A cesárea que queremos

 

Adriana Tanese Nogueira, Débora Meister, Tricia Cavalcanti

Como assim, “que queremos”? Falando sério, nós não queremos não! Não vamos mentir. Nós abominamos que se corte nosso útero!
Porém… como não se pode prever o que irá acontecer, como faz parte de uma humanização com consciência saber que não detemos o controle sobre tudo, então…. se por acaso se fizer necessário… queremos que algumas coisas sejam diferentes do que costuma acontecer.

Em primeiro lugar, queremos uma cesárea somente se estivermos muito doentes e uma operação fosse o único jeito de nos proteger e a nosso bebê. Queremos também poder ter certeza de que o procedimento é necessário, sem conversas vagas, palavras difíceis e atitudes esquisitas da parte dos profissionais.
Se não estivermos doente, queremos uma cesárea somente quando, durante o trabalho de parto, percebermos – nós e os profissionais que estão conosco – que resta somente este caminho. Queremos poder escolher a cesárea, livre e responsavelmente, estar cientes de que é preciso.
Uma vez que na sala operatória, além de ter nosso companheiro o tempo todo ao lado, queremos que os profissionais nos comuniquem sobre cada procedimento que estão realizando; queremos também que tudo seja feito com calma e respeito, sem muita luz e barulho, que façam o máximo de silêncio possível. Como sabemos, há cesáreas durante as quais os médicos ficam contando piadas! Por isso, por favor, não conversem sobre bobagens durante o nascimento de nossos bebês. Se para vocês isto é rotina, para nós e nossos filhos este é um momento muito importante e especial. Portanto, fiquem em silêncio. Diminuam a luz na medida do possível e, além de serem competentes, procurem sentir a beleza desse momento.
Queremos que, antes do corte, seja conferido se a anestesia foi suficiente e adequada, para que não haja nenhum problema, nem dor, nem enxaquecas no resguardo. Se for possível escolher, preferimos que nos seja aplicada a peridural. Os efeitos colaterais da raqui podem ser muito ruins. Se precisamos passar por uma cesárea, não queremos sentir nada, mas, ao mesmo tempo, queremos permanecer acordadas e lúcidas. Queremos poder vivenciar da forma mais intima e ativa possível este momento, mesmo com seus limites.
Queremos também ter nossos braços livres. Cesáreas humanizadas significam que as mulheres têm o mínimo de consciência para não abanarem enlouquecidas seus braços durante a cirurgia, beliscando o traseiro de algum médico! Elas podem acompanhar a operação sem estar amarradas como em uma cruz.
Por favor, não apliquem a manobra kristeller a torto e a direito! Além dos riscos físicos que sabemos que existem, para nós, mulheres, não é nada agradável ver alguém subindo por cima de nós e nos apertando como um tubo de pasta dental. Apliquem este procedimento, somente sob indicação precisa, se realmente for necessário.
Queremos poder pegar nosso bebê assim que ele nascer, queremos que ele seja colocado encima de nós, sobre nosso peito, num contato pele-a-pele. Sentimos muita falta desse contato, desse primeiro olhar. Não queremos ver nosso bebê passando por nós zunindo, como se estivesse em um foguete.
Queremos sentir seu cheiro, olhá-lo nos olhos, falar com ele, enchê-lo de beijos. Portanto, esta é uma das nossas exigências: queremos estar com os braços livres para abraçar nosso bebê, e bem acordadas para não perder nenhum momento de seu nascimento.
Queremos que nossos bebês sejam respeitados: eles também sentem frio, cheiros, escutam e enxergam mais do que imaginamos. Segurem-os com delicadeza, e traguem-os o mais breve possível para junto de nós, para que eles sintam o calor materno e possam reconhecer o som da nossa voz. Não precisa ter pressa. Se possível, esperem o cordão parar de pulsar antes de cortá-lo.
Queremos que o exame do neonatologista seja realizado ao nosso lado. Não queremos perder de vista nosso bebê nem por um instante. E, finalmente, depois da cirurgia, queremos ficar acordadas. Por que nos dopar nas primeiras horas de nossa maternidade? Seria como casar, sair da igreja e tomar um sonífero!
Queremos amamentar nosso bebê ainda na sala de parto, e, se realmente não for possível, queremos que nosso companheiro fique com ele no colo até que nós possamos fazê-lo. Exigimos que nosso filho tenha a chance de ser amamentado nesses primeiros momentos para que sinta o cheiro de sua mãe, para que possamos nos reconhecer.
Não queremos ficar na recuperação pós-anestésica sozinhas, e sim queremos ter nosso companheiro e bebê o tempo todo conosco, ou seja, queremos ficar em um alojamento em conjunto. No pós-parto, queremos tratamento apropriado da parte das enfermeiras: que elas nos tratem bem, com delicadeza e consideração, tendo em vista que passamos por uma cirurgia. Queremos que nos seja colocada uma faixa, ou cinta, bem apertada, para ajudar na recuperação e queremos também que nossa dor seja respeitada, sem pressões para caminhar, levantar, ir ao banheiro ou qualquer outra coisa.
Finalmente, queremos que nossa voz seja ouvida, que nossa mensagem seja levada em consideração e que nossos profissionais de saúde não se sintam intimidados por mulheres conscientes que levantam suas necessidades. O parto é nosso, mas sem vocês não poderemos estar realmente tranquilas. Acreditamos que nossas exigências combinam com a ética e responsabilidade de qualquer profissional de saúde que saiba enxergar a força, beleza e alegria que cada nascimento traz.
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