Trabalho de parto, entenda suas fases

A cultura ocidental nos educa a entender o parto como um evento inesperado, no qual após mais ou menos 9 meses, nasce um bebê sem dar nenhum aviso. Em geral, rompe a bolsa e precisamos sair às pressas para a maternidade. São muitas as notícias, os filmes que abordam o trabalho de parto e o parto como algo que beira ao desespero. Mulheres ganham seus bebês no ônibus, no táxi, na calçada, na porta do hospital, porque não chegam a tempo.

No entanto, não vemos nenhuma notícia nas mídias dizendo, por exemplo, o seguinte: “uma mulher, depois de 36 horas em trabalho de parto, deu à luz um bebê saudável”. É curioso que esse outro lado não apareça. E ele existe, e como existe! Diria que mulheres ganhando bebês em calçadas e transportes tratam-se de uma pequena minoria de que em geral são multíparas. A imensa maioria, especialmente quando se trata de primigestas tem partos com duração de mais de 8 horas. Em alguns casos podem durar 36 horas ou mais. É comum o primeiro parto durar em torno de 15 horas – contudo, é um risco tomar esses números como regra, afinal o parto é um evento singular que faz parte da sexualidade de uma mulher. Assim como não contamos as horas durante uma relação sexual, seria bom que apenas nos entregássemos à experiência de parir sem nos preocupar com o tempo, curtindo esse momento único em nossas vidas e deixando-nos banhar pelos mesmos hormônios que estão presentes no ato sexual.

É disso que vamos falar. O parto, ao contrário do que nos é passado recentemente, é um evento que tem toda uma fisiologia com fases e hormônios envolvidos. Algumas literaturas apontam 3 fases, outras 4. E em cada uma delas, há hormônios que nos ajudam a seguir em frente.

OS ESTÁGIOS

O primeiro estágio consiste no início do Trabalho de Parto, também chamado de fase não ativa. Ou seja, as contrações são fracas, tem uma curta duração em intervalos maiores de tempo. Nesse primeiro estágio, o hormônio predominante envolvido é a adrenalina. Nos animais, esse hormônio traz às mamíferas a necessidade de encontrar um lugar seguro para parir, de arrumar seu “ninho”. Já para as humanas, nesse momento, sentem vontade de arrumar a casa, fazer faxina, fazer um bolo, arrumar o quarto do bebê. De algum modo, elas estão arrumando o seu ninho. Surge uma força, quando as mulheres se permitem vivenciar cada estágio. Aqui pode sair um tampão mucoso que protege o colo do útero durante a gestação (se já não tiver sido eliminado uma ou duas semanas antes) e surge uma vontade de evacuar. Ou seja, esse primeiro estágio é como o momento da excitação na relação sexual, a preparação do corpo para o início do trabalho de parto.

Em seguida, as contrações começam a ficar mais ritmadas e a ter uma regularidade. Então, inicia-se o segundo estágio do trabalho de parto (fase ativa). O hormônio que vai se tornado predominante neste momento é a ocitocina, o hormônio do amor, que nos leva para a chamada partolândia. Esse período que compreende dos 4 aos 8cm de dilatação, vamos sendo banhadas por ocitocina, que, quando produzida pelo nosso corpo naturalmente, faz baixar a adrenalina e traz um apagamento do neocórtex, nos fazendo sair da racionalidade e nos entregando para uma experiência que pode ser prazerosa. Ficamos num mundo à parte, diria que no mundo dos sonhos. E isso só acontece quando nos sentimos seguras, quando há pessoas a nossa volta que respeitam esse momento. Quer dizer: precisamos de intimidade para dilatar. Nossos esfíncteres são tímidos.

O processo de dilatação vai acontecendo, temos aqui contrações mais fortes, vamos sentindo essas contrações como ondas que vão e logo cessam. Então, começamos a produzir endorfinas, hormônios responsáveis pelo prazer. Podemos ter vontade de caminhar, dançar, mexer os quadris. Nosso bebê vai descendo em espiral até coroar.

Com a chegada do coroamento, entramos no terceiro estágio, o período expulsivo. Aqui, novamente entra a adrenalina. Esse hormônio nos traz força, ficamos um pouco alertas, mas ainda bastante envolvidas por ocitocina e endorfinas. Os três hormônios atuam juntos, assim como no orgásmo. É aquela excitação final, caminhando para a sensação plena de prazer que, no parto coincide com o nascimento do bebê. Muitas mulheres, nesse período, também podem sentir vontade de desistir, é a “hora da covardia”. Quando o parto é hospitalar, invarialmente pedimos: “analgesia, por favor!” Mas, se chegamos até essa etapa da corrida, porque lançar mão de um carro para completar a etapa? Nada melhor do que ir até o fim e experimentar o doce sabor da vitória!

Há o coroamento do bebê, muitas mulheres sentem como um círculo de fogo em volta do períneo. Esse período expulsivo tem uma duração mais curta do que os outros estágios; muitas mulheres referem como o mais rápido. Durante a saída do bebê e seu nascimento, podemos experimentar esse parto orgásmico, banhadas de ocitocina, que produz esse enamoramento pelo nosso filho, começamos a produzir prolactina. Alguns autores consideram esse momento, o quarto estágio.

Com o estímulo da amamentação, nosso útero se contrai para expulsar a placenta naturalmente.  Desse modo, após a expulsão da placenta, o processo de lactação acontece e se produz um reconhecimento e vínculo entre mãe e bebê, o qual também está envolvido por todos esses hormônios e apaixonado por sua mãe. Quando permitimos que esse processo aconteça naturalmente, estamos promovendo o amor, promovendo a paz. Promovendo uma nova forma de nascer que envolve toda família. Afinal, parto é um evento humano, não um ato médico.

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