Entrevista – Parto Natural mesmo após cesariana

Queridas e queridos leitores,

Amanda Martins, doula da Equipe Parto Alegre, entrevistou por e-mail Helene Vadeboncoeur, autora do livro Parto natural após cesárea, editado no Brasil pela M. Books. A tradução dessa entrevista foi feita por Milton Assumpção. Colocamos na íntegra as respostas que ela nos deu. Sua história de partos é marcada por desafios e dores que a fizeram ir atrás de mais informações e lutar pelo direito das mulheres parirem com liberdade de escolha, dignidade e respeito. Este livro nasceu alguns anos após de ter dado à luz a sua filha, ela sonhava que este fosse natural, no entanto, o parto que tinha tudo para ser natural virou um parto instrumentalizado e cheio de intervenções. E mais uma vez ela se sentiu roubada da sua experiência de parir naturalmente e poder sentir tudo o que tinha direito no momento mais transformador na vida de uma mulher, de uma família.

Nesse sentido, seu livro nasce desse desejo de que outras mulheres possam viver esta experiência de uma forma mais humana e respeitosa e assim, encontrem informações de qualidade, com dados que mostrem as vantagens e desvantagens reais do PNAC e de uma primeira e segunda cesárea, algo tão pouco discutido. O livro conta com muita pesquisa e relatos de parto de mulheres que tiveram seu PNAC. Na edição brasileira pode-se encontrar os efeitos positivos do livro no relato de mulheres que tiveram a oportunidade de lê-lo em outras partes do mundo e assim ir em busca de um parto natural mesmo após cesárea.

Leia agora a pequena entrevista que fizemos:

Parto Alegre – Quais são as razões para o aumento de cesarianas no Brasil e no mundo?
fotografiaHelene Vadeboncoeur – As razões são complexas e tem muitos fatores. As mais importantes, na minha opinião (e na opinião de muitos agentes-chave de saúde pública, cuidadores, organizações e mulheres questionando as taxas de cesáreas, que só crescem): globalmente, a técnica da cesárea evoluiu e se tornou mais segura. Culturalmente, em nosso mundo em todos as áreas, a tecnologia é encarada apenas como progresso e raramente é questionada. Nós temos também uma visão cartesiana de mundo, em que a natureza precisa ser “conquistada” e “controlada” (e dar à luz é um fenômeno natural). Além disso, fazer uma cesariana é muito mais conveniente para o médico e para a organização do hospital do que ficar à espera do trabalho de parto começar. Por fim, existe uma grande ignorância e/ou negação dos riscos de uma cesariana. As razões para aumento não tem apenas um, mas muitos fatores, como também um monte de motivos que não são médicos (eles, geralmente, não têm muito a dizer sobre as razões médicas ou sobre o estado de saúde da mulher, de fato, para fazer uma cesárea). Não posso falar sobre o Brasil, porque precisaria conversar mais com os principais agentes brasileiros para aprofundar minha compreensão da situação. Mas posso dizer que as taxas de cesárea são muito mais elevadas em hospitais ou clínicas privadas. Este é um fator importante para ser observado, juntamente com o ganho financeiro associado ao fazer uma cesariana e a imputabilidade do médico.

Parto Alegre –  Quais as chances reais de uma mulher que teve uma cesariana conseguir ter um parto natural no Brasil? O que ela tem de fazer?

Helene Vadeboncoeur – Eu não tenho visto muitos dados sobre a proporção de mulheres que têm um parto natural após cesárea no Brasil, então não posso responder à primeira pergunta. Mas para uma mulher ter um parto natural (o primeiro ou após uma cesariana anterior), na minha opinião, ela tem de:
• estar determinada;
• estar preparada: de preferência começar a se preparar antes de estar grávida, pra ter mais tempo pra pesquisar, pra rever seu arquivo obstétrico e também pra estar em uma situação menos vulnerável do que durante a gravidez;
• saber mais sobre a situação das cesarianas na sua região (taxas de cesárea nos hospitais, a gama de médicos disponíveis, quem apoia o PNAC – sejam médicos, enfermeiras-parteiras, doulas etc.);
• procurar um cuidador de apoio (médico, enfermeira-parteira, doula);
• ter em mente quais são os seus direitos (ver a carta “Cuidados maternos respeitosos: os direitos universais das mulheres grávidas”, da White Ribbon Alliance for Safe Motherhood – disponível em português no meu livro);
• procurar uma segunda opinião médica caso a opção do PNAC seja negada ou se existe um suporte legal para ajudá-la a obter o direito de ter um.

Parto Alegre – O que você acha que acontecerá nos anos que virão? Uma redução no número de cesáreas, um aumento?

Helene Vadeboncoeur – A tendência global é o aumento das taxas de cesáreas. No entanto, mais e mais organizações (incluindo a OMS, que acaba de publicar – em setembro de 2014 – um estudo que confirma os malefícios de taxas de cesáreas acima de 10% ou 15%); os cuidadores, as mulheres também estão questionando essa tendência. Além disso, os cientistas têm, mais recentemente – aconselho ver o documentário Microbirth [ver também filme brasileiro o Renascimento do parto] –, sublinhado a urgência de questionarmos sobre os possíveis graves impactos de saúde das pessoas que nasceram por cesariana – e, finalmente, sobre a saúde pública. Além disso, os resultados de estudos sobre cesariana confirmam que existem maneiras de diminuir as taxas, se houver vontade política para fazer isso – ver estudos de autoria ou co-autoria de Nils Chaillet, publicados entre 2012 e 2014, na PubMed e os resultados do estudo QUARISMA sobre a redução da incidência de cesariana em Quebec, no Canadá. Mas o principal são as mulheres, elas são as principais agentes que podem pedir pelos partos naturais ou PNACs.

Parto Alegre – Qual a recomendação mais importante que você daria a uma mulher brasileira que quer um parto natural?

Helene Vadeboncoeur –  Além do que eu já disse, posso afimar que é difícil elencar “o mais importante”. Aos meus olhos, há várias recomendações importantes. É um pouco como escalar uma montanha: você precisa se preparar antes do tempo – treinar para caminhadas e ter o equipamento apropriado, precisa que as pessoas saibam onde você está indo, levar líquidos e alimentos para se sustentar etc. Em geral, eu diria: 1) encontre um bom hospital de apoio (com baixa taxa de cesárea, bons resultados, conhecido por deixar as mulheres terem PNACs); 2) um médico de apoio, enfermeira obstétrica ou obstetriz; e 3) ter um suporte de uma doula durante o trabalho de parto. Só um desses itens é bom, mas quanto maior o apoio que você tiver, melhor!

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