Conheça Dr. Jorge Kuhn

O Parto Alegre tem o orgulho de apresentar o Dr. Jorge Kuhn, médico parteiro, como ele mesmo se denomina, atuante na capital paulista.

Antes de conhecer a história do Dr. Jorge, apresentamos abaixo um dos motivos pelos quais decidimos por expor este perfil aqui no blog:

Após aparição no último domingo, no programa Fantástico, Dr. Jorge foi denunciado pelo CREMERJ (conselho de medicina do RJ) por defender o direito da mulher escolher onde parir e afirmar que o parto domiciliar, para gestantes de baixo risco e sem intercorrências no pré-natal, é uma alternativa viável e segura.

Nós, do grupo Parto Alegre, apoiamos o Dr. Jorge e defendemos igualmente o parto humanizado e o direito de escolha da mulher de parir como e onde se sentir mais segura e confortável. Por isso, participaremos da MARCHA DO PARTO EM CASA, para lutarmos pelos nossos direitos e pela autonomia das mulheres.

Estamos vivendo um momento muito importante na história do país, onde mais uma vez estamos saindo nas ruas para reinvindicarmos princípios básicos, como foi feito outrora, em tempos de ditadura.

Se você se sente tocado por este movimento, venha se juntar a nós e a todos que apoiam esta causa, dia 17 de junho, domingo, as 15h no parque da Redenção, para caminhar rumo à liberdade de direito de escolha da mulher.

Conheça então, Dr. Jorge Kuhn, com texto retirado do site Parto com Prazer.

Link original: http://www.partocomprazer.com.br/?p=1439

 

Perfil Jorge Kuhn

Médico parteiro

A vida pessoal e profissional do obstetra Jorge Kuhn se divide em antes e depois de seu encontro com as ativistas da humanização do parto, em 2003. Hoje um importante nome desse movimento, ele sempre foi taxado de “vaginalista” pelos colegas.

Por Luciana Benatti*

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Uma temporada de estudos na Alemanha, onde aprendeu a importância das obstetrizes na assistência ao parto, e o encontro com o movimento da humanização foram dois divisores de águas na vida e na carreira do obstetra paulistano Jorge Kuhn. “Eu, que sempre fui chamado de ‘vaginalista’ pelos colegas, voltei da Alemanha ainda mais vaginalista porque vi que eles faziam coisas lá que nós não tínhamos coragem, ou não sabíamos, fazer aqui”, conta o médico.
No período em que passou dando plantões no hospital da Universidade Livre de Berlim e atendendo gestantes, entre 1990 e 1991, ele teve contato com diversas técnicas para contornar dificuldades do parto normal evitando cesáreas. Entre elas, a versão cefálica externa, manobra para virar de cabeça para baixo os bebês pélvicos (sentados) ou transversos, a coleta de sangue do couro cabeludo fetal, para confirmar ou não o diagnóstico de sofrimento fetal durante o parto, e a amnioinfusão, que consiste em injetar soro fisiológico pela vagina para diluir o mecônio (primeiras fezes do bebê) dentro da barriga da mãe. Usuais no exterior, essas técnicas nunca interessaram seus colegas brasileiros. “Ao contrário, tudo o que eu propunha para facilitar o parto normal, ninguém tinha vontade de ouvir”, lamenta ele.
Embora não tenham encontrado eco na universidade, as técnicas que aprendeu influenciaram a sua própria prática: “Minha taxa de cesárea, que antes de ir para a Alemanha era de 25%, caiu para 10% a 15%”, relata. Cerca de dez anos depois da experiência, ainda sem encontrar interlocutores no meio acadêmico, ele os achou na internet. “Pesquisando o assunto, caí no site Amigas do Parto, que representava uma verdadeira revolução. Só então descobri que existia gente que pensava como eu.”
Um tempo depois, no intervalo de um evento na Prefeitura de São Paulo, ele foi procurado por duas das quatro fundadoras desse grupo de mulheres, Ana Cristina Duarte e Andrea de Almeida Prado. Com seu jeito direto, Ana Cris logo disparou algumas perguntas. “Você atende convênios?”, quis saber. “Não, estou largando os convênios”, ele respondeu. “Por quê?”, questionou ela. Ele explicou que depois de atender por dez anos em planos de saúde, de 1991 a 2001, havia concluído tratar-se de uma fórmula difícil de dar certo, uma equação que não fecha. “Faz parto em casa?”, perguntou ela em seguida. “Já pensei em fazer, mas tenho medo”, disse ele. “Medo de que?”, devolveu ela. Ele adorou seu jeito direto. Começava ali uma parceria que continua até hoje: ela se tornou obstetriz e ele é um dos médicos na sua retaguarda. “Esse movimento mudou minha vida”, costuma dizer.

Trabalho em equipe

Um novo encontro entre os dois marcaria o início da formação de uma equipe humanizada de assistência ao parto. No final de um evento em que Ana Cris falou sobre o papel da doula e Kuhn estava na plateia, ela se aproximou e disse: “Jorge, você faz versão cefálica externa?” Ele disse: “Faço”. “Qual é a sua taxa de sucesso?” “Cerca de 50%.”. Como doula, ela acompanhava uma gestante que queria muito ter o bebê em casa de parto, mas não podia porque ele estava pélvico, uma situação que foge ao protocolo desse tipo de instituição, que só aceita gestantes de baixo risco.
Kuhn aceitou fazer uma tentativa de virar esse bebê no dia de seu plantão no Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, do SUS, onde atua há 32 anos. Mas a manobra não teve sucesso. “Na hora eu vi a cara de decepção do casal. Ela começou a chorar, dizendo que então teria que fazer uma cesárea. Sem pensar, eu falei que não precisava ser cesárea, que poderia ser parto normal. Foi um erro: eu não era o obstetra dela. Mas na hora eu não pensei em nada, queria apenas ajudar.”
Dois dias depois, apareceram todos – a mulher, o marido e a doula – em seu consultório. Kuhn se assustou: “Não quero vocês aqui, voltem para a sua obstetra”, ele disse à gestante, então na 39ª semana, cujo bebê continuava pélvico. Os três argumentaram que queriam apenas conversar. E ele acabou concordando.
O nascimento de Pedro Gabriel, em 30 de março de 2003, foi um marco na história da equipe que mais tarde se reuniria na Casa Moara porque uniu pela primeira vez os obstetras Jorge Kuhn e Andrea Campos – então médica residente em seu plantão das segundas-feiras no Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros –, além de Ana Cris, como doula. E logo num parto pélvico!

“Nunca fiz cesárea a pedido”

Hoje a maioria das pacientes chega até ele por indicação do movimento da humanização. Sem exceção, buscam o parto normal. “Quando atendia convênio, tinha pacientes que queriam cesárea. Nesses casos eu falava: então temos um tempo para saber porque você tem medo do parto normal. Se ela não mudasse de opinião, eu recomendava um colega. Nunca fiz cesárea a pedido”, diz.
Para ele, a maioria das mulheres que pedem cesárea têm medo da dor. “Quando o parto saiu de casa e foi para o hospital, as mulheres esqueceram muitas coisas. A confiança nelas, principalmente. Acho que isso vai demorar muito tempo para mudar.” Os médicos, segundo ele, também têm sua parcela de responsabilidade: “Eles se apossaram desse conhecimento e passaram a achar – e isso nem é proposital – que a mulher não é capaz mesmo”, avalia Kuhn.
Nadando contra a corrente, ele afirma que os partos que lhe dão mais prazer são aqueles em que não precisa intervir. “Nada me dá mais contentamento do que estar apenas observando. Os maridos falam: você não fez nada! É isso mesmo. Não é dar o peixe, é ensinar a pescar. Gosto de ver quando a mulher consegue sozinha e eu fico ali apenas como um observador ao seu lado”, explica.
Parece natural, mas essa é uma postura que não veio de um jeito fácil: ao contrário, foi conquistada com humildade e disposição para rever com frequência a sua própria prática médica. “Eu sou muito aberto. A medicina é a ciência das verdades transitórias. O que é verdade hoje pode mudar daqui a dez anos”, justifica. E cita como exemplo a episiotomia, o corte no períneo feito para ampliar a abertura da vagina na hora do parto. “Até dez anos atrás, eu cortava o períneo de toda mulher no primeiro parto e nas que tinham tido episiotomia prévia. Então a taxa de episiotomias era de 100%! Só não fazia quando não dava tempo. Depois fui estudar, ver as evidências. E mudei. Tem que ter essa inquietação.”
Pouco depois de voltar da Alemanha, Kuhn também começou a estudar a Medicina Baseada em Evidências (MBE). Foi quando descobriu que mais de 90% das práticas em obstetrícia não eram embasadas em evidências científicas sólidas, mas em opiniões de especialistas: é a tal da “Medicina Baseada em Eminências”, como brincam alguns médicos. “A MBE casa muito bem com a atenção humanizada, que busca, além de devolver o protagonismo feminino no parto, evitar práticas inefetivas ou maléficas, ou seja, tudo o que é desnecessário.”

Nascimento difícil

Nascido num parto difícil, com fórceps, em que ele e a mãe quase morreram, Kuhn, que é filho de um casal de auxiliares de enfermagem, passou boa parte da vida ouvindo de todos ao redor que seu interesse por obstetrícia era uma tentativa de resgatar o próprio nascimento. É uma possibilidade.
Deixando de lado a subjetividade dessa ideia, o que se sabe de concreto é que a Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes, onde Kuhn estudou, estimulava ao final do terceiro ano concursos para selecionar acadêmicos de medicina que desejassem fazer estágio em várias maternidades de São Paulo. Ele, que já se interessava pelo assunto, estudou com afinco e conquistou uma vaga na extinta Associação Maternidade de São Paulo, na rua Frei Caneca, onde estagiou de 1976 a 1978, quando se formou.
“Aprendi muito da parte prática na querida e saudosa Maternidade de São Paulo. No final do quarto ano de medicina eu já estava fazendo fórceps: parto normal era arroz com feijão. No final do quinto ano, fazia cesárea. Naquela época a gente botava muito a mão na massa”, lembra ele. Continuou naquele hospital nos dois anos seguintes, quando também começou a fazer residência no Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros. Hoje integrante do SUS, o hospital na época se chamava Casa Maternal e da Infância e era gerido pelo extinto Inamps.
Foi no Leonor Mendes de Barros que conheceu a também ginecologista e obstetra Esmerinda Maria Cavalcante, a Mema – ele era residente e ela, estagiária – com quem casou e teve três filhos: Renata, Clara e Otávio. Como os partos dela foram fáceis, ele “pegou” os três bebês. “Mema é boa parideira”, elogia. Trabalham juntos até hoje: ela costuma auxiliar os partos atendidos por ele.
Na mesma época, no mesmo hospital, Kuhn conheceu o obstetra Wilson Ariê, sua mais importante referência profissional. “Ele foi meu chefe na residência e continua até hoje, 32 anos depois. É um profissional fantástico, que estimula os outros a estudar, um verdadeiro professor e guru”, elogia.

Três grandes paixões

Os plantões naquele hospital público, que Kuhn mantém religiosamente às segundas-feiras, semana sim, semana não, são uma boa oportunidade de praticar a obstetrícia. “Lá nascem cerca de 20 bebês por dia. Com esse volume, dificilmente terei no consultório um caso que nunca tenha visto lá. E muitos casos que vi lá eu nunca terei no consultório, por serem muito raros. É uma maternidade de alto risco, uma das minhas paixões.”
Outra é o exame de cardiotocografia, usado para avaliar a vitalidade fetal, tema de sua dissertação de mestrado, concluído em 1987. O doutorado, motivo da viagem para a Alemanha, acabou ficando inconcluso. “Estudei a influência da anestesia sobre a frequência cardíaca fetal durante o trabalho de parto. E vi o quanto pode ser prejudicial para o bebê. Uma pena que não consegui concluir”, lamenta. No entanto, o doutorado está fora de seus planos de futuro. “Perdi o encantamento”, alega. Mas não cogita abandonar seu trabalho de professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Ensinar é outra paixão que tenho, um trabalho que me deixa muito motivado.”
Em 2004, estimulado pelo movimento da humanização, do qual se tornou um dos nomes mais reconhecidos em São Paulo, passou a atender partos domiciliares. E continua sentindo o mesmo medo de quando conheceu uma das fundadoras das Amigas do Parto. “A resposta que eu dei à Ana Cris naquele dia continua válida até hoje: embora não exista uma proibição formal, o Conselho Regional de Medicina (CRM) é contrário ao parto fora do ambiente hospitalar”, explica. Se um dia o CRM soltar uma resolução sobre o assunto, Kuhn só vê um caminho: parar de atender partos domiciliares e deixá-los para as enfermeiras. O que não o entristece, pois é exatamente nisso que acredita. “São elas que têm que fazer parto em casa, não o médico. O melhor modelo que existe é esse mesmo: o atendimento primário com enfermeiras para as gestantes normais e o secundário, que seria a retaguarda, com os médicos.” Pena que no Brasil esse ainda seja um sonho muito distante.

Reportagem originalmente publicada em julho de 2010.

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