Nasce Parto Alegre em São Leopoldo!

Nesta segunda-feira, 11 de abril, tivemos nosso primeiro encontro da Parto Alegre em São Leopoldo, com o tema “Você sabe o que é Parto Humanizado?”.  :)

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Conversamos sobre o que é parto humanizado, assuntos como: o que é necessário pra viver um parto assim, quem é a equipe que dá assistência, qual a diferença entre parto normal e parto humanizado e muito mais! O encontro foi recheado com relatos de quem já viveu a experiência de um parto humanizado. Nossa convidada Mônica Carvalho contou o parto humanizado hospitalar do seu filho Bento e Daniela Pla contou seus dois partos, o parto hospitalar humanizado de sua filha Nathaly e o parto humanizado domiciliar de seu filho Maiquel.

Você pode assistir aqui aos vídeos dos partos da Daniela Pla e papai Américo.


Agradecemos imensamente pela disponibilidade e abertura de compartilharem suas histórias de parto tão singulares, tão íntimas, tão belas… e contribuírem para bem-dizermos o parto e nascimento!

Enquanto conversávamos, num clima muito descontraído, ao centro da roda tínhamos as delícias do Zeca Integral e o aconchegante chá de maçã da Vis Vitalis, nossos queridos parceiros. Porque precisamos de bons alimentos para corpo e alma, não é mesmo!?

Ao Zen Vale do Sinos, agradecemos por nos acolherem com tanto carinho em seu espaço físico.

Queremos agradecer também a presença de todas(os) e cada um(a) no Encontro! São vocês que fazem o encontro possível e um momento de aprendizado mútuo. Esperamos que tenham gostado! Para nós da Equipe foi um prazer e uma alegria estarmos juntos(as)!

Nosso próximo encontro de Porto Alegre e São Leopoldo terá como tema: ENTENDENDO A DOR NO PARTO.
Clica aqui para maiores informações: POA e SL

Abraço carinhoso da Equipe Parto Alegre e até nosso próximo encontro!

<3

Encontro Parto Alegre 2016!

Queridas e queridos partoalegrenses!

Dia 23 de março tem o primeiro encontro de gestantes, casais gestantes, tentantes e demais interessadas no tema. O tema deste encontro será bem especial porque fala de parto e superação especialmente quando o parto vem depois de uma cesárea. A gente já sabe das dificuldades de parir-se no Brasil e quando se trata de VBAC (vaginal birth after cesarean section),  as desafios são ainda maiores pela falta de apoio social, familiar e de profissionais que aceitem assistir um VBAC.

Por isso,  vamos trazer mulheres que passaram por esta experiência para relatar como conseguiram realizar esse sonho. Venham conhecer essas histórias e se inspirar.

Estamos em novo local, agora no espaço Corpo Alegre, confere na imagem de divulgação o endereço e apareça!

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Nascimento de Davi – parto em casa 

Por Adelise Noal.

Auxiliar uma mulher em trabalho de parto envolve empatia, intuição e inspiração. É uma arte. A arte de partejar! Um Parto realizado com muita fé, carinho, atenção, amor e orações. Respeito pelo próprio ritmo biológico do nascimento, com o mínimo de intervenção possível é uma síntese do que pode ser um parto humanizado.

Traz segurança, porque a mulher se sente acolhida.
É satisfatório, pois tem todos os elementos que ela precisa para fazer sua travessia.
É empoderador, quer dizer, representa um rito de passagem.
Uma oportunidade de acessar um conhecimento sobre si mesma e ampliar sua consciência.
O nascimento de um novo valor pessoal.

Assim foi este longo trabalho de parto, em torno de 12 horas de pródromos, seguidos de 28 horas de trabalho efetivo. Gestação de 39 semanas. Davi nasceu às 19 h e 34 min, do dia 23 de novembro de 2015. Peso de 3270 gramas, comprimento de 46 cm. Apgar 9 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto. No calendário maia, último dia da onda encantada 18, do vento branco.

Kin – Mago cósmico branco.
Persevero com o fim de encantar, transcendendo a receptividade,
selo a saída da intemporalidade, com o tom cósmico da presença.
Eu sou guiado pelo poder do infinito.

Sabe-se que o estado instintivo que permite a mulher ter um trabalho de parto espontâneo está relacionado com um equilíbrio hormonal especial. A liberação de ocitocina, hormônio secretado pela hipófise, age no desencadear das contrações uterinas e na manutenção do trabalho. Acontece também a liberação de endorfinas em resposta a dor. O corpo se defende de forma natural. Quanto mais longo e difícil o trabalho de parto, maiores serão os níveis de endorfinas. Este parto veio banhado de endorfinas e na luz do santo daime!!! Muitas passagens e muitas paisagens transcorreram… Pouco tempo antes de seu nascimento, seus pais encontraram um sítio próximo da cidade, e prepararam o lugar para recebê-lo. Um local para o fogo sagrado, delimitado por um círculo de pedras rolantes, cercado de grandes árvores. Ali, o ponto de convergência… A reunião de todos que participaram da jornada. Aqui também estão incluídos os bichinhos: Fiona, os gatinhos e os filhotes Sol e Lua.

As invocações, os cânticos, as meditações, a transmutação da dor. ” Chamo estrela, a floresta e o mar, curandeiros, caboclos da corrente de Ogum beira mar”. Na década de 70, Frederic Leboyer lanca o livro: Nascimento sem Violência, No Brasil, se chamou Nascer Sorrindo. Primeiro médico a expressar o que as mulheres já sabiam instintivamente sobre seus bebês. Os cuidados com o recém nascido. Este livro tornou-se referência para os trabalhos iniciais de Michel Odent na transformação do ambiente no atendimento ao trabalho de parto. Na maternidade onde trabalhava, Michel Odent criou a chamada Sale Sauvage, sala selvagem, visando a privacidade, o conforto e a liberdade de movimentos, para a mulher sentir-se física e emocionalmente livre para agir como desejasse.

Espontaneamente a mulher busca posições mais adequadas, no alívio da dor e que são mais eficientes do ponto de vista fisiológico. Com o ambiente certo, pode atingir um nível de resposta mais profundo dentro dela mesma, transcendendo sua individualidade, educação ou cultura, por isso o nome sala selvagem ou primitiva. Se deixar levar pela via instintiva do nascimento, fazer esta viagem interna…

Sabrina e Cristiano estabeleceram sua sala selvagem no meio da natureza, buscando o conforto do fogo, a força das árvores, do sol do entardecer, da lua crescente, das estrelas, do sol do amanhecer e novamente do sol do entardecer. Acompanhando a lenta progressão do primeiro período do trabalho, até a dilatação completa e um lento desenrolar do período expulsivo. Preciso foi, muito suporte de cuidados e atenção plena a cada passo. Muitas orações! Caminhar com a consciência corporal da fisiologia do parto, o benefício de andar em alinhamento com a pressão atmosférica, respirar no ritmo correto, banhos de chuveiro, testar inúmeras posições, relaxar na piscina e utilizar como recurso principal a banqueta de parto, no alívio da dor.

O limite extendido ao extremo até a desistência, quando então, a natureza soberana em seu comando se manifestou firme, vertical e Davi coroou. ” Salve, Salve poder tão supremo e general Juramidam, Rei Oxóssi e seus curandeiros que vem curar nessa sessão…” A intensidade emocional do instante transbordou em lágrimas se derramando no ambiente. Nasceu Davi, na afirmação do sol, lua, estrela, a terra, o vento e o mar! “Elevei meu pensamento, a deus lá na altura, para eu reconhecer, o brilho da formosura o brilho da formosura é uma luz de alento que limpa meu coração e vigora meu pensamento. Aqui eu vou cantando que a minha lida é esta, viva o rei juramidam e a rainha da floresta.” Mais uns minutos para a dequitação da placenta na conclusão do trabalho de parto. Davi no acalanto materno iniciando a amamentação. Um estado de paz e alegria é profundamente sentido!

” Desde tempos sem princípio, sempre fomos absolutamente puros e perfeitos. De acordo com a visão budista, nossa mente original é como o céu.. Não tem um centro e não tem limite. A mente é infinitamente vasta. É o que nos interconecta com todos os seres – é a nossa verdadeira natureza. Infelizmente, ela se tornou obscurecida por nuvens, e nós nos identificamos com essas nuvens em vez de nos identificarmos com o eterno céu azul profundo. E, por nos identificarmos com as nuvens, temos idéias muito limitadas sobre quem realmente somos. Se entendêssemos que desde o início sempre fomos perfeitos, mas que de alguma forma a confusão surgiu e encobriu a nossa verdadeira natureza, não haveria nenhuma questão sobre a nossa capacidade. O potencial para a iluminação está sempre presente, para cada um de nós, se pudermos reconhecé-lo.”
Jetsunma Tenzin Palmo

Parto assistido por: Adelise Noal – médica
Claudete Borges – enfermeira
Juliana Pena – doula

Roda de Conversa sobre Pós Parto & Puerpério

Próximo encontro de Pós Parto da Parto Alegre será na Redenção! Aberto não só a mães & bebês puérperas, como a toda família, gestantes e demais pessoas interessadas em partilhar vivências sobre esse período tão intenso da maternidade/paternidade e que falamos tão pouco.
Traga uma canga, um lanchinho pra partilhar e vem pra roda! Afinal, como já diria Vinicius de Morais “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”

Vem pra Roda! Esperamos vocês! :D ♥

“Nenhuma mulher deveria passar os dias sozinha, com uma criança nos braços. A maternidade é fácil quando estamos acompanhadas. Não julgadas, nem criticadas, nem aconselhadas. Simplesmente junto de outras pessoas, e na medida do possível, junto de outras mulheres que estejam experimentando o mesmo momento vital. Quando as mulheres estão trocando conversas, brincadeiras, choros ou lembranças com outras mães, resulta muito mais leve permanecer com nossos filhos” Laura Gutman

ENCONTRO GRATUITO

21.11 Encontro de Pós Parto

Relato de parto humanizado hospitalar da Simone / nascimento Maitê

“A Decisão”
a Mulher que decidiu
Mani festar a vida nova em sua trilha
navio terra Nave mãe
protetora cápsula casulo
nutrir dar forma doar o sangue
e tantomais
até a filha chegar ao cais
e dali pra diante dar a mão
e tantomais
até o dia de voar
como é de sua natureza
feito 1sonho mágico
carregado de verdade e luz nos poros
o mérito sem fim de doar pro mundo
alguém sem fim
sem esperança alguma
de retorno outro que o amor em si
amplificado ao infinito
(por Luís Nenung)

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Aos 31 anos gestei e esperei por um parto normal (PN). Meu menino, que hoje tem 9 anos, veio ao mundo por uma cesárea iatrogênica (quando o desfecho não desejável-no caso o parto cirúrgico-foi causado pela medicina e seus meios em si). Foi uma consequência da analgesia, que acabei pedindo quando estava com 8 cm de dilatação. Meu erro (e não culpa, hoje vejo assim), foi esperar o PN. PN não se espera. Se busca. Se conquista. Se batalha. É assim e pronto. Não adianta bater pé. Como não havia cultura de cesárea na família, pensei que não precisasse fazer este “dever de casa”. Que as coisas se auto-resolveriam. Saúde eu tinha de sobra. Mas era “idosa” aos 30 anos. E meu bebê tinha peso estimado de 4kg na semana 39 de gestação (praticamente uma baleia rsrs). E há 10 anos atrás não sabíamos nada de parto ativo, humanizado, doulas e métodos não farmacológicos para modulação da dor. E eu, apesar de ser médica, subestimei os riscos de ter efeitos colaterais de uma analgesia de parto. Meu trabalho de parto (TP) ia bem até os 6 cm, em casa. Ia bem até quando entrei no hospital, sentei em uma cadeira de rodas e entreguei o braço para um acesso venoso (pra quê???-até hoje me pergunto). Não bastasse isso, deixei que me levassem para o bloco cirúrgico(!), pois lá seria a minha “sala de parto”! Uma mesa cirúrgica estreita e fria de inox e a posição de litotomia seriam o palco do PN que não tive. Claro que não. Urrei por anestesia. Quem não urraria neste contexto? Urro de medo, dor, desconforto, estranheza. Urro contra a frieza e pressa deles. Eu estava há 7 boas horas em um TP bem normalzinho, mas a equipe estava era de bituca no MAP (monitor contínuo de bem-estar fetal x contrações/dispensável em um quadro de normalidade) que amarraram na minha barriga. De olhos no MAP, dando-me ordem de imobilidade para não causar interferência nas medições. Oi??? Quadro posto, como não clamar por anestesia???? Fiz. E imediatamente perdi o tônus da bomba uterina. Atonia total. E então a cesárea intra-parto por conta da discinesia uterina causada pela analgesia de parto. E com a cesárea uma frustração, um blues puerperal mais longo, lágrimas nas fotos, auto-piedade, auto-desvalorização e raiva. Superei? SIM, dia 21 de setembro de 2015, quando nasceu meu segundo filho! Aí embaixo vai o relato sobre minha busca e achado:

Após estes 9 anos, em outro Estado, em outra união, engravidei. Agora poderia ser diferente. Teria a chance de passar a limpo coisas internas mal resolvidas por conta de meu parto cirúrgico de anos atrás e que não melhoraram com o tempo, pois foi o próprio tempo que me trouxe mais informação e certeza de que o fracasso que vivenciei não foi meu. Não foi um fracasso pessoal. Foi do sistema! As opções que tive foram retrógradas, erradas. Eram má pratica médica há décadas!!!! Hoje eu tenho essa consciência, apesar do contexto brasileiro ser idêntico ao de 10 anos atrás. Mas já estava bem melhor para mim, eu já não estava sozinha. Já ecoavam os clamores em prol da humanização do nascimento e da medicina baseada em evidências na obstetrícia!!!

Mãos à obra então! Busquei a doula. Troquei minha GO às 28 semanas de gestação, quando ela “rodou” no teste das minhas perguntas ao dizer que não fazia parto sem anestesia. Que isso era coisa de índia (opa, prazer, índia Simone, da tribo só-tomo-remédio-se-eu-quiser-e-precisar-meu-corpo-minhas-regras). Disse que provavelmente cortaria meu períneo porque assim seria mais fácil suturar as bordas do que se deixasse lacerar de forma natural (mesmo que fosse uma laceração de graus 1 ou 2(!), e mesmo sendo isso formalmente contra-indicado às luzes da boa ciência (as costureiras de roupa sabem disso melhor que a gente, disse ela). Ah, também o hospital onde ela atende (“top one” em Porto Alegre, Moinhos de Vento, “obedece as regras da John Hopkins” e por isso não permite a entrada de doulas: mas fotógrafos de renome são bem vindos!!!). Dei no pé.

Fiz yoga. Fiz fisioterapia pélvica. Segui treino de musculação adaptada até às 34 semanas. Li. Li. Li. Fiz curso de humanização para casal. Doulei muito com minha doula. Massagem. Drenagem. Trabalho e direção até ultimo dia. E então aconteceu. Tudo o que planejei. Sem desvios. Colhi além. Peguei pra mim o que era meu e tava me esperando. Como mágica, parecendo ilusão.

Domingo à tarde, 20 de setembro, fui para a academia do prédio fazer um treininho com o marido. Tentei descansar às 17e30 mas levantei da cama às 18e30 me sentindo estranha. Cocô talvez? Coliquinha? Voltei a deitar com bolsa de água morna. Às 19e30 falei por whats com a doula Zezé que iria contar por uma hora estas coliquinhas/contrações. Não me deu muito crédito. Nem eu me dei. Afinal, não tive nenhum sinal antes! Fiz o pacote banho-cocô-contar: 18 contrações em uma hora… De 3 em 3 min por 40s. Zezé me pediu para tomar banho de novo, relaxar e curtir pois poderia ser TP falso ou pródromo mesmo…hum… Pacote de novo: banho-diarreia-vômito (sentada no vaso agarrada no balde de vômito…curtir? rsrsr). A partir dai peço que marido assuma o celular.

O “dream team” da humanização gaúcha estava em dois partos no hospital que eu tinha escolhido para dar à luz. Eu deveria ir para lá fazer avaliação e talvez voltasse para casa, pois meu desenrolar era meio atípico. Mal sabíamos que eu não só ficaria lá como também seria o primeiro nascimento dos 3 partos em andamento (3 comigo). Às 22e30 cheguei para avaliação. Quatro horas desde que as coliquinhas começaram e duas desde que apertaram em intensidade. Ah, antes de sair de casa perdi água clara com vérnix e parte do tampão na privada. Toque: bebe baixinho, colo finissimo 100% apagado e dois cm de dilatação. Mas teria jogo. E seria rápido. Foi o que disse Ricardo Herbert Jones.

E cumpriu-se a profecia do bruxo. Fiquei das 23h às 1h no chuveiro com a fada Zezé. Ela mais molhada que eu às vezes. Massagem. Óleo. Mantras da Kwan Yin minha deusa chinesa no celular da doula. Eu em forma de cavalo. De pé. Postura de mesa apoiando as mãos numa banqueta baixa. Joelhos esticados. Bola suíça entre as canelas. Não deu para sentar: tinha espinho (rsrsrs)! O espaço de tempo mais calmo era curto demais para que pudesse sentar. Rebolar também não deu. No máximo balancinho para frente e trás. E a menina dentro de mim estalando para sair. Ouvi isso. Uma “audição” interna. Uns “claques” por dentro.

Visualizava em minha mente água a escorrer pelo ralo em redemoinho no sentido horário e na máxima velocidade. A pia era minha pelve. Lá na rua, tempestade. Eu e Zezé no banheiro fumacento com as luzes apagadas debaixo do chuveiro. Entre um e outro abrir e fechar de olhos, neste meu “nirvana” nervoso, espiava pela janela de vidro os relâmpagos. Descargas elétricas varrendo o céu lá fora e dentro de mim uma enxurrada de força animal lavando minha alma com uma cáustica água benta. Não ardia. Era um amor violento lustrando meus espaços, lubrificando cada fibra muscular que eu tinha, acenando com bandeiras de chegada, bradando aos ventos que EU PODIA! QUE EU SEMPRE PUDE! Era a natureza louca tirando onda com seus poderes, regozijando-se ao extrair minha filha de dentro de mim. Porque era hora de respirar. Dentre tantas visualizações que tive, uma era que minhas extremidades eram patas de elefante que avançavam sobre folhas secas que ficavam para trás, sem vida. Folhas de medo, folhas sem a filha fora do útero, folhas de pedir anestesia, folhas de achar que não vai dar conta. Meus passos de elefante ficavam cada vez mais rápidos a cada chacoalhada que eu levava.

Jones monitorou com sonar portátil de forma intermitente o bem-estar da minha filha. Uma beleza. Quando achei que ia ser desossada pelo cóccix lembrei que isso poderia ser a “transição”- olha a intelectualização perigosa ai gente! Mas calei. E Jones me chamou para toque do lado de fora do chuveiro. O obstetra e a doula se falam telepaticamente. Ela falou em puxos. Eu pedi cocô. Ele disse “cocô nada, o nenê ta nascendo já já, escolhe tua posição que agora depende só de ti a hora da saída”. Que/???. De dois para dez cm em duas horas e meia? Exato. Então abracei a partolândia. Ensaiei um “de quatro” sobre lençóis no chão. Um cócoras agarrada numa barra da parede. Um Sim’s na cama. E o bruxo me sugere acocar na cama segurando uma barra circular que ele adapta ali. E a fada me põe acocorada ali. Me pede que segure a barra esticando braços e fletindo o pescoço na hora do puxo fisiológico. Não coordeno. O reflexo expulsivo vem junto com uma incontrolável vontade de estender costas e pescoço pra trás, como se tivesse andando de balanço.

Então marido e fada entram em cena para parir junto comigo, efetivamente. Zezé põe o marido a me sustentar de um lado, garantindo meu tronco perto da barra. E ela me ampara do outro lado, garantindo a flexão do pescoço. E assim foi. Acocorada com apoio bilateral físico e emocional, sob a regência do maestro Jones, tive um expulsivo de três ou quatro forças, com um círculo de fogo ameno e curto. Maitê veio serena. Com 3615g e 52cm. Tive uma laceração de pele lateral grau zero-um que teve 1 ponto de sutura opcional.

Tudo que disser além daqui será pequeno e pouco para traduzir a grandiosidade dos momentos que vivi e que já são eternos para nós. Teria que viver mil vezes tudo de novo para talvez conseguir colocar na linguagem das palavras o que ocorreu conosco. A vida, os seres humanos iluminados que me rodeiam, os deuses, a natureza, tudo foi muito a favor desta vivência “sobre-humana” que tive.

Enfim, no século das aberrações obstétricas, das taxas imorais de cesáreas e da tecnocracia de um sistema que quer seguir vendado à informação de relevância científica mundial, curei minhas feridas íntimas aquém do divã, curei na raça, carimbando minha sexualidade, meu gênero feminino, expondo o poder que sempre tive. E que todas têm. Mas a porta abre só pelo lado de dentro. Só a gente pode dar o passo inicial para isso hoje em dia, pois fizeram-nos desaprender a “andar de bicicleta”. Fizeram-nos crer que a maternidade como um todo é complemento, fru-fru, e não ancestralidade, não força vital.

 

Salve Doula Zezé.

Salve Dra. Ana Cláudia Esteves Codesso.

Salve Dr. Ricardo Herbert Jones.

Salve Enf. Obst. Zeza Jones.

Salve Ed. Fís. Andréia Aires.

Salve Fisioterapeuta Pélvica Ana Cristina Gehring.

Salve Inst. de Yoga Shana Gomes, por tudo que foram, são e serão em minha vida.

Simone Terracciano, Porto Alegre, 24 de setembro de 2015.

 

Encontro Parto Alegre sobre Parto Domiciliar 28/09

IMG_0895Dia 28/09 teremos encontro sobre Parto Domiciliar com a equipe Parto Alegre.
Contaremos com a presença das enfermeiras obstétricas Ana Terra e Larissa Pozzebon, que atendem parto domiciliar, para tirar dúvidas sobre como ter um parto em casa com segurança. Teremos também relatos de parto domiciliares de mulheres que recentemente passaram por essa experiência.
Contamos com sua presença!
um abraço da equipe Parto Alegre

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Novo Encontro Parto Alegre!

Gente querida,

dia 23 de fevereiro, teremos mais uma edição do Encontro Parto Alegre de férias. Nesse encontro, vamos ter a presença especial de mães e pais que passaram pela experiência de dar a luz de forma amorosa, respeitosa, em paz! Com todas as transformações, desafios e incertezas do caminho. Será um momento de partilha, pleno de trocas e relatos amorosos que vão fazer você ter mais pistas sobre o que é parto humanizado, hospitalar, domiciliar, enfim. Como é viver a chegada de um novo ser, valorizando cada momento e o tempo de cada um.

Compareçam!

Encontro Parto Alegre – Relatos de Parto

Dia: 23/02/15 – Segunda-feira
Hora: das 20h às 22h
Local: UNIPAZ – Rua Miguel Couto, 237 Bairro Menino Deus

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Esperamos por vocês!

Equipe Parto Alegre

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Relato de Parto – Nascimento de Francisco Damião

Parto em casa – nascimento de Francisco Damião

” Cosme e Damião a sua casa cheira.
Cheira a cravo e rosa,
Cheira a flor de laranjeira”

Francisco Damião nasce no dia 12 de fevereiro de 2015, às 12:39 min, gestação de 40 semanas e 6 dias, em Antonio Prado, RS. Primeiro dia da lua minguante.
Kin 210  – Cachorro Lunar Branco – Onda Encantada 17 da lua vermelha.
Polarizo com o fim de amar
Estabilizando a lealdade
Selo o processo do coração
Com o tom lunar do desafio
Eu sou guiado pelo poder do espirito
Sou um portal de ativação galáctica, entra por mim.
Muitas são as lembranças que cercaram o nascimento deste menino, vou relembrar algumas… Começa na viagem até a cidade de Antonio Prado, na serra gaúcha, a entrada devagar em uma outra altitude, outro relevo cercado de morros verdejantes. Os parreirais, a uva, o vinho, a pureza do ar, natureza preservada. A observação das construções antigas do tempo da imigração italiana, o contato com típicos descendentes, ouvir sua forma de falar, seu sotaque… Emergiram memórias de minha origem materna…
Um arco-íris sinalizou as boas vindas, bem como os bons augúrios…
Café colonial na recepção. Chás: camomila, erva cidreira, funcho…carinhos da hospedagem …
Assim foi!!!
Chegada na casa de Zé e Lu às 21:30 hs. Lu apresentava frequência das contrações de 3 em 10 minutos porém tanto a intensidade quanto a frequência estava irregular, o que determinou um longo trabalho de parto. Em torno de 15 horas, considerando uma segunda gestação. O primeiro sinal do início, surgiu ao amanhecer do dia 11 com a saída do tampão mucoso e poucas horas depois as primeiras contrações dolorosas de forma esparsa.
Todo trabalho de parto é uma iniciação para a mulher e cada uma pode aproveitar essa oportunidade de aprofundamento interior na dependência de sua visão de mundo. Este pequeno espaço de tempo capitaneado pela parte mais antiga, primitiva do cérebro, vivido numa intensidade total instintiva e arquetipica. Desdobrada em imagens, sentimentos, sensações: auditivas, visuais, táteis, sonoras, gustativas… A totalidade do ser!!!
O movimento é o indicador da evolução do processo, caminhar…sentar…deitar…alongar e flexionar usando a bola…comer alguma coisa…ficar em uma parte da casa…trocar de ambiente…ir para o chuveiro…chorar… Invocar ajuda espiritual… Tempos do caminho árduo que se percorre até completar a dilatação. Caminho que no limite final traz a percepção da morte.
” vou morrer…
” não, não vai morrer…”
Não dito verbalmente, mas em pensamento:
“Não pela dor, mas sim, se morre para a antiga maneira de ver a vida. Uma nova consciência está nascendo enquanto a antiga está partindo. Nasce a mãe e nasce o filho!”
Dois nascimentos simultâneos!!!
No “apuro final”, relembrar que o caminho ainda não chegou ao fim e que a hora mais decisiva está começando: o período expulsivo.
É preciso entrar na profundidade do ser, sua energia vital e trazer uma força renovada, pois o momento exige o máximo de esforço, concentração e determinação.
” Se quisermos desenvolver músculos espirituais para valer e nos tornarmos um guerreiro(a) espiritual, conforme a tradição do tibetano -, precisamos de obstáculos a superar. Precisamos de pesos pesados… Gratidão pelas dificuldades e obstáculos. É assim que aprendemos. Claro que não precisamos chamar as dificuldades, mas, quando chegam, sabemos o método para lidar com elas de forma habilidosa.” Jetsunma Tenzin Palmo.
Até completar a dilatação a natureza faz  a maior parte do trabalho de forma involuntária, ocorre a liberação de ocitocina e todo ambiente biológico se organiza para o trabalho de parto. No período expulsivo, porém, a participação da mulher precisa ser total,  para que a apresentação possa descer pela passagem estreita do canal do parto. A transição pelo arcabouço ósseo seguida pelos dois esfíncteres em forma de 8, que sustentam o assoalho pélvico. Aqui, onde as luzes se acendem, a hora do elemento fogo, é o chamado empoderamento da mulher.
O milagre do nascimento!
Manifestação de um poder supremo, nossa natureza primordial em sintonia perfeita com a natureza física.
Pura magia!!!
Saimos do contexto de espaço e tempo… A realidade torna-se expandida de outros elementos que se irradiam em cores, sons e perfumes. Imagens se constelam na mente…
Um banquinho de parto feito por seu pai ajuda sua mãe a encontrar a força necessária para sua saída ao mundo, aqui deste lado de fora…
Nasce Francisco Damião!!!
3665gramas, 50 comprimento, apgar 9 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto.
Benvindo o menino que traz no nome a força dos gêmeos divinos, Cosme e Damião!!!
Durante todo tempo do trabalho de parto, sua irmãzinha que completou dois anos, 4 dias antes, participou do processo, cuidada especialmente pelo pai, avó materna e irmã por parte de pai. Na delicadeza de menina, muitas vezes trouxe sua ajuda para minimizar as dores da mãe! Logo que nasceu seu irmão, nos braços do pai, fez o primeiro  carinho no mano, um beijo na cabecinha  ainda molhada dos líquidos que o envolviam no útero.

Não há como descrever a emoção que se vive diante de momentos como este!!!

Depois de concluído o trabalho de parto com a dequitação da placenta, um tempo para o inicio da amamentação e do contato pele com pele entre mãe e recém nascido. Ali no quarto escuro propício ao nascimento. Na caverna estilizada, ao abrigo de todos os estímulos de seu neocortex, como dito por Michel Odent, o encontro de mãe e filho, o reencontro em outra dimensão da matéria e do espirito!!!
Tempo sagrado…
” Quão diferente é o inconsciente! Nem concentrado, nem intensivo, mas crepuscular até a obscuridade, ele ganha com isso uma extensão imensa e contém, lado a lado, de maneira paradoxal, os elementos mais heterogêneos, dispondo, além de uma massa indeterminável de percepções subliminares, do tesouro prodigioso das estratificações acumuladas no decorrer das vidas dos antepassados, que, só pela sua existência, contribuíram para a diferenciação da espécie. ” Carl Gustav Jung.
Depois sim é permitido observar o novo serzinho, fazer seu primeiro exame físico.
Tudo perfeito.
Olho para aquele menininho recém nascido, nos braços de sua mãe… Um sentimento  brotou do fundo da alma e ele, o menino, devolve o olhar na minha direção, na minha face, nos meus olhos… Alguns segundos talvez … pois o tempo se alargou, seu olhar fixo, intenso, profundo me cumprimentou e agradeceu por ter conduzido e auxiliado sua mãe durante o caminho até chegar ali… E eu em minha mente e em minha alma fiz uma reverencia no mesmo sentido.  Esta foi a riqueza…este foi o ensinamento!!!
Somos espíritos que encarnamos em um corpo material, para realizar um percurso… Ao nascer não somos uma  ” tábula rasa “, temos uma bagagem de conhecimento adquirido em outros percursos já realizados…nossa ancestralidade está presente.
Muito prazer em conhecé-lo Francisco Damião!

” Hoje, a palavra pertence a quem ainda não falou “.
André Gide

Parto assistido por:
Adelise Noal – médica
Claudete Borges – enfermeira

Relato de Parto de Letícia – Nascimento de Isabela

Este é mais um lindo parto que acompanhei como doula e sinto gratidão por testemunhar a transformação de uma mulher no seu rito de passagem, quando permitimos que a natureza faça a sua parte.

Parabéns Letícia Volkmann Cavalini pelo nascimento de sua linda filha Isabela!

Boa leitura a todos!

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A expectativa pela chegada da Isabela era grande. Primeira neta do lado paterno, primeira filha de uma filha. Ainda estávamos na 38ª semana e o assunto diário era sobre quando a dona moça ia resolver nascer, como se já estivesse na hora ou passando do tempo.

Como moramos no interior, combinamos com o Dr. Ricardo e com a Zeza de que o parto seria em Porto Alegre na casa que era da minha bisavó, que já faleceu, e que no momento está parcialmente ocupada, mas que continua bem equipada.

Fomos morar na casa da minha mãe alguns dias antes da Isabela nascer. Uma semana envolvidos em fazer a mudança – o que é de uso diário vai para um lado, o que é para a casa nova vai para o outro, encaminhar o que não está em uso e o que não tem mais serventia… Faxina geral!

Encontro de gestantes com a Zeza em Porto Alegre, visita ao hospital, compra de materiais para a casa nova, preparação da lavoura para o plantio e o parto que não chegava nunca…

Tive contrações no domingo (3 de agosto) à noite, após um dia de muito trabalho em função da mudança. Olhei o relógio de 20 em 20 minutos por mais ou menos duas horas e adormeci. Ainda não era a hora.

Na terça-feira (dia 5) fomos a uma maratona em Porto Alegre: almoçamos na casa da vó, visita ao hospital (que era o nosso plano B), consulta médica, compra de piso para o novo banheiro e voltar pra fazenda. Cheguei a pensar que teríamos que ficar em Porto Alegre naquele dia mesmo, mas como não tínhamos levado nada da Isabelinha, ela desistiu e não quis nascer naquele dia…

Quinta-feira (dia 7) após um delicioso jantar, fiquei enjoada e vomitei durante a noite. A piada do dia seguinte era que o pastel não tinha me feito mal, mas sim a sopa, já que eu fui a única que tinha comido sopa no jantar… O mal estar continuou durante toda a sexta-feira. Aquela sensação de querer ficar quieta no meu canto, de não querer ver ninguém mais além do meu marido e de querer organizar os últimos detalhes para a vinda da pequena. Praticamente refiz a mala dela naquela tarde.

E na noite de sexta-feira as contrações voltaram e estavam mais fortes. Agora sim tinha mais cara. Entrei de baixo do chuveiro por volta das 4h de sábado. Saí dali depois de 20 minutos, pois o chuveiro não estava muito bom e a água esfriou. Fechamos as malas, avisei a minha mãe, carregamos o carro e saímos para Porto Alegre às 5h30. No caminho, liguei para a Luísa, minha doula, e para a Zeza, a parteira.

Chegamos em Porto Alegre, na casa da minha bisavó, por volta das 6h30 da manhã de sábado. As contrações durante a viagem pareciam fortes e ritmadas. Apenas chegamos lá e a Luísa também chegou. Ela e o Daniel mal se viram, pois ele já estava muito cansado e foi dormir.

Luísa e eu fomos para o quarto. Ela fez uma massagem gostosa e relaxante nos meus pés e me sugeriu fazer uma despedida da minha barriga enquanto isso. Ainda lembro vagamente da canção que ela entoou tão docemente… “mãe antiga….”

Em seguida chegou a minha mãe. Conversamos, tomamos um café da manhã gostoso. Como as contrações continuavam de 10 em 10 minutos, com algumas fracas entre elas, fomos fazer feira e depois supermercado. Aproveitamos para comprar comida para todo o fim de semana. Frutas, verduras e pães orgânicos e alguns mantimentos para a casa. Caminhar era maravilhoso. E foi ótimo passear pela rua, pois algumas pessoas se aproximavam para perguntar se eu estava bem, se eram contrações e outras me ofereciam cadeira para sentar. Algumas mulheres até me contaram suas próprias histórias de parto. Todos me desejaram boa hora e simpatizaram com o meu desejo por um parto normal.

A manhã de sábado se confundiu com a tarde. Já não lembrava mais quando tinha comido a última vez. A fome era sempre grande, mas cada vez que eu comia vinha uma contração e, em seguida, a náusea, só para estragar o gosto do que quer que entrasse na minha boca.

Mais uma caminhada durante a tarde. Caminhamos pela praça Japão e pela rua… Dava alguns passos e tinha que me abraçar no Daniel, pois vinha uma contração. Ou simplesmente uma vontade de ficar abraçada nele.

Em algum momento naquela tarde falei com a minha prima Jaqueline, que é pediatra, e com a parteira Zeza. Segundo a Luísa, ainda não era para aquela noite. Combinamos de ligar pra ela caso houvesse alguma mudança no panorama e ela foi dormir em casa, com o seu marido e  com a sua filha.

Domingo (dia 10 de agosto, dia dos pais), lá estava ela de volta! Recebi mais massagens, enquanto minha mãe e o meu marido corriam pra cima e pra baixo tentando consertar os dois chuveiros que haviam queimado durante a noite. No final da manhã, chegou a Zeza. Fizemos exame de toque, escutamos o coraçãozinho da Isabela, medimos a minha pressão arterial. Tudo sob controle e com sinais de que ainda ia demorar.

Eu já estava muito cansada e a minha ansiedade era grande. Queria que ela nascesse de uma vez, queria que as dores terminassem logo… o desânimo por conta do cansaço já estava começando a chegar. Mas, por sorte, a Zeza não parecia nada cansada naquele momento, pelo contrário, ela chegou com todo o gás e dizia todo o tempo “taca-le pau Isabela!”. Comecei a tomar homeopatias e o chá da Naoli. Em seguida, um super escalda-pés. Danças com os quadris. Massagens. Diferentes posições durante as contrações (por exemplo, ficar de quatro no chão e levantar um dos lados do quadril e apoiar a perna em uma cadeira). Me pendurei em uma corda e soltei o quadril. Abraços. Carinhos. Beijos. Choros. Gritos. A emoção aumentava a cada contração e, ao mesmo tempo, a tranquilidade tomava conta de toda a casa. Eu caminhava de um lado para o outro e via que todos os que estavam presentes (minha mãe, meu marido, a doula e a parteira) faziam suas coisas, conversavam, riam. Água, muita água!!! Muito chá da Naoli… e chocolate também!!! Assim passamos a tarde. Comia quando eu queria, conversava, ria, cantava. Piadinhas se misturavam com a emoção da eminente chegada da minha filha. Às vezes a Zeza me chamava para auscultar o coração da bebê durante a contração e para conferir a dilatação. Tudo progredia de forma muito tranquila e lenta. E o cansaço só aumentava… As pernas doíam, o quadril se abria. Eu estava muito cansada e tentava cochilar um pouco entre as contrações, mas cada vez que eu adormecia, vinha uma contração muito mais forte.

No final da tarde de domingo entrei em baixo do chuveiro mais uma vez e agora queria a companhia do Daniel. Ficamos lá um tempão, ele sentado em um banquinho e eu agachada no chão e apoiada nele. Recebia massagens e carinho enquanto a água quente corria pelas minhas costas. Quando saímos, ligamos mais uma estufa e… a chave de luz caiu!!! Corre Daniel e corre Helena para ligar a luz outra vez! Já estava escuro, frio e chuvoso lá fora, precisávamos das estufas. Foi rápido para normalizar, mas levamos um sustinho!!

Por volta das 18h, a bolsa rompeu. A dilatação tinha aumentado pouco desde a última vez que conferimos, ainda estava em 6 cm. Chamamos a Jaque e avisamos o dr. Ricardo.

Depois que a bolsa rompeu, parece que tudo começou a engrenar. Agora as contrações eram realmente fortes e já não conseguia dar mais que três passos sem sentir uma contração. Durante as contrações a minha vontade era de ficar com os joelhos bem separados e apoiados sobre uma almofada no chão e apoiando os meus braços sobre a bola de pilates, sobre um sofá ou então, abraçada em alguém, praticamente pendurada, e geralmente era a querida Luísa quem sustentava todo o meu corpo. O trabalho de parto começou a ficar ativo e cada vez mais eu queria ficar no meu canto, sem intromissões.

Lembro de ter ido na cozinha em um momento e, ao ver a mulherada conversando, tive vontade de voltar para o meu cantinho e aí veio uma contração forte. Mesmo assim, quis continuar a “fugir”, então, me ajoelhei e fui engatinhando, mesmo durante a contração. Em outro momento, apareceu o meu pai, a minha irmã e uma prima querendo me ver. Eu só lembro de olhar pra minha mãe e, desesperada, dizer que eu não queria ver ninguém, ninguém mesmo. Naquele momento eu não tinha vontade de saber o que estava acontecendo lá fora, no mundo… a minha única preocupação era comigo mesmo e tudo o que eu queria era poder parir. Parir sozinha, no meu canto. Parir sem olhos de curiosos.

Agora não era só eu que estava cansada… em algum momento daquela madrugada, senti que o cansaço era geral e que todos pensavam “taca-le pau, Isabela!!”. Quando caminhava pela casa, via o meu marido, a minha mãe e a pediatra dormindo. Até a doula conseguiu descansar uns minutos em algum momento… menos a parteira e eu.

A sensação de que eu não ia conseguir parir sozinha, em paz, estava começando a chegar… já sentia que não tinha mais forças. Perguntei à Zeza quais seriam as opções se eu quisesse desistir do parto domiciliar. Ela me respondeu que iríamos para o hospital Divina Providência, chamaríamos o dr. Ricardo, ele me daria ocitocina, as contrações seriam mais fortes e mais freqüentes e o tempo de trabalho de parto ficaria mais curto. E as dores? Dá pra chamar um anestesista se quiseres, me respondeu. “Espera o teu marido acordar, esta é uma decisão que tu tens que tomar, mas que deves conversar com ele antes”.

Quando a Luísa voltou do seu “descanso”, eu entrei no banho mais uma vez. Combinamos que agora seria a vez da Zeza ir descansar enquanto eu estava em baixo do chuveiro. Não agüentei ali muito tempo… Chamei a Luísa e disse que eu já não agüentava mais. Naquele momento, ela me fez lembrar uma das conversas que tivemos, em que ela me disse que ia chegar um momento do trabalho de parto em que eu ia pensar que não conseguiria ir adiante e a vontade de desistir seria grande, mas que eu tinha que persistir e que eu tinha que buscar as minhas últimas forças, pois um parto natural e humanizado eram a minha escolha.

Pelo jeito, a Zeza nem se deitou… chamamos ela e eu queria mesmo chamar o Daniel também para conversar sobre a desistência. Eu estava com dois corações: por um lado, sentia muita dor, estava muito ansiosa e realmente esgotada e por outro lado, eu sabia que eu tinha plenas condições de ter um parto domiciliar, eu tinha confiança em mim como mulher e confiava na equipe que estava me acompanhando. Então, a Zeza disse para eu entrar mais uma vez no banho e que quando eu saísse, ela ia conferir a dilatação e tomaríamos uma decisão.

Parece que a Isabela precisava deste ultimato para resolver nascer… ela já era sapequinha desde quando estava na barriga da mamãe!!! Saí do banho e a Zeza fez o exame de toque: 9,5cm, faltava só um rebordezinho, que alegria!!

Depois desta notícia, parece que eu renovei. Já eram quase 4h30 da madrugada de segunda-feira. Não sei de onde tirei forças para agüentar as últimas contrações. A alegria tomou conta de mim. Fui avisar o meu marido, que ainda dormia: “amor, a nossa pequena está chegando!”. Em um segundo, tudo estava pronto: a banqueta, a bacia com um chá de ervas, um protetor de cama para proteger o carpete, as luvas, o óleo, as contrações cada vez mais fortes e freqüentes. Com o auxílio da respiração durante a contração sentia que ela ia descendo.

Ainda levou aproximadamente uma hora entre a última aferição e o nascimento. Tomei água, caminhei um pouco, sentei na bola de pilates e quando eu senti que a Isabela estava bem em baixo, sentei na banqueta. O Daniel veio, sentou na bola, bem atrás de mim e me segurou. Eu me apoiei nele e esse abraço me aqueceu e me deu segurança. Desde que as contrações tinham começado, tudo o que eu queria e tudo o que eu precisava era da presença do meu esposo. Saber que ele estava ali comigo, mesmo nos momentos em que ele estava dormindo, me davam segurança e esta segurança me deixava tranqüila.

Ela estava chegando, já podia ver e sentir o seu cabelinho… a emoção era muita!! “Mãe”, “Mããããe, vem ver isso!” “Cadê a minha mãe? Ela precisa ver isso!!!” Mais algumas contrações e a cabecinha já estava de fora!!! Foi aí que a Zeza viu que ela tinha uma volta de cordão no pescoço e que ela não ia conseguir continuar descendo. Então, com uma mão divina, a Zeza cortou o cordão umbilical, que ainda estava dentro de mim e em menos de um segundo a Isabela já estava nos seus braços!!! Já eram 5h31 da manhã de segunda-feira, dia 11 de agosto. E toda a dor passou.

Enquanto escrevo, as lágrimas rolam… este é definitivamente, o momento mais especial da vida de uma mulher. E mais especial ainda quando podemos ver e sentir o nascimento dos nossos próprios filhos.

A Zeza e a Jaqueline fizeram o atendimento na pequena-grande Isabela: massagens e aquecimento. Em poucos minutos, ela estava nos meus braços e fomos nos deitar. Seu chorinho era emocionante… Colocamos ela no peito e ela mamou, mamou e mamou e poderia ter continuado mamando direto até agora!!! Só depois de ela ter pego bem o peito e ficado satisfeita é que ela foi pesada, medida e vestida. 52 cm, 3,100kg. Algumas contrações mais, agora bem fracas, como uma cólica menstrual e a placenta saiu inteira, intacta. A Zeza examinou tudo e fez apenas dois pontos “pra bonito”, segundo ela. Ganhei um super café da manhã preparado pelo meu esposo e em seguida adormeci.

Agradeço, em primeiro lugar, ao meu esposo Daniel, que depositou a sua confiança em mim desde o momento em que escolhemos por um parto domiciliar.

Agradeço de coração a todos que estiveram presentes durante estes dias: meu esposo Daniel, que com a sua calma e com o seu amor manteve o ambiente tranqüilo; minha mãe Helena, que providenciava as refeições e os chocolates; Luísa, a minha doula, com seus chás, massagens e conversas; Jaqueline, minha prima e pediatra, que com muito carinho atendeu a minha boneca; Zeza, a parteira, que com o seu humor, deixava o ambiente mais leve a cada contração; dr. Ricardo que, de longe, nos deixava seguros de que tudo estava bem;  minha vó Heloisa e família Maciel, que nos albergaram e que estiveram todo o tempo à nossa disposição.

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