Parto Extático – Parte 3

Cirurgia Cesariana

Em 2005, a cesariana foi realizada em 30,2% das mulheres americanas: a maior porcentagem na história dos Estados Unidos, representando mais de1,25 milhões de bebês nascidos por via não vaginal. 81 A cesariana envolve uma grande cirurgia abdominal e aumenta em quatro vezes o risco de morte materna, e por volta de duas vezes para mulheres de baixo-risco tendo uma cesariana eletiva.82,83 Recentes pesquisas também sugerem maior mortalidade infantil seguindo uma cesariana84, que pode refletir o aumento dos riscos de problemas respiratórios para bebês nascidos por cesarianas.85

Assim como todos esses riscos de curto prazo, uma cesariana prévia pode aumentar os riscos para a saúde da mãe e do bebê em todas as gravidezes seguintes. O aumento de riscos em longo prazo incluem: infertilidade e gravidez ectópica86, morte uterina sem explicação87, problemas placentários incluindo ruptura da placenta88, placenta prévia, placenta acreta e percreta,89 e histerectomia de emergência pós-parto,90todas elas representando riscos de vida para a mãe e bebê.

Obviamente, o trabalho de parto é mais curto ou inexistente no caso de uma cesariana, e os picos de ocitocina, endorfinas, catecolaminas e prolactinas são ausentes. Assim, mulheres e bebês são normalmente separados durante algumas horas após o parto, fazendo com que a primeira mamada seja prorrogada. Ambos serão afetados pelo prolongamento dos efeitos das drogas usadas no procedimento (anestesia epidural, geral ou raquidiana) e pelos analgésicos pós-operativos.

As conseqüências de tais radicais alterações de nosso modelo hormonal estão sugeridas no trabalho de pesquisadores australianos, que entrevistaram 242 mulheres no final da gravidez e após o parto. Os 50% das mulheres que tiveram um parto espontâneo vaginal eram as mais propensas a experimentar uma acentuada melhora no humor e na elevação da auto-estima após o parto. Comparativamente, os 17% que tiveram uma cirurgia cesárea eram mais propensas a experimentar uma baixa no humor e na auto-estima. As mulheres restantes tiveram parto realizado com fórceps ou vácuo extrator, e seus humores e auto-estima foram, na média, inalterados. 91

Outro estudo analisou a prolactina e ocitocina, hormônios da amamentação, no segundo dia, comparando mulheres que tiveram parto vaginal com mulheres que passaram por uma cirurgia cesariana de emergência. No grupo da cesariana, os níveis de prolactina não aumentaram como o esperado com a amamentação, e as pulsações de ocitocina foram reduzidas ou ausentes. Neste estudo, a primeira mamada foi por volta dos 240 primeiros minutos de vida, em média, para os bebês nascidos por cesariana, e de 75 minutos para os bebês nascidos por via vaginal. A duração da amamentação não foi significativamente diferente entre essas mães.

Os autores comentam, “Esses índices indicam que a amamentação logo após o parto e que a proximidade física podem estar associadas não só com maior interação entre mãe e criança, mas também com mudanças endócrinas (hormonais) na mãe”. 92

Outra pesquisa mostrou que a amamentação logo após o nascimento e mamadas freqüentes influenciam positivamente a produção de leite e a duração da amamentação. 93

Esses estudos não apenas indicam ligações importantes entre o parto e a amamentação, mas também mostram como uma experiência de parto ótimo pode influenciar na saúde da mãe e do bebê a longo prazo. Por exemplo, uma amamentação bem sucedida confere vantagens como a redução do risco de câncer de mama e osteoporose para a mãe, e redução do risco de diabetes e obesidade a longo prazo para a criança. O aumento da auto-estima e confiança após um parto natural é uma base sólida na qual se inicia a maternidade.

As conexões entre eventos no parto e na saúde a longo prazo certamente merecem mais estudos. (Veja o Primal Health – Banco de Dados de Michel Odent www.birthworks.org/primalhealth para um resumo das atuais pesquisas). Entretanto, nós não podemos esperar anos para que os pesquisadores “provem” os benefícios de um parto não-perturbado. Talvez, o melhor que podemos fazer é confiar em nossos instintos e confiar em nossos corpos, escolhendo modelos de assistência que aumentem nossa chance de um parto-extático-não-perturbado.

Separação Precoce

Mesmo em contextos de não-intervenção, é raro que o bebê permaneça nos braços de sua mãe pelas primeiras horas de vida. Ainda que esse tempo seja excepcional, de uma perspectiva hormonal, esse momento nunca mais se repetirá para essa mãe e esse bebê. A suprema orquestração hormonal prevista pela natureza, como descrito anteriormente, inclui picos dos hormônios do amor, prazer, excitação e maternidade que irão aumentar a ligação entre mãe e filho, e serão como uma “iniciação” da amamentação para ambos. Interferências nessa oportunidade, separando mãe e bebê, podem ter implicações significativas a curto, médio e longo prazos.

Para ambos, mãe e bebê, o período imediatamente após o nascimento é associado com altos níveis de CA que aumentam o sistema de alerta e a energia e potencializam a iniciação à amamentação. Os níveis de pico de ocitocina materna na primeira hora acentuam a resposta ao comportamento materno, seja no cérebro como nos seios, e ativam o “circuito materno” – áreas do cérebro que mediam o comportamento de instinto materno – em mães mamíferas. Altos níveis de beta-endorfinas nesse período garantem o prazer e a recompensa para as interações entre mãe e filho, e os níveis ideais de prolactina podem ser importantes para a produção de leite a longo prazo.

Todos esses sistemas hormonais são potencializados pelo contato pele com pele entre mãe e bebê imediatamente após o parto, que reduz o choro e o estresse, mantém o recém-nascido aquecido e melhora a adaptação fisiológica,94,95 mesmo até dois dias após o parto.96

Para a mãe, o contato pele com pele com o início da amamentação logo após o parto aumenta a produção de leite,97 e a amamentação freqüente e iniciada logo após o parto está também associada com o aumento da duração do período de amamentação.93

Ao contrário, a remoção do recém-nascido da mãe, mesmo por um curto período, interfere no desenvolvimento do comportamento pré-amamentação do recém nascido, que inclui movimentar-se sobre o abdômen da mãe, localizar o seio e espontaneamente começar a mamar.98

Como Bergman comenta, “O comportamento neural chamado “amamentação” é uma crítica estratégia de sobrevivência para o ser humano recém-nascido, e é um comportamento que depende inteiramente do programa do sistema límbico, que por sua vez depende inteiramente em estar no habitat certo: o meio materno. Qualquer separação é potencialmente nociva ao programa neuro-comportamental, e representa uma oposição a ele. Portanto o meio materno é especificamente necessário desde o momento do nascimento, e deveria ser contínuo. Sem isso, o neuro-comportamento que resta é de “protesto e desespero”, que desliga o “comportamento de amamentação”.99

Diversos estudos mais antigos mostraram vantagens, até a idade de três anos, para binômios mãe-filho que experimentaram um contato extra na hora seguinte ao nascimento. Isso inclui interações mais positivas entre ambos,100-102 maior duração do período de amamentação 102,103 e interações de linguagem mais complexas quando a criança completa dois anos.104

Otimizando o êxtase

As sugestões a seguir podem ajudar a mulher a acionar o seu modelo hormonal, e assim aperfeiçoar a experiência e a segurança para a mulher e para o bebê durante o parto.  Lembre-se que o parto é “um orgasmo em essência”105 e que, portanto, as condições para o parto são idealmente as mais próximas possíveis das condições para fazer amor.

  • Responsabilize-se pela sua saúde, cura e integridade ao longo da idade reprodutiva;
  • Escolha um modelo de assistência que potencialize a possibilidade de um parto natural e não-perturbado (como o parto em casa, em uma Casa de Parto, assistência individual com parteira);
  • Procure a assistência de acordo com suas necessidades individuais: escolha alguém com quem tenha uma relação amorosa; o cuidado continuado das pessoas que vão dar o suporte na hora do parto também é importante;
  • Considere a possibilidade de ter uma “mediadora” em um parto em hospital – como uma parteira particular ou uma doula;
  • Assegure uma atmosfera onde possa se sentir segura, não observada e livre para seguir seus próprios instintos durante o trabalho de parto;
  • Reduza o estímulo neocortical – mantendo luzes e barulhos suaves e reduzindo as palavras ao mínimo;
  • Esconda o relógio e qualquer outro equipamento técnico;
  • Evite medicamentos, a não ser que seja absolutamente necessário;
  • Evite procedimentos (incluindo observações óbvias) a não ser que seja absolutamente necessário;
  • Evite uma cirurgia cesariana, a não ser que seja absolutamente necessária;
  • Não se separe de seu bebê por nenhuma razão, incluindo ressuscitação, que pode ser feito sem o corte do cordão.
  • Amamente e desfrute!

Parir é um ato de amor, e cada parto é único para a mãe e seu bebê, mesmo que todas compartilhem a mesma fisiologia feminina e a mesma refinada orquestração dos hormônios do nascimento. Nossa capacidade de êxtase no parto é a um só tempo única e universal, uma bênção necessária, e que mesmo sendo totalmente inerente aos nossos corpos requer, especialmente no momento atual, que confiemos, honremos e protejamos o ato de parir de acordo com nossos instintos e necessidades.

O holandês G. Kloosterman, professor de obstetrícia, oferece um resumo sucinto do que poderia ser colocado na porta de cada sala de parto:

“O trabalho de parto espontâneo em uma mulher normal é um evento marcado por uma série de processos tão complexos e tão perfeitamente afinados um ao outro, que qualquer interferência irá apenas distanciar o evento de seu caráter ótimo. A única coisa exigida dos espectadores é que mostrem respeito por esse imponente processo, cumprindo a primeira regra da medicina – nil nocere [não cause nenhum dano]”.106

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*Versões prévias deste artigo foram publicadas em Mothering Magazine, número 111, Março-Abril de 2002, e Byron Child (Austrália), número 5, Março de 2003.

Este material foi atualizado e ampliado como “Undisturbed Birth: Mother Nature’s hormonal blueprint for safety, ease and ecstasy” disponível no livro de Sarah: “Gentle Birth, Gentle Mothering: The wisdom and science of gentle choices in pregnancy, birth, and parenting” (Parto Suave, Maternagem Suave: A sabedoria e a ciência de escolhas suaves na gravidez, parto e maternagem) publicado nos EUA como “Gentle Birth, Gentle Mothering: A Doctors Guide to Natural Childbirth and Gentle Early Parenting Choices”. (Parto Suave, Maternagem Suave: Um Guia Médico Para o Parto Natural e Escolhas da Primeira Maternidade)

Veja o site www.sarahjbuckley.com para mais textos de Sarah e para adquirir seu livro.

Este artigo pode ser copiado e divulgado para uso pessoal, inclusive por profissionais da área, desde que se mantenham os créditos das informações.

Para permissão para traduzi-lo, publicá-lo ou divulgá-lo online, por favor, entre em contato com Sarah através de seu website:www.sarahjbuckley.com

© Dr Sarah J Buckley MD 2007

Tradução para o Português: Letícia Koehler, jornalista humanitária (leticialk@hotmail.com)

Revisão: Grupo de Textos da Rede Parto do Princípio (www.partodoprincipio.com.br).

Tradução e divulgação no site autorizadas por Sarah Buckey (www.sarahbuckey.com).

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