sobre o parto.
No que a Organização Mundial da Saúde recomenda para o nascimento estava escrito o que eu entendia como parto normal: um parto ativo, com a mulher como protagonista, da forma com que ela sentir bem. Eu então queria simplesmente ter parto com o respaldo da Organização Mundial da Saúde. Mal sabia que não seria algo tão simples assim.

Completos os três meses de gestação falei novamente com minha obstetra: “E o parto doutora?”. Ela me apresentou o que ela chamou de “o lado administrativo do parto” nas seguintes opções:
1. Ou você muda seu plano de saúde de semi privativo para privativo, assim garantimos que eu e o hospital renomado estaremos disponíveis;
2. Ou você mantém seu plano semi privativo e corre o risco de não ter disponibilidade no hospital renomado, vamos para uma segunda opção de hospital com uma taxa de disponibilidade paga a mim e minha equipe;
3. Ou eu te acompanho durante o pré natal e no dia você ganha seu bebe no hospital que desejar com o plantonista.
Enquanto eu pensava “E o bebê?”, “E as recomendações mundiais da saúde?”, “E o que você poderia me indicar para que meu parto seja normal?”, ela me apresentava as tais “opções administrativas”. Ficou evidente que o foco não era nem eu nem o bebe.

Dentre as minhas leituras descobri o profissional que poderia me dar o suporte que eu estava buscando, a Amanda, uma doula. Após nossa primeira conversa tive a certeza de que havia encontrado alguém que realmente se preocupou comigo, com a Júlia, e com meu esposo. Falamos sobre nossos medos, sobre o que não gostaríamos que fosse feito e sobre como ela poderia nos apoiar. Saí com a felicidade de ter encontrado o suporte emocional que eu precisava, a experiência de mais de 20 partos da Amanda, e algumas indicações dos obstetras que trabalham de forma humanizada em Porto Alegre/RS. A felicidade durou até o dia seguinte, quando liguei para os 3 obstetras humanizados e todos estavam com suas as agendas lotadas na data prevista pro nascimento da Júlia.

Fui para minha consulta obstétrica posterior com a esperança de ainda tentar falar sobre o parto normal. Ela perguntou se eu havia decidido sobre as opções administrativas, disse que sim, e perguntei “E como acontece um parto normal?”. Ela então se revelou: “Eu faço parto, com caneta e bisturi”. Me explicou que parto normal depende muito da mãe, que ela como médica não teria muita interferência, logo não saberia confirmar como iria terminar. Por outro lado a cesariana ela sabia exatamente como começava e como terminava, e o que ela poderia fazer em caso de algum contratempo. Perguntou o tamanho do meu esposo, e “por que você não escolheu um homem compatível com teu tamanho?”, inferindo que os 1,81m do meu esposo não estava compatível com meus 1,62m. Eu percebendo o que a sutileza desta colocação trazia implícita, ouvi-a dizer que ela faria um parto seguro para mim e para o bebê, e que eu precisava confiar nela.

Já havia internalizado o conceito de parto ativo e ficou evidente que esta não seria a conduta da minha atual obstetra. A relação de confiança que ela buscou criar com sua abordagem “farei um parto com segurança para vocês duas” me fez decidir que ela não era a profissional que eu queria ao meu lado em um dos momentos mais importantes da minha vida.

Com o papai um pouco mais acostumado com a ideia de ter um parto humanizado, e sem médicos humanizados “disponíveis”, fui à busca de uma enfermeira obstétrica, profissional habilitado para realizar partos de baixo risco, o meu caso. Lendo relatos de parto conheci o trabalho da Cintia Senger e agendamos uma conversa. Em 40 minutos de conversa a decisão, “Sim, vamos ter como primeira opção um parto normal humanizado domiciliar”. Sim domiciliar, pois no Rio Grande do Sul enfermeiro obstétrico não está autorizado a fazer parto hospitalar, no hospital precisa-se de um médico, e ainda que eu tivesse um médico humanizado este não teria autoridade para “quebrar” alguns dos protocolos hospitalares desnecessários que Brasil pratica.

Com 24 semanas, depois de muita busca e aflição, encontrei profissionais que me olham nos olhos, acreditam que eu possa dar a luz conforme minha natureza, se emocionam quando falam sobre os bebês que assistiram nascer, e chamam minha filha pelo nome.

Completas 40 semanas de gestação começa a aflição dos que nos rodeiam em saber quando a Júlia vai nascer. Agregado a isto a ansiedade de ter ela conosco afligia meu coração. Nossa resposta era sempre a mesma “Ela tem até as 42 semanas e sabe a sua hora de nascer”.

Com 41 semanas completas alguns riscos passam a fazer parte do “plano de parto”, e minha ansiedade me consumia. Decidimos induzir o parto de forma natural, através do descolamento da membrana. Procedimento realizado na terça a noite (08/09) e em algumas horas os sinais de que a Júlia estava a caminho. Cléder e eu passamos a quarta-feira aprendendo a lidar com a dor, descobrindo formas de relaxar o corpo quando as contrações vinham. Um dia inteiro tendo a certeza de que o amor que me levou a dizer o “Sim” há quase 6 anos atrás foi a mais assertiva escolha que fiz na vida, meu amado esposo! Vivemos os pródomos sozinhos e juntos, em união com a nossa filha, no conforto do nosso lar (Cléder vendo o jogo do Grêmio nos intervalos das contrações). Às 23h confirmamos os 7cm de dilatação, era de fato o trabalho de parto, recebemos a equipe que apoiaria dali pra frente, as enfermeiras Cintia Senger e Joice Schmalfuss e minha querida doula Amanda Martins.
Até às 3h do dia 10/09 tudo seguia como esperado, depois disso porém as contrações diminuíram e constatou-se que a Júlia havia encaixado “de orelha” ao invés da parte frontal da cabeça, estava com o rosto a esquerda e o dorso a direita, o que exigiria contrações fortes para que pudesse completar o giro e nascer. Com um ritmo de contrações menor as enfermeiras indicaram que o apropriado para a situação seria utilizar ocitocina sintética, para que as contrações aumentassem e ela nascesse. Infelizmente este cenário me levara a um hospital e assim acabara com meu sonhado parto domiciliar. Impossível não cair em prantos nesse momento, foi quando meu suporte emocional, minha doula, me faz lembrar o que eu havia escrito no meu plano de parto, o plano B: parto normal hospitalar. Ela me trouxe de volta pra realidade me lembrando do meu plano de parto. Tudo estava como planejamos, partiríamos para o plano B, e que ainda assim a Júlia viria ao mundo de forma humanizada.

Assimilado que o parto não seria domiciliar chegamos ao hospital e fui recebida pela obstetra humanizada Ana Claudia Esteves Codesso, olhei pra ela e aos prantos disse que não havia conseguido o parto domiciliar, ela me deu abraço forte e me confortou. Minha doula desencaixou bebe e virou cabeça e dorso para a esquerda de modo a facilitar a descida, usando apenas um pano, chamado reboso e suas mãos habilidosas, a obstetra aplicou 35ml de ocitocina, e lá se forma mais 4hs de contrações.

Enquanto a Júlia descia e as contrações aumentavam tive medo de me machucar no parto, perguntei sobre analgesia, e conversando com a minha doula entendi que tinha que fazer a Júlia nascer, todo o resto era muito pequeno perto da vida que esperava para ver o mundo.

Na coroação do bebe no canal de parto outro momento de muito medo, e lá estava Ricardo Jones, que “visitava” a sala, tirando uma foto pra me mostrar os cabelos da Júlia, e me encorajar e dizendo que estava quase nascendo. Eu havia lido muito o que o Ricardo escreve, e ter ele presente naquele momento foi a cereja do bolo. Doutora Ana muito respeitosa e delicada, acocada no chão para amparar a Júlia, me olhava com um olhar singelo e doce, transmitindo muita calma, enquanto apoiada na minha doula eu buscava a melhor posição para suportar as contrações e a dor.

De parto normal às 21h10 do dia 10/09/2015, com 41 semanas e 2 dias de gestação, com 3.100kg, com uma circular de cordão, com laceração de 2º grau, apgar 9/10, 18h de bolsa rota, mais de 36hs de trabalho de parto, nasceu a nossa tão esperada filha.

Trouxemos um ser humano ao mundo da forma mais humanizada que pudemos, com todo o acolhimento que um ser humano merece, e com todo o amor fez com que a nossa filha fosse concebida.

A Julia nasceu…
• com respeito a todo tempo que ela e eu precisávamos de trabalho de parto
• sem uso anestesia, pois meu corpo seguiu seu tempo e ritmo e eu pude aprender pouco a pouco a suportar as contrações, enquanto minha doula usava técnicas alternativas como massagem para alívio da dor e trabalhava minhas dores psíquicas;
• sem episotomia, o que é considerado violência obstétrica pois comprovadamente não ajuda no nascimento, apesar de ainda ser praticada no Brasil;

A Júlia nasceu…
• e não teve o verniz de seu corpo removido com banho precoce, ela pode contar com ele até aumentar o PH de sua pele, quando ele foi absorvido pelo seu próprio corpo, estando prevenida naturalmente contra bactérias;
• e veio para o meu colo, aumentando meus níveis de ocitocina, essencial para produção do leite materno, e regulou sua temperatura corporal através do contato pele a pele comigo na sua primeira hora de vida, e não em uma cama aquecida de berçário onde estaria chorando sozinha;

Nasceu também a mãe da Júlia..
• com todas vontades respeitadas, sem preocupação com o tempo, com tranquilidade e com afeto;
• com liberdade de movimentos que o corpo pediu no momento do parto, não seguindo qualquer posição padrão para favorecer o “trabalho” do obstetra;
• com amparo de profissionais humanizados que sabem como assistir o nascimento, ouvindo palavras encorajadoras. Profissionais que trouxeram a segurança de que eu e o bebê éramos capazes de fazer o parto acontecer, pois somos fisiologicamente preparados;
• transbordando de felicidade e realização por ter acreditado na fisiologia do nascimento.

Decidir por um parto domiciliar não é uma escolha fácil. A sociedade criou um sistema onde “você é louca?” se fizer algo que a contrarie. O sistema te leva a acreditar que você está fazendo a melhor escolha quando ouve seu obstetra, e você nem toma consciência do que se passa. Não porque você não ame seu filho, mas sim porque você confia no médico, pois ele te dá segurança de fará tudo que precisar para salvar a sua vida e a do bebê se necessário, e obviamente você não vai querer ter o risco de vida do seu bebe em suas mãos, afinal você não é um profissional em medicina, seu medico é.

Cria-se um cenário onde a gestante é objeto do obstetra, quando na realidade ela é quem tem o papel principal, porém não recebe o menor incentivo para agir como tal. Pelo contrário, as afirmações comuns tanto dos obstetras, como da sociedade, te induzem a certeza de que “seu bebê é muito grande”, “seu esposo não tem perfil físico compatível com o seu”, “com 40 semanas seu bebê estará em sofrimento e será necessária uma cesária”, ou ainda: “você é uma guerreira se aguentar a dor causada por um parto normal”, “você tem a opção de escolher uma cirurgia”. Ninguém te diz que nascer faz parte da natureza humana e o que você precisa é apenas deixar a fisiologia e seu instinto agir. Você não recebe o mínimo incentivo para buscar entender como a raça humana nasceu desde os primórdios. Seguir a natureza humana não sustenta financeiramente o sistema de saúde do Brasil.

Passei 27 anos da minha vida acreditando que o corte exagerado do períneo que a minha mãe sofreu quando eu nasci, e que impacta na saúde dela até hoje, foi o que salvou a vida da minha irmã. Acreditava que a episotomia da primeira gestação e a duas circulares de cordão que minha irmã tinha no pescoço foram os motivos salvadores da vida dela, pois evitaram o parto normal, levando-a a nascer através de uma cesariana. Hoje tenho a certeza de minha mãe sofreu de violência obstétrica e de erro médico no meu parto.

Buscar através de um estudo profundo sobre a fisiologia do nascimento, entender a situação da saúde no Brasil e do mundo, conhecer a história do nascimento humano, foi o que me trouxe a segurança para tomar posse do parto da Júlia.

Sim eu tenho acesso aos melhores hospitais, ao melhor plano de saúde do meu estado, aos mais reconhecidos profissionais de saúde. Porém ao contrário do espera-se com este cenário, encontrei o apoio que eu precisava nas desvalorizadas profissões de doula e enfermeira obstétrica.

O amor que me fez gerar um ser humano, minha curiosidade, a consciência que adquiri sobre os impactos do nascimento na vida de uma pessoa – que me levou a conhecer minha doula e minha enfermeira obstétrica – e o apoio que tive do meu esposo, foram os fatores que me possibilitaram conhecer e viver da forma mais intensa esse mundo novo.

“Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer”. Michel Odent.

Relaciono aqui referências fundamentais:

Recomendações para o parto de acordo com a Organização Mundial da Saúde
http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs363/en/
http://www.amigasdoparto.com.br/oms.html
http://partonormal.expert/2015/05/11/o-que-e-um-parto-ativo/

Parto por um viez histórico e cultural
http://wellroundedmama.blogspot.in/2015/03/historical-and-traditional-birthing.html

Movimentos pela Humanização do Parto:
https://www.facebook.com/partoativobrasil
https://www.facebook.com/partoalegre
https://www.facebook.com/humanizesse
https://www.facebook.com/orenascimentodoparto
http://partonormal.expert/
http://maedepeso.com.br/
http://vilamamifera.com/
https://www.facebook.com/nascermelhor

Obstetras humanizados Porto Alegre:
https://www.facebook.com/anaclaudia.estevescodesso
https://www.facebook.com/karla.brouwers.9
https://www.facebook.com/ricardoherbertjones

Enfermeiras obstétricas que fazem parto domiciliar
https://www.facebook.com/cintia.senger.33
https://www.facebook.com/neusa.berleseoliveirajones

Doulas:
http://www.doulas.com.br/oque.php
https://www.facebook.com/amanda.martins.3150

Registros fotográficos e cenográficos de partos humanizados
http://alemdolhar.com.br/video-de-parto-humanizado/
https://vimeo.com/user22013643
https://www.youtube.com/watch?list=PLQ5qR0a5xDofEACc6G_4IDv3ptoBDMGSV&v=pFwl3GffSIc

 

Parto e transformação, a experiência de uma doula

Hoje, trago um texto que escrevi em julho de 2010 sobre o primeiro parto que assisti em casa. Relendo este texto, dou-me conta que ele é perfeito para esse momento de vida em que tenho retomado algumas atividades, refletido sobre minha prática como doula e sobre os rumos próximos que darei à minha vida profissional. Quando leio o relato, tenho certeza da maravilha que é acompanhar partos. Partos são momentos transformadores, e por mais clichê que isso possa parecer, é a mais pura verdade. Sou outra mulher depois de quatro anos de doulagem. O maior aprendizado de ser doula, para mim, é entender que a transformação é algo que acontecerá independente da minha vontade, independente se estou pronta ou não. Ela virá. E a única coisa a fazer é mergulhar nisso e entregar-se ao processo. Acho que a principal característica que nasce em uma doula é humildade. Humildade em reconhecer que o processo de parir, por mais que haja apoio e técnicas, depende apenas da mulher, por mais que a gente sofra com isso, tem coisas que estão para além de nós mesmos. Também cultivamos humildade especialmente dentro de hospitais, onde aprendi que quanto mais invisível, melhor. Ali não é lugar de militância e faz parte da escolha daquela mulher, não da nossa escolha. E se acreditamos em empoderamento, há que se deixar que o casal tome decisões, você pode sugerir suavemente, mas a palavra final não é sua, definitivamente. Suavidade é outra coisa que se aprende e também qual é o nosso lugar. A gente aprende que menos é mais e que nem sempre a mulher vai querer que estejamos em volta dela. E precisamos respeitá-la. O parto é dela e merece todo o nosso apoio e apoio é estar junto, não fazer pela pessoa. Mas chega de conversa, vamos ao texto. E que ele sirva de inspiração para muitas mulheres e homens.

mulher gravidaJul/2010. No dia dos namorados, 12 de junho de 2010, tive a oportunidade de assistir um parto em casa. Foi uma experiência única. Estou, agora, tentando descrever o indescritível. A parteira me telefona, dizendo que a gestante está em trabalho de parto. Chego à sua casa e sinto uma paz e um profundo acolhimento. Chego em silêncio ao lugar sagrado do parto. E vejo a mãe, muito empoderada e totalmente recolhida em seu mundo interno. Parecia meditar. A cada contração, a volta para dentro de si mesma, a busca de forças em seu mundo interno e era mágico acompanhar aquele momento. Sentia ali o poder do feminino e era como se aquele poder me empoderasse também e sentia a força de ser mulher e o poder que é dar à luz. O silêncio se fazia presente e só era possível ouvir o som de uma música meditativa que tocava ao fundo.
Impressionante. Essa era a palavra que definia bem meu estado diante daquela mulher. Ela sorri para mim, me chama para dentro do quarto e me acolhe. Eu entro sem jeito, pedindo licença, sem querer atrapalhar. Vejo também seu companheiro. Um homem que dá sustentação àquele processo. Parceria. A união, a lua nova, o encontro do sol e da lua e o nascimento de uma nova família.
Toda a família participava com alegria daquele momento, auxiliando de diferentes modos. Senti-me em casa. Senti como se estivesse voltando para casa, para um lugar há muito tempo conhecido. Um lugar onde não havia medo, mas sim entrega e confiança. Essas palavras ecoavam em minha mente. O trabalho de parto se estendeu pela manhã e fomos almoçar. Um almoço preparado pela mãe da mãe, uma geração de mulheres se apoiando, exercitando a confiança e desafiando um mundo que diz que parto em casa não é mais possível. A mesa estava alegre, especialmente com a presença da primogênita daquela mãe que estava para parir mais uma linda menina. A criança tem dois anos e meio, é muito amada e esperta. Entre nós duas houve um encantamento à primeira vista.

Durante o almoço, o pai desce correndo as escadas e chama a parteira: “está na hora”. AOrgasmic-birth_site parteira sai correndo e o médico também. Eu vou aos poucos. E chego ao lugar. Lá está a mãe. Fico admirada diante dela, diante de seu poder. Entro em outro estado de espírito. Aquele momento único contagia a todos capazes de sentir, de perceber o que está ocorrendo ali. O nascimento de um novo ser. Uma mulher dando à luz. E certamente, naquele momento lindos raios de sol deviam estar saindo daquele útero em direção à terra. Intensidade. Um intenso sentimento de plenitude tomava conta de mim. E agradeci por ser mulher e por poder presenciar aquela hora.
A parturiente sente que cada vez mais é chegada a hora e vai nascendo junto com sua filha. Há uma força que vem de dentro da mãe e toma conta de todo o ambiente. Também me sinto forte. Vocalizações. Tenho vontade de vocalizar junto com ela. E sinto como se muitas e muitas gerações de mulheres estivessem ali juntas parindo e auxiliando aquela mulher e seu bebê a nascerem. Sinto-me plena. E a nova menina nasce, em casa, na água. Uma alegria toma conta do meu ser, bem-vinda Iara Maria! Rainha das águas.

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RELATO DE DOIS PARTOS DOMICILIARES

Por Adelise Noal – Médica Parteira

“Com fé perfeita e inabalável
Com persistência e escrupulosidade
Trabalhe com serenidade pela felicidade dos outros”
Shantideva

Dois partos domiciliares em sequência: 30/09 e 01/10 2013. Um na cidade de Rio Pardo e outro em Viamão. Duas mulheres com cesarianas prévias, decididas na segunda gravidez a passarem pelo processo da forma mais natural possível, se prepararam para um trabalho de parto e parto em casa. Evoluíram juntas até completarem 41 semanas de gestação. Uma totalmente entregue a sua fé partilhada na doutrina do Santo Daime, outra com a fé projetada na força da sua natureza feminina intrínseca.

“… onde vivemos não é necessariamente onde vivemos fisicamente, mas sim, como vivemos no reino da psique. Não importa onde eu vivo, minha jornada é o meu lar. Re-membrar a psique é a experiência de se estar presente à constância do mundo interno, aquele que nos move a partir de dentro e que subsequentemente faz a história pessoal e cultural no mundo externo. Isso é voltar para casa, estar em casa na jornada, onde a psique é nossa companhia constante por entre paisagens sempre diferentes….”
( Jamis Hollis em Nesta Jornada que chamamos Vida)

30/09, na Onda Encantada 18 do Enlaçador de Mundos Branco. Kin 230: Cachorro Solar Branco (Calendário MAIA)
“Pulso com o fim de amar, realizando a lealdade, selo o processo do coração, com o tom solar da intenção. Sou guiado pelo poder da transformação.”

Nasce Soloína, filha do sol, às 7hs e 32 min, em Rio Pardo.

Peso – 3070 gramas / Comprimento – 47,5 cm.
Apgar 9 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto.

Vem trazendo as águas profundas das entranhas materna na qual estava envolvida permitindo sua mais suave expulsão. Logo nos braços maternos, logo mamando, logo completando o ritmo fisiológico da liberação de ocitocina.

Cânticos de louvor e orações saudaram a chegada da vida nova!

 01/10, na onda encantada 18, do enlaçador de mundos branco  Kin 231 – Macaco Planetário Azul

“Aperfeiçoo com o fim de brincar, produzindo a ilusão, selo o processo da magia, com o tom planetário da manifestação. Eu sou guiado pelo poder da autogeração.”

Nasce Raul às 4hs e 29 min da madrugada.
Apgar 9 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto.
Peso – 3170 gramas / Comprimento – 48,5cm

Piscina, bola, cadeirinha, objetos usados neste parto que trouxeram algum tipo de conforto, todos escolhidos pela gestante. Sua família, bem como sua doula, estiveram presentes durante o trabalho de parto,  seu filho de 3 anos participou também, pois acordou no início do período expulsivo e pode ver seu irmãozinho nascer.

Neste parto pude sentir o chamado círculo de fogo que acompanha a descida  do bebê na sua passagem final em direção ao meio externo. Minhas mãos que davam apoio ao períneo, sentiram e “ouviram”a explosão radiada de fogo no momento em que a cabeça se depreendeu…

Mesmo sem nenhuma crença, o trabalho de parto nos remete a uma instância muito acima da condição humana comum. O homem arquetípico mostra sua face! Como um montanhista ao escalar uma alta montanha, entramos na via. Cada passo, mais alto nos leva na direção  da experiência do êstase. As referências concretas e cotidianas nas quais estamos contidos tornam-se evanescentes. Na montanha, o ar rarefeito, obriga o corpo  a soltar suas amarras intelectuais, emocionais. No parto um influxo do chamado hormônio do amor: a ocitocina dá um tom semelhante. No cume chegamos juntos, todos os participantes do trabalho de parto. Levados pelas mãos da natureza, como alpinistas envoltos um a um numa extensa corda, ligados… A corrente que faz do trabalho de parto um trabalho de equipe. Atuação material e espiritual integradas numa totalidade.

Perfeitos como uma obra de arte, nascem… menina e menino, Soloína e Raul!

A arte da vida que agora aqui está!

 

 Nascimento do Liev!

Pachamama“A felicidade é estar com a natureza, ver a natureza e conversar com ela”
 Liev Tolstoi

Trabalho de parto realizado em domicílio.
Nascimento de Liev, no último dia da lua nova do dia 28 de novembro de 2014, às 19:39h

Kin 134 mago auto existente branco
Onda encantada 11 do macaco azul
Defino com o fim de encantar
Medindo a receptividade
Selo a saída da intemporalidade
Com o tom auto – existente da forma
Eu sou guiado pelo poder do coracão

A bolsa rompida às 4:30hs da manhã anunciava a proximidade do parto. Em torno das 10hs começam as contracões efetivas do primeiro periodo do trabalho.  Ana e Fabiano prepararam uma piscina pois a intencão era realizar um parto na água. Onde ficou a maior parte do tempo, até completar a dilatação, sendo possível conversar sobre questões diversas já que as dores, para ela, eram mais suportáveis. Em torno das 17hs com a entrada no segundo período do parto houve uma mudança radical do processo que seguia um curso muito tranquilo.
Ali se encontrava o grande aprendizado!!!
A descida de Liev  aconteceu de forma muito lenta exigindo um grande esforço. Aprender a usar a respiracão, fazer dela uma aliada na força expulsiva gerada pela contração uterina.
Paciência… Resistência… Confiança…
No primeiro período do trabalho de parto, a respiração ajuda a resistir melhor a dor, uma expiração prolongada soltando o ar com os lábios entreabertos, produzindo um som que expresse a liberação do estado doloroso. A cada contração um tempo de concentrar na respiração e com ela sincronizar corpo e estado mental.
Aqui, aprendemos a soltar a dor na expiração.
No período expulsivo temos que mudar, quando vem a contração é preciso empurrar para baixo. Inspiração profunda, retém o ar e empurra com toda força, o máximo possível, aproveitando a duração da contração. E relaxa completamente até a próxima contração. Parece simples!!!
A cada onda contrátil a mulher vai entrando em um estado alterado de consciência. Só o que existe é o agora, aquele instante e a atitude correta. Lentamente e literalmente abrindo o espaço interno, o arcabouço do quadril por onde um novo serzinho vem descendo. A abertura desta passagem também é um aprendizado. A intensidade da dor faz com que se queira fechar em vez de abrir mais.
Soltar… Desprender… Uma experiência que pode mudar toda nossa compreensão psíquica e espiritual da vida.

” Não se vive sem fé. A fé é o conhecimento do significado da vida humana. A fé é a força da vida. Se o homem vive é porque crê em algo”   Liev Tolstoi

Respirar … soltar … desprender … Mesmo na dor, não há outro caminho!
Liev descia devagar mas firme em sua vitalidade, sem saber o esforço que acontecia no lado de fora… coroou, como se diz quando a cabeça aparece no períneo e precisou de muitas contrações uterinas e muita força voluntária, ativa. Até que sua mãe dominada pelo instinto na sua expressão mais pura, deu um salto agachada e apoiada em minhas pernas, eu estava sentada na sua frente, segurou-se em meus ombros e assim fez suas ultimas forças para que houvesse a expulsão da apresentação.
Para mim, foi o momento mais emocionante do trabalho de parto, antes mesmo do nascimento propriamente dito, assim como Ana, eu também vivia o estado alterado de consciência, porque parturiente e parteira comungam o mesmo processo. Quando  saltou em meus ombros  me senti como uma árvore, os ombros eram os galhos e minhas pernas o tronco firme onde podia se apoiar e enfim sincronizar o movimento final.
Nasceu Liev, jorrou liquido em meu tronco, minhas mãos sentiram a ruptura  do períneo, segurei sua cabecinha. As mãos viam, enquanto meus olhos neste momento faziam parte dos galhos mais altos da árvore e só enxergavam o céu.
Um instante de intensa magia!
Voltamos para a posição anterior e faço as manobras para liberar os ombros e a saída total. O nascimento!
Vem em meus braços, um abraço… Apgar 8 no primeiro minuto, 10 no quinto minuto. Entrego aos braços de sua mãe.
E logo houve a dequitação da placenta com a finalização do trabalho de parto que durou  em torno de 11 horas.

“Minha religião é o amor a todos os seres vivos”  Liev Tolstoi

Assistido por:
Adelise Noal – médica
Juliana Pena – doula

 

RELATO DE PARTO – NASCIMENTO DA ISABELA

Este é mais um lindo parto que acompanhei como doula e sinto gratidão por testemunhar a transformação de uma mulher no seu rito de passagem, quando permitimos que a natureza faça a sua parte.

Parabéns Letícia Volkmann Cavalini pelo nascimento de sua linda filha Isabela!

Boa leitura a todos!
Luísa Diederichs

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A expectativa pela chegada da Isabela era grande. Primeira neta do lado paterno, primeira filha de uma filha. Ainda estávamos na 38ª semana e o assunto diário era sobre quando a dona moça ia resolver nascer, como se já estivesse na hora ou passando do tempo.

Como moramos no interior, combinamos com o Dr. Ricardo e com a Zeza de que o parto seria em Porto Alegre na casa que era da minha bisavó, que já faleceu, e que no momento está parcialmente ocupada, mas que continua bem equipada.

Fomos morar na casa da minha mãe alguns dias antes da Isabela nascer. Uma semana envolvidos em fazer a mudança – o que é de uso diário vai para um lado, o que é para a casa nova vai para o outro, encaminhar o que não está em uso e o que não tem mais serventia… Faxina geral!

Encontro de gestantes com a Zeza em Porto Alegre, visita ao hospital, compra de materiais para a casa nova, preparação da lavoura para o plantio e o parto que não chegava nunca…

Tive contrações no domingo (3 de agosto) à noite, após um dia de muito trabalho em função da mudança. Olhei o relógio de 20 em 20 minutos por mais ou menos duas horas e adormeci. Ainda não era a hora.

Na terça-feira (dia 5) fomos a uma maratona em Porto Alegre: almoçamos na casa da vó, visita ao hospital (que era o nosso plano B), consulta médica, compra de piso para o novo banheiro e voltar pra fazenda. Cheguei a pensar que teríamos que ficar em Porto Alegre naquele dia mesmo, mas como não tínhamos levado nada da Isabelinha, ela desistiu e não quis nascer naquele dia…

Quinta-feira (dia 7) após um delicioso jantar, fiquei enjoada e vomitei durante a noite. A piada do dia seguinte era que o pastel não tinha me feito mal, mas sim a sopa, já que eu fui a única que tinha comido sopa no jantar… O mal estar continuou durante toda a sexta-feira. Aquela sensação de querer ficar quieta no meu canto, de não querer ver ninguém mais além do meu marido e de querer organizar os últimos detalhes para a vinda da pequena. Praticamente refiz a mala dela naquela tarde.

E na noite de sexta-feira as contrações voltaram e estavam mais fortes. Agora sim tinha mais cara. Entrei de baixo do chuveiro por volta das 4h de sábado. Saí dali depois de 20 minutos, pois o chuveiro não estava muito bom e a água esfriou. Fechamos as malas, avisei a minha mãe, carregamos o carro e saímos para Porto Alegre às 5h30. No caminho, liguei para a Luísa, minha doula, e para a Zeza, a parteira.

Chegamos em Porto Alegre, na casa da minha bisavó, por volta das 6h30 da manhã de sábado. As contrações durante a viagem pareciam fortes e ritmadas. Apenas chegamos lá e a Luísa também chegou. Ela e o Daniel mal se viram, pois ele já estava muito cansado e foi dormir.

Luísa e eu fomos para o quarto. Ela fez uma massagem gostosa e relaxante nos meus pés e me sugeriu fazer uma despedida da minha barriga enquanto isso. Ainda lembro vagamente da canção que ela entoou tão docemente… “mãe antiga….”

Em seguida chegou a minha mãe. Conversamos, tomamos um café da manhã gostoso. Como as contrações continuavam de 10 em 10 minutos, com algumas fracas entre elas, fomos fazer feira e depois supermercado. Aproveitamos para comprar comida para todo o fim de semana. Frutas, verduras e pães orgânicos e alguns mantimentos para a casa. Caminhar era maravilhoso. E foi ótimo passear pela rua, pois algumas pessoas se aproximavam para perguntar se eu estava bem, se eram contrações e outras me ofereciam cadeira para sentar. Algumas mulheres até me contaram suas próprias histórias de parto. Todos me desejaram boa hora e simpatizaram com o meu desejo por um parto normal.

A manhã de sábado se confundiu com a tarde. Já não lembrava mais quando tinha comido a última vez. A fome era sempre grande, mas cada vez que eu comia vinha uma contração e, em seguida, a náusea, só para estragar o gosto do que quer que entrasse na minha boca.

Mais uma caminhada durante a tarde. Caminhamos pela praça Japão e pela rua… Dava alguns passos e tinha que me abraçar no Daniel, pois vinha uma contração. Ou simplesmente uma vontade de ficar abraçada nele.

Em algum momento naquela tarde falei com a minha prima Jaqueline, que é pediatra, e com a parteira Zeza. Segundo a Luísa, ainda não era para aquela noite. Combinamos de ligar pra ela caso houvesse alguma mudança no panorama e ela foi dormir em casa, com o seu marido e  com a sua filha.

Domingo (dia 10 de agosto, dia dos pais), lá estava ela de volta! Recebi mais massagens, enquanto minha mãe e o meu marido corriam pra cima e pra baixo tentando consertar os dois chuveiros que haviam queimado durante a noite. No final da manhã, chegou a Zeza. Fizemos exame de toque, escutamos o coraçãozinho da Isabela, medimos a minha pressão arterial. Tudo sob controle e com sinais de que ainda ia demorar.

Eu já estava muito cansada e a minha ansiedade era grande. Queria que ela nascesse de uma vez, queria que as dores terminassem logo… o desânimo por conta do cansaço já estava começando a chegar. Mas, por sorte, a Zeza não parecia nada cansada naquele momento, pelo contrário, ela chegou com todo o gás e dizia todo o tempo “taca-le pau Isabela!”. Comecei a tomar homeopatias e o chá da Naoli. Em seguida, um super escalda-pés. Danças com os quadris. Massagens. Diferentes posições durante as contrações (por exemplo, ficar de quatro no chão e levantar um dos lados do quadril e apoiar a perna em uma cadeira). Me pendurei em uma corda e soltei o quadril. Abraços. Carinhos. Beijos. Choros. Gritos. A emoção aumentava a cada contração e, ao mesmo tempo, a tranquilidade tomava conta de toda a casa. Eu caminhava de um lado para o outro e via que todos os que estavam presentes (minha mãe, meu marido, a doula e a parteira) faziam suas coisas, conversavam, riam. Água, muita água!!! Muito chá da Naoli… e chocolate também!!! Assim passamos a tarde. Comia quando eu queria, conversava, ria, cantava. Piadinhas se misturavam com a emoção da eminente chegada da minha filha. Às vezes a Zeza me chamava para auscultar o coração da bebê durante a contração e para conferir a dilatação. Tudo progredia de forma muito tranquila e lenta. E o cansaço só aumentava… As pernas doíam, o quadril se abria. Eu estava muito cansada e tentava cochilar um pouco entre as contrações, mas cada vez que eu adormecia, vinha uma contração muito mais forte.

No final da tarde de domingo entrei em baixo do chuveiro mais uma vez e agora queria a companhia do Daniel. Ficamos lá um tempão, ele sentado em um banquinho e eu agachada no chão e apoiada nele. Recebia massagens e carinho enquanto a água quente corria pelas minhas costas. Quando saímos, ligamos mais uma estufa e… a chave de luz caiu!!! Corre Daniel e corre Helena para ligar a luz outra vez! Já estava escuro, frio e chuvoso lá fora, precisávamos das estufas. Foi rápido para normalizar, mas levamos um sustinho!!

Por volta das 18h, a bolsa rompeu. A dilatação tinha aumentado pouco desde a última vez que conferimos, ainda estava em 6 cm. Chamamos a Jaque e avisamos o dr. Ricardo.

Depois que a bolsa rompeu, parece que tudo começou a engrenar. Agora as contrações eram realmente fortes e já não conseguia dar mais que três passos sem sentir uma contração. Durante as contrações a minha vontade era de ficar com os joelhos bem separados e apoiados sobre uma almofada no chão e apoiando os meus braços sobre a bola de pilates, sobre um sofá ou então, abraçada em alguém, praticamente pendurada, e geralmente era a querida Luísa quem sustentava todo o meu corpo. O trabalho de parto começou a ficar ativo e cada vez mais eu queria ficar no meu canto, sem intromissões.

Lembro de ter ido na cozinha em um momento e, ao ver a mulherada conversando, tive vontade de voltar para o meu cantinho e aí veio uma contração forte. Mesmo assim, quis continuar a “fugir”, então, me ajoelhei e fui engatinhando, mesmo durante a contração. Em outro momento, apareceu o meu pai, a minha irmã e uma prima querendo me ver. Eu só lembro de olhar pra minha mãe e, desesperada, dizer que eu não queria ver ninguém, ninguém mesmo. Naquele momento eu não tinha vontade de saber o que estava acontecendo lá fora, no mundo… a minha única preocupação era comigo mesmo e tudo o que eu queria era poder parir. Parir sozinha, no meu canto. Parir sem olhos de curiosos.

Agora não era só eu que estava cansada… em algum momento daquela madrugada, senti que o cansaço era geral e que todos pensavam “taca-le pau, Isabela!!”. Quando caminhava pela casa, via o meu marido, a minha mãe e a pediatra dormindo. Até a doula conseguiu descansar uns minutos em algum momento… menos a parteira e eu.

A sensação de que eu não ia conseguir parir sozinha, em paz, estava começando a chegar… já sentia que não tinha mais forças. Perguntei à Zeza quais seriam as opções se eu quisesse desistir do parto domiciliar. Ela me respondeu que iríamos para o hospital Divina Providência, chamaríamos o dr. Ricardo, ele me daria ocitocina, as contrações seriam mais fortes e mais freqüentes e o tempo de trabalho de parto ficaria mais curto. E as dores? Dá pra chamar um anestesista se quiseres, me respondeu. “Espera o teu marido acordar, esta é uma decisão que tu tens que tomar, mas que deves conversar com ele antes”.

Quando a Luísa voltou do seu “descanso”, eu entrei no banho mais uma vez. Combinamos que agora seria a vez da Zeza ir descansar enquanto eu estava em baixo do chuveiro. Não agüentei ali muito tempo… Chamei a Luísa e disse que eu já não agüentava mais. Naquele momento, ela me fez lembrar uma das conversas que tivemos, em que ela me disse que ia chegar um momento do trabalho de parto em que eu ia pensar que não conseguiria ir adiante e a vontade de desistir seria grande, mas que eu tinha que persistir e que eu tinha que buscar as minhas últimas forças, pois um parto natural e humanizado eram a minha escolha.

Pelo jeito, a Zeza nem se deitou… chamamos ela e eu queria mesmo chamar o Daniel também para conversar sobre a desistência. Eu estava com dois corações: por um lado, sentia muita dor, estava muito ansiosa e realmente esgotada e por outro lado, eu sabia que eu tinha plenas condições de ter um parto domiciliar, eu tinha confiança em mim como mulher e confiava na equipe que estava me acompanhando. Então, a Zeza disse para eu entrar mais uma vez no banho e que quando eu saísse, ela ia conferir a dilatação e tomaríamos uma decisão.

Parece que a Isabela precisava deste ultimato para resolver nascer… ela já era sapequinha desde quando estava na barriga da mamãe!!! Saí do banho e a Zeza fez o exame de toque: 9,5cm, faltava só um rebordezinho, que alegria!!

Depois desta notícia, parece que eu renovei. Já eram quase 4h30 da madrugada de segunda-feira. Não sei de onde tirei forças para agüentar as últimas contrações. A alegria tomou conta de mim. Fui avisar o meu marido, que ainda dormia: “amor, a nossa pequena está chegando!”. Em um segundo, tudo estava pronto: a banqueta, a bacia com um chá de ervas, um protetor de cama para proteger o carpete, as luvas, o óleo, as contrações cada vez mais fortes e freqüentes. Com o auxílio da respiração durante a contração sentia que ela ia descendo.

Ainda levou aproximadamente uma hora entre a última aferição e o nascimento. Tomei água, caminhei um pouco, sentei na bola de pilates e quando eu senti que a Isabela estava bem em baixo, sentei na banqueta. O Daniel veio, sentou na bola, bem atrás de mim e me segurou. Eu me apoiei nele e esse abraço me aqueceu e me deu segurança. Desde que as contrações tinham começado, tudo o que eu queria e tudo o que eu precisava era da presença do meu esposo. Saber que ele estava ali comigo, mesmo nos momentos em que ele estava dormindo, me davam segurança e esta segurança me deixava tranqüila.

Ela estava chegando, já podia ver e sentir o seu cabelinho… a emoção era muita!! “Mãe”, “Mããããe, vem ver isso!” “Cadê a minha mãe? Ela precisa ver isso!!!” Mais algumas contrações e a cabecinha já estava de fora!!! Foi aí que a Zeza viu que ela tinha uma volta de cordão no pescoço e que ela não ia conseguir continuar descendo. Então, com uma mão divina, a Zeza cortou o cordão umbilical, que ainda estava dentro de mim e em menos de um segundo a Isabela já estava nos seus braços!!! Já eram 5h31 da manhã de segunda-feira, dia 11 de agosto. E toda a dor passou.

Enquanto escrevo, as lágrimas rolam… este é definitivamente, o momento mais especial da vida de uma mulher. E mais especial ainda quando podemos ver e sentir o nascimento dos nossos próprios filhos.

A Zeza e a Jaqueline fizeram o atendimento na pequena-grande Isabela: massagens e aquecimento. Em poucos minutos, ela estava nos meus braços e fomos nos deitar. Seu chorinho era emocionante… Colocamos ela no peito e ela mamou, mamou e mamou e poderia ter continuado mamando direto até agora!!! Só depois de ela ter pego bem o peito e ficado satisfeita é que ela foi pesada, medida e vestida. 52 cm, 3,100kg. Algumas contrações mais, agora bem fracas, como uma cólica menstrual e a placenta saiu inteira, intacta. A Zeza examinou tudo e fez apenas dois pontos “pra bonito”, segundo ela. Ganhei um super café da manhã preparado pelo meu esposo e em seguida adormeci.

Agradeço, em primeiro lugar, ao meu esposo Daniel, que depositou a sua confiança em mim desde o momento em que escolhemos por um parto domiciliar.

Agradeço de coração a todos que estiveram presentes durante estes dias: meu esposo Daniel, que com a sua calma e com o seu amor manteve o ambiente tranqüilo; minha mãe Helena, que providenciava as refeições e os chocolates; Luísa, a minha doula, com seus chás, massagens e conversas; Jaqueline, minha prima e pediatra, que com muito carinho atendeu a minha boneca; Zeza, a parteira, que com o seu humor, deixava o ambiente mais leve a cada contração; dr. Ricardo que, de longe, nos deixava seguros de que tudo estava bem;  minha vó Heloisa e família Maciel, que nos albergaram e que estiveram todo o tempo à nossa disposição.

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Nascimento de Francisco Damião

” Cosme e Damião a sua casa cheira.
Cheira a cravo e rosa,
Cheira a flor de laranjeira”

Francisco Damião nasce no dia 12 de fevereiro de 2015, às 12:39 min, gestação de 40 semanas e 6 dias, em Antonio Prado, RS. Primeiro dia da lua minguante.
Kin 210  – Cachorro Lunar Branco – Onda Encantada 17 da lua vermelha.
Polarizo com o fim de amar
Estabilizando a lealdade
Selo o processo do coração
Com o tom lunar do desafio
Eu sou guiado pelo poder do espirito
Sou um portal de ativação galáctica, entra por mim.
Muitas são as lembranças que cercaram o nascimento deste menino, vou relembrar algumas… Começa na viagem até a cidade de Antonio Prado, na serra gaúcha, a entrada devagar em uma outra altitude, outro relevo cercado de morros verdejantes. Os parreirais, a uva, o vinho, a pureza do ar, natureza preservada. A observação das construções antigas do tempo da imigração italiana, o contato com típicos descendentes, ouvir sua forma de falar, seu sotaque… Emergiram memórias de minha origem materna…
Um arco-íris sinalizou as boas vindas, bem como os bons augúrios…
Café colonial na recepção. Chás: camomila, erva cidreira, funcho…carinhos da hospedagem …
Assim foi!!!
Chegada na casa de Zé e Lu às 21:30 hs. Lu apresentava frequência das contrações de 3 em 10 minutos porém tanto a intensidade quanto a frequência estava irregular, o que determinou um longo trabalho de parto. Em torno de 15 horas, considerando uma segunda gestação. O primeiro sinal do início, surgiu ao amanhecer do dia 11 com a saída do tampão mucoso e poucas horas depois as primeiras contrações dolorosas de forma esparsa.
Todo trabalho de parto é uma iniciação para a mulher e cada uma pode aproveitar essa oportunidade de aprofundamento interior na dependência de sua visão de mundo. Este pequeno espaço de tempo capitaneado pela parte mais antiga, primitiva do cérebro, vivido numa intensidade total instintiva e arquetipica. Desdobrada em imagens, sentimentos, sensações: auditivas, visuais, táteis, sonoras, gustativas… A totalidade do ser!!!
O movimento é o indicador da evolução do processo, caminhar…sentar…deitar…alongar e flexionar usando a bola…comer alguma coisa…ficar em uma parte da casa…trocar de ambiente…ir para o chuveiro…chorar… Invocar ajuda espiritual… Tempos do caminho árduo que se percorre até completar a dilatação. Caminho que no limite final traz a percepção da morte.
” vou morrer…
” não, não vai morrer…”
Não dito verbalmente, mas em pensamento:
“Não pela dor, mas sim, se morre para a antiga maneira de ver a vida. Uma nova consciência está nascendo enquanto a antiga está partindo. Nasce a mãe e nasce o filho!”
Dois nascimentos simultâneos!!!
No “apuro final”, relembrar que o caminho ainda não chegou ao fim e que a hora mais decisiva está começando: o período expulsivo.
É preciso entrar na profundidade do ser, sua energia vital e trazer uma força renovada, pois o momento exige o máximo de esforço, concentração e determinação.
” Se quisermos desenvolver músculos espirituais para valer e nos tornarmos um guerreiro(a) espiritual, conforme a tradição do tibetano -, precisamos de obstáculos a superar. Precisamos de pesos pesados… Gratidão pelas dificuldades e obstáculos. É assim que aprendemos. Claro que não precisamos chamar as dificuldades, mas, quando chegam, sabemos o método para lidar com elas de forma habilidosa.” Jetsunma Tenzin Palmo.
Até completar a dilatação a natureza faz  a maior parte do trabalho de forma involuntária, ocorre a liberação de ocitocina e todo ambiente biológico se organiza para o trabalho de parto. No período expulsivo, porém, a participação da mulher precisa ser total,  para que a apresentação possa descer pela passagem estreita do canal do parto. A transição pelo arcabouço ósseo seguida pelos dois esfíncteres em forma de 8, que sustentam o assoalho pélvico. Aqui, onde as luzes se acendem, a hora do elemento fogo, é o chamado empoderamento da mulher.
O milagre do nascimento!
Manifestação de um poder supremo, nossa natureza primordial em sintonia perfeita com a natureza física.
Pura magia!!!
Saimos do contexto de espaço e tempo… A realidade torna-se expandida de outros elementos que se irradiam em cores, sons e perfumes. Imagens se constelam na mente…
Um banquinho de parto feito por seu pai ajuda sua mãe a encontrar a força necessária para sua saída ao mundo, aqui deste lado de fora…
Nasce Francisco Damião!!!
3665gramas, 50 comprimento, apgar 9 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto.
Benvindo o menino que traz no nome a força dos gêmeos divinos, Cosme e Damião!!!
Durante todo tempo do trabalho de parto, sua irmãzinha que completou dois anos, 4 dias antes, participou do processo, cuidada especialmente pelo pai, avó materna e irmã por parte de pai. Na delicadeza de menina, muitas vezes trouxe sua ajuda para minimizar as dores da mãe! Logo que nasceu seu irmão, nos braços do pai, fez o primeiro  carinho no mano, um beijo na cabecinha  ainda molhada dos líquidos que o envolviam no útero.

Não há como descrever a emoção que se vive diante de momentos como este!!!

Depois de concluído o trabalho de parto com a dequitação da placenta, um tempo para o inicio da amamentação e do contato pele com pele entre mãe e recém nascido. Ali no quarto escuro propício ao nascimento. Na caverna estilizada, ao abrigo de todos os estímulos de seu neocortex, como dito por Michel Odent, o encontro de mãe e filho, o reencontro em outra dimensão da matéria e do espirito!!!
Tempo sagrado…
” Quão diferente é o inconsciente! Nem concentrado, nem intensivo, mas crepuscular até a obscuridade, ele ganha com isso uma extensão imensa e contém, lado a lado, de maneira paradoxal, os elementos mais heterogêneos, dispondo, além de uma massa indeterminável de percepções subliminares, do tesouro prodigioso das estratificações acumuladas no decorrer das vidas dos antepassados, que, só pela sua existência, contribuíram para a diferenciação da espécie. ” Carl Gustav Jung.
Depois sim é permitido observar o novo serzinho, fazer seu primeiro exame físico.
Tudo perfeito.
Olho para aquele menininho recém nascido, nos braços de sua mãe… Um sentimento  brotou do fundo da alma e ele, o menino, devolve o olhar na minha direção, na minha face, nos meus olhos… Alguns segundos talvez … pois o tempo se alargou, seu olhar fixo, intenso, profundo me cumprimentou e agradeceu por ter conduzido e auxiliado sua mãe durante o caminho até chegar ali… E eu em minha mente e em minha alma fiz uma reverencia no mesmo sentido.  Esta foi a riqueza…este foi o ensinamento!!!
Somos espíritos que encarnamos em um corpo material, para realizar um percurso… Ao nascer não somos uma  ” tábula rasa “, temos uma bagagem de conhecimento adquirido em outros percursos já realizados…nossa ancestralidade está presente.
Muito prazer em conhecé-lo Francisco Damião!

” Hoje, a palavra pertence a quem ainda não falou “.
André Gide

Parto assistido por:
Adelise Noal – médica
Claudete Borges – enfermeira

 

 Nascimento da Consuelo

” …Solta tua voz, bailarina
     Solta tua voz e canta
     Canta alto e grita!
 … Pula, bailarina, pula!
Te entrega sem reservas ao sopro que te dá a vida
Mergulha na imensidão do abismo da luz que há em ti
E deixe que o teu corpo, a tua voz, o teu semblante e o fluir dos
teus movimentos sejam os instrumentos do reencantar da vida no Novo Tempo…”
Cora Coralina
João e Maria, o músico e a bailarina, pais de Consuelo, nascida às 12:24hs do dia 14 de abril de 2015, terceiro dia da lua minguante.

Kin 11 Macaco Espectral Azul, onda encantada 1 do Dragão Vermelho. Castelo vermelho leste do girar.
Dissolvo com o fim de brincar
Libertando a ilusão
Selo o processo da magia
Com o tom espectral da liberação
Eu sou guiado pelo meu próprio poder duplicado

Maria foi moldando seu parto nas últimas semanas de gestação, era preciso vencer o conflito entre sua voz interior que dizia sim e sua vida de relações que dizia não.
O tampão mucoso anunciou que a decisão precisava acontecer, eram 2hs da madrugada, às 4hs iniciam as contrações dolorosas porém, somente às 6:30hs ela consegue definir que tentaria um parto em casa. Sua doula chega trazendo a piscina que seria o local do nascimento. E a sala da casa se transforma lentamente no núcleo de acolhimento para o trabalho de parto.
O primeiro período do trabalho é o estudo da sua dor. Entendê-la, familiarizar-se, aceitá-la. A água morna torna-se um refúgio indispensável, acalma, relaxa, distensiona. Devagar penetra no fluxo que leva a saída do domínio do neocórtex. A água é o veículo.
Exame dos batimentos fetais e o toque são dados  da evolução do processo. Tudo certo com o bebê! 6 cm de dilatação. A jornada para além dos conceitos, da substancialidade dos interesses cotidianos estava tomando o rumo. Horas derradeiras em que a presença de João tornou-se fundamental, dando o apoio carinhoso, sensível e concentrado. De maneira intuitiva tomava a atitude correta a cada giro da espiral…
Maria continuava seu estudo: Por que esta dor?
A fisiologia da dor no trabalho de parto é bem definida, tem origem na dilatação do colo uterino, na contração e distensão do útero, na distensão da vulva e do perineo, na tração dos músculos e orgãos que estão próximos como a bexiga, uretra, reto peritônio e outras estruturas pélvicas sensíveis a dor. Esta é a dor explicada por suas razões somáticas.
A dor pode ser potencializada ou minimizada pelo estado emocional, porisso o valor de um ambiente acolhedor tanto do ponto de vista do espaço físico quanto da presença de referenciais afetivos que gerem segurança a mulher. É uma experiência comparável a uma iniciação espiritual que precisa ser vivida na dimensão do sagrado. Com esta compreensão a mulher em trabalho de parto pode sentir-se parte de um ciclo natural, biológico, instintivo e ao mesmo tempo arquetípico, ancestral. E assim, torna-se capaz de percorrer lugares que ainda não tinham sido mapeados. Como disse Jung, o processo de individuação é uma jornada contínua para as partes não familiares, desconhecidas e inexploradas da nossa psique. E, em condições favoráveis acessa potencialidades desconhecidas que servem para superar questões difíceis ou insolúveis em um determinado nível de consciência.
Entre povos indígenas americanos, conhecido como caminho vermelho, existe uma iniciação: dança do sol. Uma oferenda  ao Grande Espírito dos seus corpos e suas almas, onde o guerreiro oferta sua dor, seu sangue e suas preces. Dançar sem ingerir comida nem água por quatro dias é o teste do caráter e da coragem. Dançar ao redor da árvore da vida.
No final da cerimônia ele é perfurado no tecido sobre os músculos peitorais de cada lado do tórax com estacas fazendo pequenos cortes para que seu sangue alimente a mãe terra. As mulheres que passaram pelo parto, não precisam deste ritual do sangue porque elas já fizeram sua oferenda de dor e sangue a mãe terra e ao Grande Espirito!

A dilatação se completa… Abertura total da passagem… A piscina é o espaço de escolha, a água no suporte subliminar… Logo a necessidade de empurrar para baixo em direção a saída. O encontro com o Anel de fogo, o Círculo de fogo…o momento da coroação.  Mais uma força e irrompe a cabecinha. Os cuidados para sentir se existe circular de cordão, manobras de liberação dos ombros e zupt… O fruto do amor vem de um todo!
Retiro do ambiente aquático aquele serzinho feminino para a primeira respiração nos braços de sua mãe.
O tempo é suspenso, toda atenção concentrada na observação da vida que se fez presente, liberando as vias aéreas…aspirando…sentindo a pulsação dos vasos do cordão umbilical que ainda a ligam a mãe.
Uma explosão de alegria invade a sala de parto! Viva… Viva…viva!
A magia do mistério que origina a vida e o nascimento.
Seguro o cordão até receber o sinal da natureza que diz o tempo certo da separação. Cortar o laço… Tarefa que João, seu pai, realizou.
A piscina cumpriu sua função no segundo período do trabalho. Enquanto que a dequitação da placenta aconteceu fora dela, uns 40 minutos depois, encerrando o trabalho de parto.
Consuelo neste período ficou aconchegada nos braços do pai ao lado da mãe, os tres juntos em comunhão. Em paz! Encontro de almas. A pureza do sentimento!
O conforto que Maria precisava para deixar sair o orgão que nutriu e protegeu sua filha no percurso de vida intra-uterina. Além do pensamento… uma realidade sublime, repleta de luz amorosa e sagrada!
Retive na mente essa visão, tão clara como o sol do meio dia.
Um tempo para o encontro de mãe e filha na amamentação…aprender a nova forma de se nutrir…
Consuelo nasce com peso de 3380gramas, 47 cm de comprimento, com apagar 8 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto. Apresentando ao mundo sua força vital.

” A realidade única abrange tudo no seu emaranhado de experiências, e o que estamos tentando descobrir é o experimentador que está presente, independentemente da experiência que você possa estar tendo “
Deepak Chopra

Parto assistido por:
Adelise Noal – médica
Gisah michels – doula
Juliana Pena- doula

 

Relato de parto humanizado hospitalar da Simone / nascimento Maitê

“A Decisão”

a Mulher que decidiu
Mani festar a vida nova em sua trilha
navio terra Nave mãe
protetora cápsula casulo
nutrir dar forma doar o sangue
e tantomais
até a filha chegar ao cais
e dali pra diante dar a mão
e tantomais
até o dia de voar
como é de sua natureza
feito 1sonho mágico
carregado de verdade e luz nos poros
o mérito sem fim de doar pro mundo
alguém sem fim
sem esperança alguma
de retorno outro que o amor em si
amplificado ao infinito
(por Luís Nenung)

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Aos 31 anos gestei e esperei por um parto normal (PN). Meu menino, que hoje tem 9 anos, veio ao mundo por uma cesárea iatrogênica (quando o desfecho não desejável-no caso o parto cirúrgico-foi causado pela medicina e seus meios em si). Foi uma consequência da analgesia, que acabei pedindo quando estava com 8 cm de dilatação. Meu erro (e não culpa, hoje vejo assim), foi esperar o PN. PN não se espera. Se busca. Se conquista. Se batalha. É assim e pronto. Não adianta bater pé. Como não havia cultura de cesárea na família, pensei que não precisasse fazer este “dever de casa”. Que as coisas se auto-resolveriam. Saúde eu tinha de sobra. Mas era “idosa” aos 30 anos. E meu bebê tinha peso estimado de 4kg na semana 39 de gestação (praticamente uma baleia rsrs). E há 10 anos atrás não sabíamos nada de parto ativo, humanizado, doulas e métodos não farmacológicos para modulação da dor. E eu, apesar de ser médica, subestimei os riscos de ter efeitos colaterais de uma analgesia de parto. Meu trabalho de parto (TP) ia bem até os 6 cm, em casa. Ia bem até quando entrei no hospital, sentei em uma cadeira de rodas e entreguei o braço para um acesso venoso (pra quê???-até hoje me pergunto). Não bastasse isso, deixei que me levassem para o bloco cirúrgico(!), pois lá seria a minha “sala de parto”! Uma mesa cirúrgica estreita e fria de inox e a posição de litotomia seriam o palco do PN que não tive. Claro que não. Urrei por anestesia. Quem não urraria neste contexto? Urro de medo, dor, desconforto, estranheza. Urro contra a frieza e pressa deles. Eu estava há 7 boas horas em um TP bem normalzinho, mas a equipe estava era de bituca no MAP (monitor contínuo de bem-estar fetal x contrações/dispensável em um quadro de normalidade) que amarraram na minha barriga. De olhos no MAP, dando-me ordem de imobilidade para não causar interferência nas medições. Oi??? Quadro posto, como não clamar por anestesia???? Fiz. E imediatamente perdi o tônus da bomba uterina. Atonia total. E então a cesárea intra-parto por conta da discinesia uterina causada pela analgesia de parto. E com a cesárea uma frustração, um blues puerperal mais longo, lágrimas nas fotos, auto-piedade, auto-desvalorização e raiva. Superei? SIM, dia 21 de setembro de 2015, quando nasceu meu segundo filho! Aí embaixo vai o relato sobre minha busca e achado:

Após estes 9 anos, em outro Estado, em outra união, engravidei. Agora poderia ser diferente. Teria a chance de passar a limpo coisas internas mal resolvidas por conta de meu parto cirúrgico de anos atrás e que não melhoraram com o tempo, pois foi o próprio tempo que me trouxe mais informação e certeza de que o fracasso que vivenciei não foi meu. Não foi um fracasso pessoal. Foi do sistema! As opções que tive foram retrógradas, erradas. Eram má pratica médica há décadas!!!! Hoje eu tenho essa consciência, apesar do contexto brasileiro ser idêntico ao de 10 anos atrás. Mas já estava bem melhor para mim, eu já não estava sozinha. Já ecoavam os clamores em prol da humanização do nascimento e da medicina baseada em evidências na obstetrícia!!!

Mãos à obra então! Busquei a doula. Troquei minha GO às 28 semanas de gestação, quando ela “rodou” no teste das minhas perguntas ao dizer que não fazia parto sem anestesia. Que isso era coisa de índia (opa, prazer, índia Simone, da tribo só-tomo-remédio-se-eu-quiser-e-precisar-meu-corpo-minhas-regras). Disse que provavelmente cortaria meu períneo porque assim seria mais fácil suturar as bordas do que se deixasse lacerar de forma natural (mesmo que fosse uma laceração de graus 1 ou 2(!), e mesmo sendo isso formalmente contra-indicado às luzes da boa ciência (as costureiras de roupa sabem disso melhor que a gente, disse ela). Ah, também o hospital onde ela atende (“top one” em Porto Alegre, Moinhos de Vento, “obedece as regras da John Hopkins” e por isso não permite a entrada de doulas: mas fotógrafos de renome são bem vindos!!!). Dei no pé.

Fiz yoga. Fiz fisioterapia pélvica. Segui treino de musculação adaptada até às 34 semanas. Li. Li. Li. Fiz curso de humanização para casal. Doulei muito com minha doula. Massagem. Drenagem. Trabalho e direção até ultimo dia. E então aconteceu. Tudo o que planejei. Sem desvios. Colhi além. Peguei pra mim o que era meu e tava me esperando. Como mágica, parecendo ilusão.

Domingo à tarde, 20 de setembro, fui para a academia do prédio fazer um treininho com o marido. Tentei descansar às 17e30 mas levantei da cama às 18e30 me sentindo estranha. Cocô talvez? Coliquinha? Voltei a deitar com bolsa de água morna. Às 19e30 falei por whats com a doula Zezé que iria contar por uma hora estas coliquinhas/contrações. Não me deu muito crédito. Nem eu me dei. Afinal, não tive nenhum sinal antes! Fiz o pacote banho-cocô-contar: 18 contrações em uma hora… De 3 em 3 min por 40s. Zezé me pediu para tomar banho de novo, relaxar e curtir pois poderia ser TP falso ou pródromo mesmo…hum… Pacote de novo: banho-diarreia-vômito (sentada no vaso agarrada no balde de vômito…curtir? rsrsr). A partir dai peço que marido assuma o celular.

O “dream team” da humanização gaúcha estava em dois partos no hospital que eu tinha escolhido para dar à luz. Eu deveria ir para lá fazer avaliação e talvez voltasse para casa, pois meu desenrolar era meio atípico. Mal sabíamos que eu não só ficaria lá como também seria o primeiro nascimento dos 3 partos em andamento (3 comigo). Às 22e30 cheguei para avaliação. Quatro horas desde que as coliquinhas começaram e duas desde que apertaram em intensidade. Ah, antes de sair de casa perdi água clara com vérnix e parte do tampão na privada. Toque: bebe baixinho, colo finissimo 100% apagado e dois cm de dilatação. Mas teria jogo. E seria rápido. Foi o que disse Ricardo Herbert Jones.

E cumpriu-se a profecia do bruxo. Fiquei das 23h às 1h no chuveiro com a fada Zezé. Ela mais molhada que eu às vezes. Massagem. Óleo. Mantras da Kwan Yin minha deusa chinesa no celular da doula. Eu em forma de cavalo. De pé. Postura de mesa apoiando as mãos numa banqueta baixa. Joelhos esticados. Bola suíça entre as canelas. Não deu para sentar: tinha espinho (rsrsrs)! O espaço de tempo mais calmo era curto demais para que pudesse sentar. Rebolar também não deu. No máximo balancinho para frente e trás. E a menina dentro de mim estalando para sair. Ouvi isso. Uma “audição” interna. Uns “claques” por dentro.

Visualizava em minha mente água a escorrer pelo ralo em redemoinho no sentido horário e na máxima velocidade. A pia era minha pelve. Lá na rua, tempestade. Eu e Zezé no banheiro fumacento com as luzes apagadas debaixo do chuveiro. Entre um e outro abrir e fechar de olhos, neste meu “nirvana” nervoso, espiava pela janela de vidro os relâmpagos. Descargas elétricas varrendo o céu lá fora e dentro de mim uma enxurrada de força animal lavando minha alma com uma cáustica água benta. Não ardia. Era um amor violento lustrando meus espaços, lubrificando cada fibra muscular que eu tinha, acenando com bandeiras de chegada, bradando aos ventos que EU PODIA! QUE EU SEMPRE PUDE! Era a natureza louca tirando onda com seus poderes, regozijando-se ao extrair minha filha de dentro de mim. Porque era hora de respirar. Dentre tantas visualizações que tive, uma era que minhas extremidades eram patas de elefante que avançavam sobre folhas secas que ficavam para trás, sem vida. Folhas de medo, folhas sem a filha fora do útero, folhas de pedir anestesia, folhas de achar que não vai dar conta. Meus passos de elefante ficavam cada vez mais rápidos a cada chacoalhada que eu levava.

Jones monitorou com sonar portátil de forma intermitente o bem-estar da minha filha. Uma beleza. Quando achei que ia ser desossada pelo cóccix lembrei que isso poderia ser a “transição”- olha a intelectualização perigosa ai gente! Mas calei. E Jones me chamou para toque do lado de fora do chuveiro. O obstetra e a doula se falam telepaticamente. Ela falou em puxos. Eu pedi cocô. Ele disse “cocô nada, o nenê ta nascendo já já, escolhe tua posição que agora depende só de ti a hora da saída”. Que/???. De dois para dez cm em duas horas e meia? Exato. Então abracei a partolândia. Ensaiei um “de quatro” sobre lençóis no chão. Um cócoras agarrada numa barra da parede. Um Sim’s na cama. E o bruxo me sugere acocar na cama segurando uma barra circular que ele adapta ali. E a fada me põe acocorada ali. Me pede que segure a barra esticando braços e fletindo o pescoço na hora do puxo fisiológico. Não coordeno. O reflexo expulsivo vem junto com uma incontrolável vontade de estender costas e pescoço pra trás, como se tivesse andando de balanço.

Então marido e fada entram em cena para parir junto comigo, efetivamente. Zezé põe o marido a me sustentar de um lado, garantindo meu tronco perto da barra. E ela me ampara do outro lado, garantindo a flexão do pescoço. E assim foi. Acocorada com apoio bilateral físico e emocional, sob a regência do maestro Jones, tive um expulsivo de três ou quatro forças, com um círculo de fogo ameno e curto. Maitê veio serena. Com 3615g e 52cm. Tive uma laceração de pele lateral grau zero-um que teve 1 ponto de sutura opcional.

Tudo que disser além daqui será pequeno e pouco para traduzir a grandiosidade dos momentos que vivi e que já são eternos para nós. Teria que viver mil vezes tudo de novo para talvez conseguir colocar na linguagem das palavras o que ocorreu conosco. A vida, os seres humanos iluminados que me rodeiam, os deuses, a natureza, tudo foi muito a favor desta vivência “sobre-humana” que tive.

Enfim, no século das aberrações obstétricas, das taxas imorais de cesáreas e da tecnocracia de um sistema que quer seguir vendado à informação de relevância científica mundial, curei minhas feridas íntimas aquém do divã, curei na raça, carimbando minha sexualidade, meu gênero feminino, expondo o poder que sempre tive. E que todas têm. Mas a porta abre só pelo lado de dentro. Só a gente pode dar o passo inicial para isso hoje em dia, pois fizeram-nos desaprender a “andar de bicicleta”. Fizeram-nos crer que a maternidade como um todo é complemento, fru-fru, e não ancestralidade, não força vital.

Salve Doula Zezé.

Salve Dra. Ana Cláudia Esteves Codesso.

Salve Dr. Ricardo Herbert Jones.

Salve Enf. Obst. Zeza Jones.

Salve Ed. Fís. Andréia Aires.

Salve Fisioterapeuta Pélvica Ana Cristina Gehring.

Salve Inst. de Yoga Shana Gomes, por tudo que foram, são e serão em minha vida.

Simone Terracciano, Porto Alegre, 24 de setembro de 2015.

 

RELATO DE UM PARTO HOSPITALAR HUMANIZADO

Tenho três filhos. Todos nasceram de parto vaginal. Um parto normal. Dois partos naturais.
Vou narrar aqui o meu terceiro parto.
Era 2 de janeiro de 1991, na cidade de Porto Alegre.
Acordei cedo sentindo contrações diferentes. Eu sabia que era o aviso de que chegara o dia do parto. Eram contrações muito precisas e aconteciam numa frequência constante.
Avisei meu médico. Ele já tinha me acompanhado no segundo parto. Acreditou no que eu estava dizendo: que esse era o dia. Eu, meu marido e ele nos encontramos à tarde.  Já tínhamos combinado que eu ficaria em casa até a hora que eu achasse que deveria ir para o hospital.
Assim, fiquei na minha casa o dia todo com minha família. O calor era intenso…  No final da tarde, fui caminhar pelas ruas calmas do bairro Menino Deus, onde morava. Eu e meu marido caminhamos pela Av. Ganzo, repleta de árvores e flores. Naquela época essa rua era quase sem movimento de carros.
Em algum momento, à noite, avisei o médico e fomos para o hospital.
Meu marido ficou o tempo todo comigo.
O médico me avisou que ficaria repousando numa sala enquanto eu ficava à vontade. Eu podia fazer o que quisesse. Podia deitar, podia caminhar… Às vezes ele vinha espiar e ver como eu estava. Eu só sorria e dizia que estava tudo bem.  Fiquei caminhando, de braço com meu marido. Quando as contrações vinham, eu me apoiava nele e me sentia segura. Podia abraçá-lo. Podia ser amparada e acariciada. Eu estava confiante. Não tinha enfermeiras, não tinha equipe médica. Ninguém.
Ninguém para dizer que eu não podia fazer “fiasco”, que não podia gemer… Ninguém pra me dizer que eu tinha que ficar deitada, ninguém pra me dar “sorinho” (ocitocina sintética), ninguém pra fazer enema, nem tricotomia pubiana.  Ninguém para dizer que se não parisse em x minutos, teria que fazer uma cesariana. Ninguém para gritar: “Força, mãe! Empurra! Tu não tá ajudando!”
Não prenderam meus cabelos enormes, não mandaram eu tirar brincos, pulseiras, nem a corrente com a ágata que eu tinha pendurada no pescoço.
O mundo era eu, meu marido e minha filha que estava nascendo. E o médico, que eu sentia como um amigo, que estava na sala ao lado respeitando o meu momento.
Quando eu senti aquela força irresistível, mágica e selvagem brotando dentro de mim, aquela força que eu já conhecia, e que era a vontade de me agachar e expelir, avisei o médico e fomos encaminhados para uma sala que estava pronta me esperando.
Uma sala na penumbra. Muitos panos azuis no chão faziam um ninho que parecia um céu.
Meu marido sentou numa escada estrategicamente colocada para me apoiar pelas costas e eu me acocorei no ninho azul.

O médico sorria e falava algumas palavras de apoio, que não consigo lembrar. Só lembro quando ele disse que na próxima contração minha filha nasceria. E assim foi.
O médico aparou, enquanto ela deslizava no céu azul feito de lençóis.
Sem peridural, sem episiotomia, sem fórceps.
Eu a peguei. Eu a coloquei no meu peito. Do lado esquerdo, instintivamente, para que ela ouvisse meu coração, como ela estava acostumada a ouvir quando estava dentro de mim.
Nessa hora o tempo não existe. Duas almas unidas num imenso amor.
De repente o médico mostrou como o cordão tinha parado de pulsar. E me ofereceu uma tesoura para que eu mesma cortasse o cordão. Eu peguei a tesoura e eu cortei o cordão, com a certeza de que ele não pulsava mais. Ficamos assim, juntinhas.
Esse médico tinha uma parceria com um  pediatra que o acompanhava e ambos faziam uma bela dupla, respeitando esse momento tão sagrado. Nada de colírios, nada de aspirações, nada de intervenções…
Estava com a consciência alterada, o que acontece naturalmente quando não se interfere no processo natural, e não lembro muito das coisas concretas, mas lembro que num momento o pai pegou a filha e saiu dançando e cantando pela sala. O médico sorria. Minha alma estava em Paz!!!
Ela nasceu passando da 1h do dia 3. Na mesma manhã fomos para casa.
Minha gratidão a esse ser que já não está mais entre nós.  Médico carismático, corajoso e amoroso.
Mas sabemos que as histórias de partos hospitalares estão longe de se parecerem com a narrativa acima.
Neste momento estamos vulneráveis e precisamos da assistência de alguém em quem confiamos e sabemos que vai agir quando necessário, de acordo com a real necessidade e de acordo com o desejo da mulher.
Alguém que saiba se posicionar quando necessário para permitir que o parto transcorra de forma respeitosa e amorosa.
O que vemos são Intervenções desnecessárias e prejudiciais, humilhações, desrespeito, maus tratos…
Eu penso que hospital não deveria ser lugar de nascimento! Hospital é lugar para tratar de doentes.
Precisamos de Casas de Parto!
Casas de Parto que possam oferecer o aconchego, conforto e privacidade necessários para um parto natural e ao mesmo tempo oferecer todos os recursos médicos no caso de necessidade.
E se a mulher optar pelo hospital, que assim seja! Mas que seja um parto humanizado, com respeito à mulher, ao pai, ao bebê, à VIDA!
Angelica Pio

 

ANAHÍ – Linda Flor

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Por Adelise Noal (médica-parteira)

“A adoração da lua é a adoração dos poderes criativos e fecundos da natureza e da sabedoria que é inerente ao instinto e à harmonia com a lei natural.” M. Esther Harding
Nesta introdução lembro do trabalho médico. que realizo há quase 30 anos, cuidando das mulheres e seus desejos de engravidar até chegar ao estado de gestante. Na sequencia, a preparação da gravidez até seu ponto principal que é o trabalho de parto. Muitas destas mulheres tive a alegria de poder participar de seus partos, visto que , como médica podia estar presente no ambiente hospitalar.

Esta atividade tomou um novo rumo desde que ingressei na classe das parteiras do Santo Daime, com a posterior benção da madrinha Cristina, uma das mais respeitadas parteiras da comunidade do Céu do Mapiá, no estado do Amazonas, quando fui até Curitiba entrevistá-la sobre seu ofício de parteira, em 2004.
Nem sempre publico meus relatos, somente aqueles que considero terem um desenvolvimento que pode servir de guia para outras mulheres se colorarem internamente no caminho de entrega ao fluxo natural, em sua experiência do partejar. Confiar com coragem, pois o nascimento é a vivência da encarnação de um poderoso arquétipo, nossa identidade humana.
Parto em casa
Nascer como morrer é um processo, temos que percorrer a linha do tempo e observar seus sinais. Uma rosa, um beija-flor, uma oração, detalhes… Olhar atento nos desdobramentos, percurso circular da roda da vida.
Shana, Sassá, nascimento de Anahí.
Shana, doula e professora de Ioga para gestantes, lutou pelo direito de ter seu bebê em casa. Durante a gestação fez vacinação para prevenir herpes vaginal e a partir de 36 semanas iniciou uso de medicamento profilático anti viral, pois a presença do vírus impediria o parto vaginal.
Ponto inicial… 39 semanas de gestação, 23 de setembro, domingo de primavera em Porto Alegre no hemisferio sul.
Primeiro período do trabalho de parto.
A dor é um estudo fino. Dor que rasga as entranhas… todas sabemos que doe, mas a experiência imediata é ímpar, só se descobre ao vivenciá-la, representa o primeiro grande desafio. Pequenos intervalos contados em minutos que vão ganhando intensidade e frequência, tendo que suportá-la por horas, enquanto avança a dilatação.
Grande koan do primeiro período do trabalho de parto: a dor.
Hora de acessar a ancestralidade feminina, enfrentar a dor, ir além dela. Questões vindas de estruturas moleculares da matéria corpórea, emergem sob a forma de dor, vem em círculos descendentes enquanto o útero se contrae e se dilata no desenrolar da expressão instintiva. A mulher precisa entender o que está acontecendo e se colocar a cada momento na posição correta de forma espontanea. Um alinhamento caleidoscópico. Dores, cores, sons se misturam em sensações. A dor precisa ser compreendida e aceita, assim é possível encontrar maneiras de suportá-la e superá-la. Como no mito de Ísis, deusa lunar, a mulher entra no barco da deusa e viaja com ela pelas enchentes, nas águas torrenciais até a região do sol. Deste modo, sentir o calor de suas próprias emoções. A intensidade das emoções que queimam o corpo, precisam ser aprendidas, testando seus limites.
No livro Os Mistérios da Mulher de M. Esther Harding, ela expõe:
” Para achar os limites ou fronteiras da própria natureza e para chegar a saber os princípios impessoais que realmente governam nas profundezas da psique, é necessário que se explorem as próprias capacidades ao máximo. É aqui que a iniciação no templo tem seu lugar, pois, no serviço à deusa, no domínio de Eros, a experiência emocional não é obstruída pelas restriçoes. de qualquer ordem. No templo da deusa o ser humano, homem ou mulher, está defrontado consigo mesmo, seu próprio instinto, sua própria emoção. Precisa experimentar-se ao máximo.”

É preciso transpor os mecanismos da matéria e elevar a mente a uma instância espiritual. A via instintiva e a via arquetípica se interpenetram na progressão do tempo. Jung compara o arquétipo manifestado, encarnado, com a passagem da luz através de um prisma que vai decompô-la em cores. No seu aspecto ultra violeta corresponde ao arquétipo, na sua expressão espiritual e em sua porção infravermelha o instinto, sua expressão material. Os dois polos compõem a frequência luminosa.
A primeira parte do trabalho de parto é a entrada da mulher no prisma de luz. Quando ela chega no segundo período do trabalho, a mente racional já se desfez e o que existe é uma fêmea mamífera, parindo seu filhote. A vivência arquetípica está no máximo da intensidade. Aqui se entra em um novo estudo, a passagem pelas espinhas ilíacas, arcabouço ósseo em forma de caverna, a porta estreita que mãe e bebê têm que ultrapassar. A chave que abre esta porta é um segredo profundo. “… este segredo profundo, está em toda humanidade…” É a flor das águas, como diz o hino de mestre Irineu. Estrela d água!
Depois que a porta abre, mais um desafio; a passagem final pelo assoalho muscular perineal. É preciso soltar, relaxar em meio a dor, em meio a tudo, sem racionalidade alguma. Ser guiada pelas mãos da própria natureza intrínseca.
Assim o último portal se descortina no coroamento de todo o processo, surge a cabeça do novo ser. Vista do lado de fora, isto é, no períneo, como uma coroa. Neste parto ela esteve presente por mais de 5 contrações expulsivas. Auxilío na saída, manobras obstétricas…
A posição encontrada por Shana foi na beirada de sua cama, com os pés apoiados nas minhas pernas, o pai dando o apoio nas suas costas e eu sentada em sua frente. Anahí nasce no ar, minhas mãos e braços foram sua primeira sustentação nesta vida. Desce junto com o líquido amniótico que jorra encima de minhas pernas e pés. As águas profundas que emergem com o novo ser e derramam suas bençãos sobre nós.
Hora do nascimento 1h e17min, apgar 8 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto.
Peso 3000 gramas e comprimento 50 cm.
Shana e Sassá não sabiam o sexo do bebê, o que trouxe ao instante um acréscimo de encantamento com a descoberta: é uma menina !!! Como nos tempos antigos quando não se podia saber através de exames o sexo do bebê. Mais um segredo que se revela e o estado alterado de consciência que se fez presente no trabalho é transformado em experiência de êstase. Êstase psicofísicoespiritual.
O ser em completude. Mãe e filha! Pai e filha! Mãe, pai e filha!
Conhecendo… reconhecendo… Momento de puro amor… aprendendo a mamar… aprendendo a ser mãe… aprendendo a ser pai… aprendizado de toda uma vida, de todas as nossas vidas!

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Terceiro periodo do parto, saída da placenta. O período expulsivo foi longo, bem como para a placenta: 4 horas de espera paciente segurando o cordão. Calor local, massagem, amamentação até que, tudo pronto. Na observação do períneo foi encontrada uma pequena laceração sem necessitade de sutura. Assim se encerraram os procedimentos que envolveram este parto, ocorreu de forma totalmente natural. Intervenções, somente as que geraram maior estado de abertura ao processo fisiológico, como: massagens, banhos quentes, compressas mornas, acupuntura, liberdade de encontrar posições adequadas à gestante para suportar melhor a dor e auxiliar nas contrações. Conforme os desejos de Shana e Sassá.
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Tempo de duraçao do trabalho de parto: 12 horas, acrescido de contrações dolorosas esparsas nas 24 horas que antecederam ao parto. Tudo em paz e harmonia ao nascer do sol do dia 24 de setembro de 2012. Kin 119, tormenta lunar azul, da onda encantada do espelho branco.
Mais um serzinho que vem ao mundo para atingir uma nova dimensão espiritual. Viva Anahí, bela flor do céu!
“Yin é como uma imagem de madrepérola escondida no recôndito mais secreto da casa” C.G. Jung
obs: participaram deste parto – Shana e Sassá, Adelise Noal (médica-parteira) e Claudete Borges(auxiliar de enfermagem)

(Acima, Anahí com 3 meses.)