Entendendo a “Partolândia”

renewal-picMuitas gestantes e casais escutam pela primeira vez em suas vidas, de suas doulas, parteiras, a expressão “Entrando na Partolândia“.

Sobre toda a ação hormonal que ocorre em nosso corpo durante o trabalho de parto (que nos leva à Partolândia), parto e pós-parto, já existem nesse blog excelentes e completos textos que se você ainda não leu, pode (e deveria) conferir aqui: Parto Extático – O modelo hormonal naturalmente previsto para o trabalho e aqui O parto e as origens da violência.

Fazendo a proveitosa leitura da obra “Yoga Nidra – O Sono Consciente”, de uma das professoras de yoga mais competentes que já conheci, a Gangadhara Saraswati, com quem também concluí minha formação de instrutora de yoga, li um pequeno trecho que explicava funções cerebrais e imediatamente lembrei-me do parto e da Partolândia, onde já estive durante a travessia da vinda da minha filhota Anahí.

Compartilho aqui com vocês abaixo:
“…o hipotálamo, região do cérebro que controla o sistema nervoso autônomo e integra as funções psicossomáticas e somatopsíquicas. O hipotálamo recebe informações do meio ambiente e de dimensões intrapsíquicas silenciosas do córtex cerebral. Ele é ricamente inervado pelas fibras do sistema límbico e pelo núcleo amigdalar na base do cérebro. Através dessa conexão, nossas respostas hormonais e fisiológicas estão diretamente influenciadas pelas nossas emoções… “

A última frase está destacada, pois na verdade ela é a que mais importa para entender algo vital num trabalho de parto: Nossas respostas hormonais e fisiológicas estão diretamente influenciadas pelas nossas emoções.

Antes de entrar nesse ponto, já que o título do texto fala da Partolândia, ela pode ser definida como um estado alterado de consciência e percepção externa da mulher, no qual ela pode ter visões, sensações, ouvir sons, ficar irritada, chorar muito, durante a fase mais avançada do trabalho de parto, geralmente, ou para outras já mais no início. Isso pode ou não acontecer, algumas mulheres, por motivos diversos, acabam ficando mais ligadas mentalmente e não experimentam esse estado, porém não quer dizer que seja bom ou ruim entrar “na Partolândia”, que quem experimenta essa sensação teve um parto melhor, e as outras são “menas mãe“, como dizem por aí nas redes sociais. Cada uma tem o tipo de parto que precisa pro momento da sua vida, cada experiência é única, especial e não passível de julgamentos.

Voltando à frase grifada acima, o que isso quer dizer exatamente? Uma coisa muito simples. Para que seja liberada a ocitocina, hormônio natural do corpo humano, que estimula as contrações uterinas e, com isso, age também na descida do bebê pelo canal do parto, ajudando o corpo na passagem do bebê, na amamentação e mais num tanto de coisas que os textos referenciados acima dizem, necessita-se de silêncio, respeito, empatia, delicadeza, flexibilidade, paciência, compreensão, etc. Toda essa lista fala das qualidades essenciais de uma equipe de parto, de uma equipe de centro obstétrico. Para que nosso corpo dê respostas fisiológicas e hormonais positivas durante o trabalho de parto e parto, nosso lado emocional precisa ser levado em conta, é simples, é química.

A mulher precisa de segurança no momento do parto e ela deve escolher o local que mais inspira essa confiança nela, seja o hospital, seja a casa de parto, seja sua própria casa. Há de se compreender, por parte das mulheres e das equipes de assitência, que se o lado emocional não for levado em conta, dificilmente o corpo responderá e toda a cascata de intervenções, que vêm acompanhadas de seus riscos, virá para “corrigir” a dinâmica do parto, quando na maioria das vezes, o que precisa de correção é a dinâmica da equipe, do hospital.

Portanto, deixem as mulheres entrarem na Partolândia, percorrerem seus túneis escuros ou iluminados, chorarem seus medos abraçadas em seus companheiros, suas doulas, suas mães ou em quem quiserem. Ficarem nuas, dançarem, caminharem, cantarem, rezarem, ficarem mudas. Respeitar e honrar em silêncio ou com palavras realmente necessárias uma mulher ganhando seu filho é o mínimo que alguém que está presenciando esse momento sublime pode fazer. E mulheres, permitam-se, a Partolândia é “um lugar” onde nem sempre vemos flores, mas saímos muito fortes de todo esse processo.

Abaixo dois poemas citados também no livro Yoga Nidra, que na minha opinião têm muito a ver com parir, ser mãe e assistir partos:

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida)
Isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender.
Deste ou Daquele Modo – Fernando Pessoa.

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.
Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem.
Traduzir-se uma parte na outra parte – que é uma questão de vida ou morte – será arte?
Traduzir-se – Ferreira Gullar.

Um abraço com carinho e ocitocina.
Shana Gomes
Mãe, doula, instrutora de yoga.

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