Parto Extático – O modelo hormonal naturalmente previsto para o trabalho

Parto Extático – Parte 1.
Dra. Sarah J. Buckley

Dar a luz em êxtase: esse é nosso direito de nascença e a intenção de nossos corpos. A natureza, em sua sabedoria, prescreve hormônios do parto que nos deixam fora do nosso estado usual, para que assim possamos ser transformadas em todos os níveis quando entramos na condição de mães.

Essa requintada orquestração hormonal se desenvolve de forma plena quando o parto não é perturbado, provendo segurança durante o processo para mãe e bebê. A ciência está descobrindo e confirmando o que nós já havíamos descoberto enquanto mães: que a forma como parimos nos marca por toda a vida (para mãe e bebê) e que um parto extático – um parto que nos leva além de nosso eu – é um presente único.

Quatro dos nossos maiores sistemas hormonais estão ativos durante o trabalho e o parto. Esse produto resulta, durante o trabalho de parto e o parto, em picos de ocitocina, hormônio do amor; endorfinas, hormônios do prazer e da transcendência; epinefrina e norepinefrina, hormônios da excitação, e prolactina, hormônio da maternidade. Esses sistemas são os mesmos para todos os mamíferos, e se originam na estrutura primitiva do cérebro – o sistema límbico.

Para que o parto proceda de forma ótima, essa parte do cérebro deve ter precedência sobre o neocórtex, ou cérebro racional. Tal mudança de funcionamento cerebral pode ser ajudada por uma atmosfera de silêncio e privacidade, com, por exemplo, luz fraca e pouca conversa, e sem expectativas de racionalidade da mulher em trabalho de parto. Sob tais condições a mulher intuitivamente escolherá os movimentos, sons, respiração e posições que ajudarão a parir seu bebê da maneira mais fácil. Esse é seu modelo hormonal e genético.

Todos esses sistemas hormonais são adversamente afetados pelas atuais práticas de obstetrícia. O ambiente e as práticas de rotina dos hospitais não condizem com a mudança de funcionamento da consciência requeridas para parir naturalmente. A fisiologia hormonal da mulher é atrapalhada por práticas como indução, uso de epidural e analgésicos, cirurgia cesariana e separação da mãe e filho após o nascimento, como descrito a seguir.

Hormônios no Parto

 

Ocitocina

Talvez o mais conhecido hormônio do nascimento seja a ocitocina, hormônio do amor, que é secretado durante a atividade sexual, sendo responsável pelo orgasmo masculino e feminino, e pela amamentação. A ocitocina envolve sentimentos de amor e de altruísmo; como Michel Odent diz, “A ocitocina está envolvida em qualquer faceta do amor que consideremos”.1

A ocitocina é produzida no hipotálamo, no fundo do cérebro primitivo mamífero, e é armazenada na seção posterior da pituitária, a “glândula mor” do sistema hormonal endócrino, de onde é liberada por meio de pulsações. É um hormônio crucial na reprodução e media o que nós chamamos de reflexos de ejeção: o reflexo de ejeção do esperma com o orgasmo masculino (e o correspondente reflexo de introjeção do esperma no orgasmo feminino); o reflexo de ejeção fetal no parto (uma expressão criada por Michel Odent para as poderosas contrações no final de um trabalho de parto não perturbado, que faz com que o bebê nasça rápida e facilmente) 2; no pós-parto, o reflexo de ejeção da placenta e o reflexo de ejeção do leite na amamentação.

Assim como a ocitocina atinge níveis de pico em cada uma dessas situações, ela é secretada em quantidades extra durante a gravidez, atuando para aumentar a absorção de nutrientes, reduzindo o estresse e conservando energia tornando as mulheres mais sonolentas. 3 A ocitocina também causa as contrações rítmicas do trabalho de parto, e seu nível atinge o pico durante este através da estimulação dos receptores alongados na parte baixa da vagina quando o bebê desce. 4

Os altos níveis de ocitocina materna durante o trabalho de parto e o parto também beneficiam o bebê. Pesquisas descobriram que a ocitocina materna atravessa a placenta e entra no cérebro no bebê durante o trabalho, quando age para proteger as células cerebrais fetais “desligando-as”, diminuindo o consumo de oxigênio em um momento em que os níveis de oxigênio disponíveis para o feto são naturalmente baixos.5

O alto nível de ocitocina materna permanece após o trabalho de parto, culminando com a dequitação da placenta 6, e é estimulado pelo comportamento do bebê durante a amamentação e no momento que antecede a ela.7  Os elevados níveis de ocitocina materna irão proteger contra hemorragia pós-parto neste momento crucial garantindo eficientes contrações uterinas.8

O bebê também produziu ocitocina durante o trabalho de parto, talvez contribuindo para os processos do mesmo,9 portanto, nos minutos após o parto, ambos mãe e bebê estão banhados em um extático coquetel de hormônios. Neste momento, a produção de ocitocina no recém-nascido é favorecida pelo contato visual e pele a pele entre mãe e bebê. Os níveis no recém-nascido subsistem durante a primeira hora após o parto, mas permanecem acima do normal por ao menos quatro dias.10 Os níveis da ocitocina infantil são elevados também durante a amamentação, através da ativação do nervo vago.11

Durante a amamentação, a ocitocina media o reflexo da saída do leite e é liberada por pulsações à medida que o bebê mama. Durante meses e anos de lactação, a ocitocina continua a agir para manter a mãe relaxada e bem nutrida. Certa pesquisadora chama isso de “uma situação muito eficiente anti-estresse que previne muitas futuras doenças”. Em seu estudo, mães que amamentaram por mais de sete semanas eram mais calmas, quando seus bebês tinham seis meses de idade, do que mulheres que não amamentaram. 12

Fora do seu papel na reprodução, a ocitocina é secretada em outras situações de amor e altruísmo, como por exemplo, ao compartilhar uma refeição. 11 Pesquisadores diagnosticaram disfunções do sistema de ocitocina em condições como a esquizofrenia, 13 autismo, 14,15 doença cardiovascular 11,16 e dependência de drogas, 17 e sugerem que a ocitocina possa mediar o efeito antidepressivo de drogas como o Prozac.18

Pesquisas mais recentes implicaram a ocitocina nas relações de interações entre indivíduos, 19 que pode refletir seu papel baixando a atividade da amígdala cerebelar: uma estrutura cerebral que processa emoções de medo e agressividade. 20

Beta-endorfina

Atuando como um opióide natural, a beta-endorfina tem propriedades particulares às drogas opiáceas como petidina (meperidina, Demerol), morfina e heroína, e tem sido provado que atua nos mesmo receptores do cérebro. A Beta-endorfina também é secretada pela glândula pituitária, (e em outras partes do cérebro e do sistema nervoso) e níveis elevados desta substâncias estão presentes no corpo durante o sexo, gravidez, parto e amamentação.

A beta-endorfina é também um hormônio do estresse, liberado sob condições de dor, atuando como analgésico e, como os outros hormônios do estresse, suprimindo o sistema imunitário. Esse efeito pode ser importante para prevenir que o sistema imunológico da mãe aja contra o bebê, cujo material genético é estranho ao seu.

Da mesma forma que os opióides que causam vício, a beta-endorfina induz sensações de prazer, euforia e dependência, ou, com um parceiro, de dependência recíproca. Os níveis de beta-endorfina são altos na gravidez e aumentam através do trabalho de parto, 21 quando os níveis de beta-endorfina e corticotrofina (outro hormônio do estresse) atinge os encontrados em homens no ápice do esforço físico de uma maratona. 22Tais elevadas taxas ajudam a mulher em trabalho a transmutar a dor e entrar no estado alterado de consciência que caracteriza um parto não perturbado.

A relação da beta-endorfina com outros sistemas hormonais é complexa e apenas parcialmente compreendida. 23 Durante o trabalho, altos níveis de beta-endorfina irão inibir a liberação de ocitocina. Isso explica porque quando a dor ou o estresse são muito intensos, as contrações irão desacelerar, induzindo o trabalho de acordo com o estresse fisiológico e psicológico da mulher. 24

A beta-endorfina também facilita a liberação de prolactina durante o trabalho, 25 preparando os seios da mulher para a lactação e cuidando dos estágios finais de maturação dos pulmões do bebê. 26

A beta-endorfina também é importante na amamentação. Os níveis atingem um pico na mulher 20 minutos após o parto 27 e também está presente no leite materno, 28 induzindo uma prazerosa dependência mútua entre mãe e filho na relação que está por iniciar-se.

Hormônios da luta ou fuga

Os hormônios adrenalina e noradrenalina (epinefrina e norepinefrina) também são conhecidos como hormônios da “luta ou fuga”, ou, coletivamente, como catecolaminas (CAs). São secretadas pela glândula supra-renal, localizada acima dos rins, como resposta a estresses como medo, ansiedade, fome ou frio, quando ativam o sistema nervoso simpático para lutar ou fugir em situações de risco. A noradrenalina também é parte de um importante sistema de sinalização do cérebro que ativa (e é por ele ativado) o reflexo de lutar ou fugir.

Altos níveis maternos de CAs estão associados com a inibição do trabalho de parto, que pode refletir seus efeitos imediatos inibindo os músculos uterinos 29 e possivelmente reduzindo a liberação de ocitocina, como sugerido em experimentos com ratos. 30 Como parte da resposta lutar ou fugir, as CAs também atuam redirecionando o sangue para os principais grupos musculares: isso resulta na redução do fluxo sangüíneo para o útero e placenta (e, portanto, para o bebê).

Isso faz sentido para mamíferos que estão parindo em situações selvagens, onde a presença de perigo poderia ativar esse mecanismo de lutar ou fugir, inibindo o trabalho e provendo energia muscular para que a mãe vá em busca de um lugar seguro. Nos humanos, altos níveis de CAs podem estar associados a trabalhos mais longos e alterações no padrão de batimento cardíaco do feto (uma indicação de falta de sangue e oxigênio para o bebê em trabalho de parto).31

Após um trabalho de parto não perturbado, contudo, quando o momento do nascimento está iminente, esses hormônios podem agir de uma maneira diferente. Um abrupto aumento nos níveis de CAs, especialmente de noradrenalina, pode ativar o “reflexo de ejeção fetal”. Isso dá à mãe um repentino aumento de energia, e ela normalmente assume uma postura ereta, uma posição de alerta, e pode sentir a boca seca e a respiração curta, associada com altos níveis de adrenalina/epinefrina, e pode também sentir a necessidade de agarrar-se em algo. Ela pode expressar medo, raiva ou excitação, e é possível que o aumento de CA cause algumas contrações muito fortes, parindo o bebê de forma rápida e fácil.32

A explicação desse modelo fisiológico conta com o suporte de pesquisas que mostram que baixos níveis de epinefrina inibem a contratilidade do útero, enquanto que níveis muito altos, misturados com epinefrinas/norepinefrinas, como pode ocorrer ao fim de um trabalho de parto não perturbado, aumentam a contratilidade. 29 Estudos também mostram que existe um amplo leque de níveis de CA durante o parto, com algumas mulheres apresentando taxas de epinefrina ou norepinefrina 5 a10 vezes mais elevadas que outras. 31-33

Algumas assistentes do parto têm feito bom uso deste reflexo quando uma mulher está tendo dificuldades no segundo estágio do trabalho de parto. Por exemplo, um antropólogo trabalhando com tribos canadenses, registrou que, quando uma mulher está tendo problemas no parto, os mais jovens da tribo se reúnem para ajudá-la. Eles se aproximam da mulher de forma inesperada e gritam, e com o choque ativam o reflexo de ejeção fetal e como resultado o parto se acelera. 2

Após o parto, os níveis de CA na mãe caem drasticamente, e ela pode sentir tremedeira ou frio como conseqüência. Uma atmosfera aquecida é importante, pois se a mãe não tiver ajuda para se aquecer, o estresse do frio irá manter seus níveis de CA elevados após o parto, inibindo a liberação natural de ocitocina e, portanto, aumentando o risco de hemorragia pós-parto. 34

A noradrenalina, como parte do coquetel extático de hormônios, é relacionada com o comportamento maternal instintivo. Em experiências com ratos, aqueles deficientes em noradrenalina não cuidaram de seus filhotes após o parto, até que a substância fosse re-injetada em seus sistemas. 35

Para o bebê o parto é também um evento excitante e estressante, refletido nos altos níveis de CA. 36 Nos estágios finais do trabalho o bebê experimenta o surgimento de CA, que ajuda no nascimento protegendo-o contra os efeitos de hipóxia (falta de oxigênio). Esses hormônios também preparam o bebê para a vida extra-uterina intensificando a função dos pulmões, aumentando o combustível metabólico e ativando o sistema termogênico do recém-nascido (produção de calor). 37

Altos níveis de CA no nascimento também vão garantir que o bebê esteja alerta e com os olhos bem abertos para seu primeiro contato com a mãe.37 Os níveis de CA no bebê também caem rapidamente após um parto não perturbado, sendo suavizado pelo contato físico com a mãe.

Prolactina

Conhecido como o hormônio do instinto materno, a prolactina é o principal hormônio para a síntese do leite materno e a amamentação. Tradicionalmente acreditava-se que produzia um comportamento de agressividade protetora (o efeito da “mãe tigre”) em fêmeas que amamentavam, e estudos em humanos sugerem que a prolactina aumenta o estado de alerta e de agressão protetora. 38

Níveis de prolactina aumentam na gravidez, embora a produção de leite seja hormonalmente inibida até que a placenta seja expulsa. Os níveis de prolactina durante o trabalho diminuem, e então aumentam no final do trabalho, atingindo seu pico no momento do parto. 39

A prolactina é também o hormônio da submissão e da entrega – em grupos de primatas, o macho dominante é o que apresenta o nível mais baixo de prolactina40 – e produz alguns graus de ansiedade. Na relação de amamentação esses efeitos ativam a vigilância da mãe e a ajudam a colocar as necessidades do seu bebê em primeiro lugar. 38

O bebê também produz prolactina durante o período de gestação, e os níveis aumentam ao longo do trabalho de parto41, podendo ajudar na adaptação do recém-nascido para os novos sistemas respiratório26 e de regulação térmica. 42

Parto Não Perturbado

O Parto Não Perturbado é extremamente raro na nossa cultura, mesmoem Casas de Parto e nos partos domiciliares. Dois fatores que perturbam o parto para todos os mamíferos são, antes de tudo, estar em um lugar estranho, e em segundo lugar estar na presença de um observador. Sentir-se seguro e em privacidade, portanto, é fundamental. Apesar disso, todo o sistema da obstetrícia ocidental é devotado a observar a mulher grávida e em trabalho de parto, seja por máquinas ou por pessoas, e quando o parto não está progredindo bem os atendentes respondem com uma observação ainda mais intensa. É, sem dúvida, impressionante que qualquer mulher possa dar à luz nessas condições.

Alguns escritores observaram que, para uma mulher, parir um filho tem muitos paralelos com a sua geração: os mesmos hormônios, as mesmas partes do corpo estão envolvidas, os mesmos sons, as mesmas necessidades de sentir-se seguro e em privacidade. Como poder-se-ia fazer amor nas condições em que se esperam que as mulheres dêem a luz?

Impactos das Drogas e dos Procedimentos de Rotina

 

Indução e Aceleração

Nos EUA, entre 21,2%43 e 41%44 das mulheres tiveram o trabalho de parto induzido, e até 55% das mulheres tiveram uma condução44 – estimulação ou aceleração do trabalho – com ocitocina sintética (Syntocinon, Pitocin).

A ocitocina sintética administrada durante o trabalho não atua como a ocitocina produzida pelo corpo. Primeiramente, as contrações induzidas pela droga são diferentes das contrações naturais, e essas diferenças podem causar uma redução do fluxo sanguíneo para o bebê. Por exemplo, as contrações induzidas podem acontecer muito próximas umas das outras quando uma dose muito alta é ministrada, podendo causar o aumento do tônus basal do útero,33 e resultando num trabalho precipitado (mais rápido que o necessário).

Em segundo lugar, a ocitocina, sintética ou não, não pode atravessar a corrente sangüínea da mãe para seu cérebro. Isso significa que a droga introduzida no corpo através de injeção ou veia, não atua como o hormônio do amor, e pode inclusive interferir no sistema natural de produção de ocitocina na mulher.

Recentes pesquisas mostraram que seguindo o uso do Pitocin, por exemplo, o número de receptores de ocitocina no útero da mulher em trabalho de parto seja reduzido pelo corpo para prevenir uma estimulaçãoem excesso. 45 Isso significa que a mulher que recebeu ocitocina sintética durante o trabalho de parto tem maiores riscos de hemorragia pós-parto, pois sua própria liberação de ocitocina, crítica nesse momento para contrair o útero e prevenir a hemorragia, será ineficiente, devido aos baixos números de receptores.

Além disso, devido à crescente compreensão dos efeitos psicoemocionais da ocitocina, o principal hormônio do “cérebro emocional” (sistema límbico), podemos também nos preocupar com as conseqüências no desenvolvimento do comportamento materno por interferir nesse sistema calmante e criador do estabelecimento da relação entre mãe e filho. 46

Como diz Michel Odent, “Muitos experts acreditam que, através da participação ativa na iniciação, que é seu próprio nascimento, o feto [bebê ainda não nascido] pode estar treinando a si mesmo para secretar seu próprio hormônio do amor”.47 Odent fala apaixonadamente sobre os déficits na capacidade de amar a si mesmo e aos outros, e rastreia esse problema até o momento por volta do nascimento, particularmente à interferência no sistema da ocitocina, quando esse sistema de produção do “hormônio do amor” é colocado em ação pela primeira vez.1

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4 comentários

  1. sibylle vogt disse:

    muito bom, queria as referencias citadas..Vocês podem me mandar?
    abs Sibylle

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    1. partoalegre disse:

      Oi Sibylle!
      Seguem abaixo as referências.
      Atenciosamente,
      Shana.

      Referências
       
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      Fonte: http://partodoprincipio.com.br

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