A ecologia do parto

O texto abaixo se refere à palestra que aconteceu dia 23 de setembro na BIONAT, a 5ª edição da feira de sustentabilidade de Porto Alegre.

A situação atual do nascimento humano tem se tornado insustentável. Neste ano, a BIONAT traz em seu slogan que “cada ideia é uma semente”, desse modo, gostaríamos de plantar outras sementes a respeito da cultura atual do nascimento humano.

Nosso objetivo é pensar em alternativas diferentes ao modelo atual mecanicista de parto/nascimento no qual estamos inseridos. O Brasil, segundo registro da UNICEF no Relatório da Situação Mundial da Infância de 2011, tem a maior taxa de cesarianas do mundo. No período de 2002 a 2009, a taxa de operações cesarianas registradas em nosso país foi de 44 %. Em 2010, este valor subiu para 52 %. Outros 12 países registraram taxas acima de 30 %, segundo o relatório.
Na rede privada brasileira, o índice de operações cesarianas chega a 82 % e na rede pública, 37 %, segundo o Ministério da Saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) informa que a taxa ideal de cesáreas deve ficar em torno de 15 %, já que a cirurgia só é indicada em casos emergenciais e põe em risco a vida da gestante e do bebê.
Ou seja, vivemos em uma epidemia de cesáreas no Brasil. O que é muito preocupante, porque embora seja uma cirurgia que salva vidas, quando bem indicada, é de alto risco e nos aliena do nosso próprio corpo e capacidade de trazer bebês ao mundo quando utilizada em excesso e indiscriminadamente. Além disso, se pensarmos que  um ser vivo que não consegue trazer seus próprios bebês ao mundo sem precisar de tecnologia, poderíamos chegar a conclusão que este ser vivo está em sério risco de extinção. Devemos nos perguntar, então, o que está acontecendo conosco. E o que queremos daqui pra frente, enquanto espécie e seres humanos.

Essa situação de cesáreas e partos industrializados está dentro de uma visão que desrespeita não só a mulher e o bebê, mas também a ecologia do parto, na medida em que o entende como algo patológico e um ato médico, o que acaba justificando intervenções muitas vezes desnecessárias com uso indiscriminado de medicamentos e materiais que depois serão descartados no meio ambiente. Dentro desse paradigma, até mesmo os líquidos e matérias produzidos pelo nosso corpo são considerados como produtos contaminados que devem ser descartados.
A placenta, por exemplo, vai num lixo contaminado e acaba demorando alguns anos para se decompor. Numa visão mais ecológica e humana deste evento, adotaríamos outras medidas, por ser um “lixo” essencialmente orgânico. E se olhássemos para nossa ancestralidade, veríamos que durante muitos anos, a placenta foi entendida como parte fundamental da vida. A placenta ser considerada lixo é muito simbólico de uma sociedade que está apartada da natureza, que desconhece os seus ciclos e entende o corpo como uma máquina que está a serviço da mente, numa relação dicotômica e tecnicista.

E essa relação dicotômica também está presente no modo como nos relacionamos com o meio ambiente. O parto, atualmente, acontece na sua imensa maioria dentro do hospital, visto que dentro deste paradigma tecnicista no qual vivemos e atualizamos a todo instante (com relatos de partos normais que não deram “certo” porque ou a mãe ou o bebê eram incapazes desse sucesso) não consideramos seguro deixar a natureza agir por si mesma, mesmo que haja assistência de profissionais especializados na arte de atender partos.
Somente mulheres afastadas dos centros urbanos ainda são atendidas por parteiras – mas isso tende a mudar se não decidirmos olhar o nascimento de outro modo. Segundo a pesquisadora Silvana Granado da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca que realizou pesquisa (ainda em fase de finalização) com 24 mil mulheres internadas em hospitais públicos e privados, médicos obstétras tem realizado o dia da cesárea em regiões em que ainda prevalecia os partos normais. Esses médicos vão uma ou duas vezes por semana e realizam várias cesáreas agendadas naquele dia. De algum modo, parece que a natureza nos ameaça e por isso deve ser controlada. Dessa forma, vemos hoje uma institucionalização do parto, a parturiente entra no hospital para ganhar seu bebê e acaba nas mais das vezes perdendo a sua voz e muitas vezes permanecendo sozinhas no trabalho de parto (apesar da lei que garante um acompanhante, isso nem sempre é cumprido pelos hospitais). Sofrem com as dores e especialmente com os maus tratos e desrespeito, geralmente administram soro (ocitocina sintética, hormônio que aumenta as contrações, o que provoca dor intensa, para acelerar o trabalho de parto). Nos hospitais privados, junto ao soro a anestesia. As mulheres muitas vezes são proibidas de ter a sua disposição alimentos e água. A anestesia na maioria das vezes paralisa o TP. Com isso surge uma cascata de outras intervenções e procedimentos desnecessários. A mulher fica deitada de barriga para cima, o que prejudica a oxigenação do bebê e pode levar a uma diminuição dos batimentos cardíacos do bebê e a uma dificuldade da sua descida, já que a mãe está em uma posição horizontal. Isso provoca novas intervenções como a acelaração da retirada do bebê que leva a pelo menos outras três intervenções: ou a uma cesárea de emergência quando o bebê não pode ser retirado com fórceps, ou a uma episiotomia (corte que se dá nos músculos do períneo) seguida de fórceps. É desse modo que a imensa maioria dos partos acontece no Brasil – quando não há uma indicação e agendamento prévio de cesárea. E com isso há uma produção de lixo desnecessária com uso de equipamentos, roupas, plásticos, lixos tóxicos, hormônios sintéticos e outros medicamentos, além dos equipamentos utilizados logo que o bebê nasce, muitos panos para esfregar o bebê. Esse é o cenário do parto hoje.
Dentro desse contexto, o que a gente traz é a possibilidade de se pensar em alternativas, onde a gente possa rever nossas ideias de segurança, de higiene, de lixo, de ecologia. Um parto humanizado respeita não só o ser humano, mas sua natureza. Na medida em que respeita os tempos, os ciclos, a fisiologia natural do parto; reduzindo lixos, medicamentos sintéticos, entendendo que somos sim capazes de trazer seres humanos ao mundo de forma natural, e de nos perpetuarmos enquanto espécie.
Gostaríamos de encerrar com a seguinte fala da advogada e ativista do parto humanizado, Priscila Cavalcanti:
A revolução ecológica é a proposta de mudar a vida, mudar o ser humano, através da mudança do nascimento. Do nascimento ecológico, surge o homem ecológico, que vê o mundo como um ambiente a preservar e busca reduzir o impacto de sua existência, porque respeita a natureza e a vida.
Referências:

http://www.oeco.com.br/convidados-lista/21593-um-pedido-por-mais-nascimentos-naturais
http://www.epochtimes.com.br/especialista-aponta-desafios-do-parto-humanizado-no-brasil/

Amanda Martins, Débora Bauerman e Luísa Diederichs.

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1 comentário

  1. Agradecemos imensamente a presença de todos(as) e a participação especial do Ricardo Jones e Zeza!

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